Séries e TV

Crítica

Samantha! – 1ª temporada

Indo das bizarrices da TV nos anos 1980 às excentricidades da fama do mundo contemporâneo, série diverte com leveza

Rafael Gonzaga
09.07.2018
19h06
Atualizada em
09.07.2018
19h44
Atualizada em 09.07.2018 às 19h44

Demorou para alguém pensar em fazer uma série de comédia sobre a televisão brasileira dos anos 1980 - finalmente a Netflix abraçou esse universo lisérgico de possibilidades e lançou Samantha!, criada por Felipe Braga. Na trama, Emanuelle Araújo dá vida à personagem-título, uma ex-estrela mirim (vivida na infância pela promissora Duda Gonçalves) que nunca mais fez nada de relevante e passa o tempo todo tentando usar o sucesso do passado para voltar ao estrelato. O problema é que, no processo, ela precisa administrar coisas como as novas formas de ter fama no século XXI, indo desde acumular seguidores em redes sociais até ingressar em reality shows, sua família, já que agora ela tem dois filhos e um ex-marido que acabou de sair da cadeia morando em sua casa, e, principalmente, seu ego desproporcional.

Não é novidade a Netflix investir no saudosismo do público para conquistar audiência - em especial usando os anos 1980 como base, visto o enorme sucesso de Stranger Things. Em Samantha!, o serviço de streaming se volta para referências óbvias do período no Brasil, como a cena em que a protagonista confirma o mito de uma faca dentro de uma boneca ou quando as crianças descobrem uma mensagem oculta em um disco de vinil infantil tocado ao contrário - são inúmeras boas piadas do tipo. O curioso é que o roteiro permite que todas essas espécies de “piadas internas” funcionem tanto para o público nacional, com base no resgate à memória, quanto para o estrangeiro, pelo contexto bizarro das situações.

Samantha tem, curiosamente, mais um bônus nesse sentido: a contemporaneidade. Ao mesmo tempo em que ri sem medo de tudo que hoje consideramos grotesco na TV dos anos 1980 - desde uma criança anunciando cerveja em um programa infantil até um mascote que é um maço de cigarros de pelúcia -, a série também manda bem ao fazer piada de temas modernos. O choque geracional entre o humor de Samantha, que basicamente acha normal dar um apelido gordofóbico ao colega de palco, e o filtro engajado de sua filha de 11 anos, Cindy (Sabrina Nonata) é um exemplo disso. Outro exemplo, ótimo por sinal, é a introdução de Laila (Lorena Comparato) uma digital influencer seguida por milhões de pessoas e descompensada na medida certa.

Parte fundamental para o mérito da atração, além, é claro, do roteiro afiado, é o trabalho de Emanuelle Araújo. É difícil manter a dose necessária de carisma na hora de dar vida a uma protagonista cujas características principais são tão problemáticas - a própria Netflix já fracassou nessa tentativa em séries como Girlboss, por exemplo. Samantha é irritante, egoísta, deslumbrada, egocêntrica e, no geral, até as coisas boas que ela faz tem algo de questionável. Isso tudo, se não é perdoado é, pelo menos, aliviado pelo bom humor, pela perseverança e pela trajetória de uma mulher que criou dois filhos sozinha. Há também o background, impossível de ser ignorado, dela ter crescido no tóxico ambiente televisivo dos anos 1980.

O elenco, de modo geral, é afinado. Há pequenos deslizes de fluidez nos diálogos das crianças que interpretam os filhos de Samantha, mas nada excessivo. Douglas Silva, que interpreta Dodói, um sujeito que acumula as funções de ex-marido da protagonista, ex-presidiário recém saído da prisão e ex-jogador de futebol famoso, não é meramente uma escada para a personagem principal, mas elemento fundamental da história. Há muito drama potencial em suas entrelinhas, como uma prisão injusta ou ter perdido grande parte da infância dos filhos, mas a série opta por não se aprofundar nisso e preservar a leveza da narrativa. Entre os coadjuvantes, Daniel Furlam se destaca como o empresário Marcinho e há ótimas participações especiais, como Alice Braga e Alessandra Negrini.

Ao fim dos sete episódios da primeira temporada, Samantha! constrói um rascunho semelhante a várias outras produções nacionais de sucesso, como A Grande Família ou Doce de Mãe, menos engessada pela liberdade da plataforma onde é exibida. Por esse lado, a série não reinventa a roda em momento nenhum e a narrativa é simples - é sempre a ex-estrela mirim apostando suas fichas em um projeto mirabolante que dá errado, mas abre portas para o próximo. Com ajuda de um roteiro ágil, contudo, a série não se torna cansativa e alternativas criativas para a espiral de confusão que envolve todos os personagens surgem sem maiores dificuldades. Pode ser que, por ter esse tipo de formato, Samantha! acabe se exaurindo com o tempo, mas, por enquanto, uma nova temporada é bastante bem vinda.

Nota do Crítico
Bom