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Créditos da imagem: Segunda Chamada/Globo/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Segunda Chamada - 1ª temporada

Série da Globo surpreende com um retrato fiel do ensino público para jovens e adultos

Henrique Haddefinir
26.12.2019
09h12
Atualizada em
06.01.2020
14h16
Atualizada em 06.01.2020 às 14h16

A relação entre professores e alunos é uma velha conhecida dos bons cinéfilos, que logo reconhecem dinâmicas parecidas entre títulos famosos como Mentes Perigosas (1995) e Mudança de Hábito 2 (1993), onde professores inspiradores e não convencionais conseguem alcançar alunos aparentemente impossíveis com métodos peculiares que sempre davam certo. E, em grande parte desses títulos, os alunos escolhidos eram oriundos de comunidades pobres, o que essas dramaturgias consideravam essencial para promover uma ideia de superação. Aqui no Brasil, foi só seguir a fórmula.

Segunda Chamada (com direção artística de Joana Jabace e direção de Breno Moreira, João Gomez e Ricardo Spencer) apareceu depois de um longo tempo em que as dificuldades da educação pública do país vinham sendo retratadas apenas em núcleos específicos dentro de novelas ou de modo mais direto em alguns longas de circuito limitado. A criação de Carla Fauor e Julia Spadaccini tem Jo Bilac no time, que já em uma de suas obras, a peça Conselho de Classe, retratava com fidelidade como funciona o ensino para jovens e adultos nos turnos noturnos de escolas públicas espalhadas por todo o país

Começamos a conhecer esse enredo pela ótica da Professora Lúcia (Débora Bloch), que perdeu o filho adolescente num trágico acidente ali mesmo nos arredores da escola, provocado por um misterioso atrito entre personagens que vai ser o item dramatúrgico nebuloso durante toda a temporada. A história de Lúcia é trágica em muitos níveis. Além da morte do filho, ela viu o marido sofrer um derrame logo em seguida, tudo isso enquanto também vivia um romance com o diretor da escola, igualmente casado. Lúcia era uma protagonista da Terceira Era de Ouro da Televisão, criada para sublinhar com categoria o talento da atriz escolhida para interpretá-la.

O corpo de docentes inclui ainda o professor de artes Marco André (Silvio Guindane), a professora de história Sonia (Hermila Guedes) e a professora de matemática Eliete (Thalita Carauta). Esses são aqueles que estão mais no centro das narrativas e marcam os contrapontos ao que acontece com Lúcia, sempre envolvida demais em seus próprios problemas. Os alunos vão e vem durante os episódios, mas alguns deles permanecem nas tramas durante toda a temporada. A transexual Natasha (Linn da Quebrada), a senhora religiosa Dona Jurema (Teca Pereira) e o mendigo Sílvio (José Dumont) são alguns deles.

Segunda Chamada Para Protagonistas

Como vem acontecendo com muitos dos produtos seriados da Globo, Segunda Chamada se substancializa através do drama, dando poucas chances ao espectador de respirar entre os ápices trágicos que permeiam todos os episódios. A série é arte feita para emocionar, para chocar; e vai cumprindo sua missão usando os contra-clichês do gênero: as tensões entre culturas, o parto, o aluno que encontra barreiras na família e mortes, muitas mortes. Até mesmo os recursos usados para aliviar minimamente a trama são teatralizados de modo a atingir a nota dramática que impressiona, sobretudo, o público leigo.

Esse, inclusive, parece ser um dos poucos poréns que ilustram a primeira temporada da série: sua necessidade constante de lidar com o drama adicionando mais drama, o que se reflete na maneira como a protagonista se comporta entre os eventos. Lúcia tem tantos pontos problemáticos que mais da metade de seu tempo de tela é usado para resolvê-los, afastando-a do contato com a sala de aula. Quando está nela é apenas para adicionar mais pesares. Pesada, a personagem se choca com as narrativas dos alunos, disputa com eles pelo posto de mais infeliz.

Por causa disso, nossos olhares se desviam para Eliete, por exemplo. A professora de Thalita Carauta representa muito bem a periferia, vendendo cosméticos na sala dos professores, entrando na sala de aula com seus cabelos crespos, cheia de otimismo e alegria, criando um equilíbrio perfeito e necessário para que, inclusive, os recursos dramáticos tenham mais impacto. O estado da rotina também é importante para conduzir histórias, que não podem já começar gritando, sob o risco de não serem ouvidas. Com quase uma morte por episódio, é difícil começar a lamentar verdadeiramente a perda.

Ainda assim, Segunda Chamada tem mais qualidade do que muitas séries americanas que o mercado abriga no momento. O texto é bastante correto, não é pretensioso e nem simplista. A direção é tecnicamente impecável e, mesmo que os roteiros ainda tenham dificuldade para dosar suas explosões dramáticas, eles usam com empenho os recursos oferecidos pelo gênero. A formatura, no final da temporada, é um exemplo disso. A resolução do mistério sobre o filho de Lúcia também.

Disponível completa no Globoplay e com uma segunda temporada já garantida para abril, a série pode passar na recuperação e corrigir os excessos, desde que não se inebrie consigo mesma, como se explorar o sofrimento dos mais pobres através do olhar de uma protagonista que precisa ser a estrela fosse ser suficiente. Mas, para o próximo ano, estaremos dentro da sala, dispostos a nos envolver e respondendo “presente”.

Nota do Crítico
Ótimo