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Crítica

Scream - 2ª Temporada | Crítica

Segundo ano da série continua errando ao se afastar da franquia original

Henrique Haddefinir
19.08.2016
12h33
Atualizada em
29.06.2018
02h44
Atualizada em 29.06.2018 às 02h44

A segunda temporada de Scream começa com a responsabilidade de se justificar perante um público que não estava acostumado a ver a mitologia dos filmes ser tão revirada. Apesar da nova máscara ter sido justificada com uma história de origem, ela passou longe do apelo visual que a máscara original provocava. Além disso, a grande economia de aparições do assassino não ajudava a reforçar a nova identidade. E se não bastasse a ausência de um ghostface sendo ghostface, o elenco principal foi totalmente preservado em nome da continuidade.

Colocando em perspectiva que trata-se de dois gêneros diferentes, era de se esperar que mudanças fossem feitas. Os produtores da série tinham uma bananosa nas mãos, já que ao decidirem-se por não criar uma antologia, confiaram que o público se afeiçoaria a personagens que, pela definição de um slasher, precisariam ser vítimas potenciais, teriam de morrer. Os únicos passos possíveis eram para a aposta em uma ousadia de não-preservação ou em uma aposta de que em todo novo ano, encontrariam explicações para manter todo mundo vivo. A franquia cinematográfica tinha apenas três sobreviventes recorrentes, enquanto a série insistia com sete, contando com a mãe da protagonista.

Screaming For Action

O começo da temporada foi promissor e o primeiro episódio fez seu papel de sedução do espectador, eliminando um dos personagens principais em meio a um grande apelo visual. Para o público que ficou reclamando de pouco sangue no final do ano anterior, foi um sopro de frescor e uma promessa de melhorias. O problema é que, em seguida, ficou muito claro que a série seguiria em passos muito lentos, já que foram necessários quatro longos episódios para os personagens descobrirem sobre o colega morto. Para cada passo de ousadia, dez de recuo eram dados.

Logo a promessa de reviravoltas e muito mais sangue foi ficando para trás. A primeira metade do segundo ano dedicou-se a investigar o papel de Audrey (Bex Taylor-Klaus) na ligação com os primeiros crimes, algo que tinha animado os fãs da franquia por tratar-se de um elemento provocador: um dos assassinos descoberto antes que os personagens soubessem sobre ele. A expectativa era imensa e foi frustrada muito rápido quando o segundo ano começou. O papel de Audrey na trama foi minimizado pela mesma razão que todas as grandes decisões de Scream eram tomadas: preservação do afeto do público.

Novos personagens foram inseridos para suas funções básicas: morrer no lugar dos protagonistas ou servir como suspeitos. Absolutamente nenhum desses personagens cumpriu uma função maior do que a de meros retardatários. Assim que a questão com Audrey foi resolvida, lá pela metade da temporada, é que os roteiros começaram a lidar mesmo com a questão maior: quem continuou o trabalho depois da eliminação do criminoso no ano anterior?

Screaming For Answers

Em adaptações como essa não dá para lançar a carta do "a série precisa existir independente dos filmes", porque a essência dos filmes precisa ser reproduzida em seu mínimo, para que o projeto seja justificável. Do contrário, bastava criar a história e dar a ela outro nome qualquer. Os filmes eram conhecidos por seu texto metalinguístico, sagaz, debochado, por suas longas cenas de perseguição, luta corporal e pelos telefonemas assustadores. Em sua segunda temporada, Scream esqueceu-se desses elementos e as aparições do ghostface se resumiram a segundos apáticos seguidos de corpos pendurados em cenas de crime teatralíssimas - e, por consequência, impossíveis de serem montadas por um criminoso só. A humanidade do assassino atrapalhado e espancado dos filmes deu lugar a uma figura de poder quase sobrenatural.

Usando títulos de filmes de terror para contextualizar os episódios, o malefício da superficialidade estava tão incutido nos roteiros que não havia contextualização alguma. Ao passo em que crescia a expectativa sobre quem era o criminoso, também crescia a preocupação de saber se as respostas conseguiriam cobrir todos os espaços vazios provocados pelo fato inevitável de que o assassino desse ano precisaria ter agido no ano anterior. Aí lá vai Scream para o episódio final, prometendo a revelação mais bombástica de todas, que acabou sendo feita do modo menos competente possível: deram uma máscara nova tão errada para o ghostface que nem mesmo cumpriu o sagrado ritual de vê-la sendo retirada.

O que tinha de coeso na revelação do mascarado (que pouco se mascarou) foi perdido no decorrer dos acontecimentos. O desespero dos roteiristas para preservar rostos familiares é tanto que lá fomos nós para mais uma grande traição ao original: não termos a final girl dando um belo tiro nas fuças de seu algoz.

Com isso, a mocinha Emma (Willa Fitzgerald) se confirma como uma das mais inexpressivas do gênero. Nem mesmo o inegável carisma de Carlson Young salvou Brooke de seguir em caminhos questionáveis. Prenderam Noah (John Karna) em um romance forçado e mantiveram a mãe de Emma em um eterno loop de referências ao passado de Brandon James que nunca se explica. Foi uma sucessão de decisões ruins que afundaram grandes possibilidades de dignidade para a série.

Logo após o capítulo final, um especial de duas horas para o Halloween foi anunciado e aparentemente ele será uma oportunidade para que algumas questões não resolvidas sejam respondidas. Até lá, também saberemos se a série terá um terceiro ano ou se esse especial encerrará a trama completamente. Sendo assim, ainda há uma pequena chance de honrar o nome da franquia já que até agora tudo o que a série plantou para a cultura pop foi puro oportunismo.

Nota do Crítico
Regular

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