Adam Scott em Ruptura

Créditos da imagem: Ruptura/Apple TV+/Reprodução

Séries e TV

Crítica

Ruptura fisga espectador não só pela estranheza, mas pela familiaridade

Direção obsessiva de Ben Stiller e universo complexo criado por Dan Erickson tornam série do Apple TV+ já uma das melhores produções do ano

Omelete
6 min de leitura
Mariana Canhisares
25.06.2022, às 19H03
ATUALIZADA EM 25.06.2022, ÀS 20H46
ATUALIZADA EM 25.06.2022, ÀS 20H46

“Quem é você?”. A pergunta, posta de modo tão simples e direto no início de Ruptura, já poderia ser motivo de angústia. Por onde alguém começaria a se definir: pela trivialidade de um nome, uma profissão e um local de nascimento, ou pela revelação do que lhe é intrínseco e mais íntimo? Antes que o espectador possa articular qualquer tipo de resposta, a série interrompe seu fluxo de pensamento com uma imagem também perturbadora. Sem qualquer explicação, uma mulher aparece inconsciente em cima de uma longa mesa de reunião. Não há sinal da voz masculina que a interroga, nem nenhum elemento que possa indicar como ela foi parar ali ou qual é seu estado. Nada faz sentido. Não bastasse a estranheza da situação, a composição da cena é por si só desconfortável. O verde, amarelo e cinza da sala contrastam com o vermelho dos cabelos da moça e o azul da sua roupa. O ambiente, tão hermético e ordenado, é quase simétrico, mas é perceptível que há algo fora de lugar — além daquele corpo.

É uma questão de segundos, mas o roteirista Dan Erickson e o diretor Ben Stiller não precisam de mais do que isso para estabelecer a aflição que dará tom para toda a primeira temporada. Está, nesse breve momento, a fagulha que conduzirá os protagonistas a questionarem sua existência como é, assim como o mistério que vai fascinar quem está do outro lado da tela. Conforme a série avança, porém, fica claro que as interrogações são só uma faceta de Ruptura. No fundo, a razão para que ela seja tão fascinante está justamente na sua familiaridade.

Soa contraditório, mas essa estranha dicotomia está no centro da série, a começar pela sua premissa. Tanto a voz, mais tarde atribuída a Mark (Adam Scott), quanto a moça, Helly (Britt Lower), foram submetidos a um procedimento chamado Ruptura, isto é, a inserção de um chip no cérebro para separar as memórias do expediente do que acontece fora do trabalho. Se na superfície o conceito parece saudável e atraente por atender ao desejado mito do equilíbrio entre vida pessoal e profissional, no âmago dessas pessoas cria-se uma cisão, como se coexistissem duas versões delas mesmas. Chame-os de doppelgängers, Ego e Id, innies e outies. Fato é que, por mais que compartilhem o mesmo corpo, a cirurgia traz à tona suas próprias ambiguidades e leva colegas de trabalho (e espectadores) a se questionarem o tempo todo não só a pergunta que abre a série, como também o papel das suas carreiras nessa descrição. Até porque o culto ao trabalho, uma realidade tão palpável fora da ficção, é levado às últimas consequências na grande corporação que emprega Mark, Helly e companhia: a Lumon.

Fundada originalmente como uma farmacêutica, a Lumon é menos uma empregadora e mais uma religião. Dona de uma longa história, alçada ao épico em pinturas sacras, bustos dos seus líderes e dogmas próprios, a empresa tem até um sistema de penitência para seus “pecadores”; isto é, os fiéis funcionários que ousarem desafiar os olhares onipresentes dos seus superiores e quebrarem as regras. É, sem dúvida, um ambiente autoritário e sufocante, fato que transparece não apenas no discursivo, conforme os protagonistas avançam nas suas investigações sobre si mesmos e a companhia, mas sobretudo no visual. Diante de corredores brancos, estéreis e intermináveis, das salas com pé direito baixo e das muitas portas inacessíveis, a sensação de enclausuramento é palpável.

A precisão técnica com a qual Ruptura traduz as minúcias da própria mitologia é impressionante, e muito se deve à direção de Stiller. Seu nível de cuidado com cada frame beira o obsessivo. Cada ângulo se traduz quase como uma fotografia, como se ele precisasse dizer tudo sem a ajuda de sequer uma palavra dos seus atores. Entre as baías de trabalho deles, por exemplo, vê-se com clareza os objetos que simbolizam a existência reduzida daqueles indivíduos: o relógio, que todo dia delimita sua expectativa de vida; o imponente retrato de Kier Egan, o próprio Cristo da Lumon; e a câmera de vigilância. Por mais que seja uma cor associada à esperança, a predominância do verde em todos os cenários imprime o sentimento exatamente contrário e, somada à trilha sonora de Theodore Shapiro, sufoca até quem está do lado de cá da tela. Mas, tão importante quanto, a constante falsa sensação de simetria denuncia em todos os momentos, mesmo os mais divertidos, que não se pode abaixar a guarda. Há algo de muito errado ali.

Com a colaboração atenciosa da direção de fotografia de Jessica Lee Gagné, assim como dos demais departamentos de arte, desde o figurino ao design de produção, Stiller expressa com aparente facilidade em Ruptura a liberdade opressora oferecida pelo procedimento, as certezas dúbias dos seus protagonistas e a ordem tirânica da Lumon, que convida a todos ao caos — e enfatizo aqui o “aparente”, porque é óbvio que eles dedicaram muito tempo até chegar nesse resultado. Esse processo, no entanto, não seria possível sem a criatividade de Erickson.

Inspirado em um emprego desagradável que teve no passado, o criador da série desenvolveu um mundo rico e nada óbvio, digno de um vocabulário próprio e repleto de lacunas a serem preenchidas. Valendo-se disso, Erickson e os demais roteiristas estabeleceram uma progressão para os mistérios ao redor da Lumon que não apenas expande a própria mitologia, como incentiva o engajamento do seu público com respostas que pegam até os mais sagazes no contrapé. Mas, não bastasse isso, o texto de Ruptura é muito esperto. Em vez de seguir a densidade da ambientação, ele é por vezes leve, engraçado e bobo.

A contraposição entre uma jornada emocionalmente custosa e diálogos com piadas quase infantis (“você está desorientada, mas a boa notícia é que estamos em uma orientação”, brinca Mark ao se apresentar a Helly) é muito perspicaz. Não há dúvidas de que o humor é uma ótima ferramenta para render o espectador, e aqui ele serve sim a esse propósito. Porém, há mais do que isso nas intenções de Erickson. Ele, primeiro, serve à história, ampliando a caracterização dos seus personagens — e, vale dizer, a bobeira tende a ficar com os outies, porque sua ignorância sobre o mundo real dá brecha para teorias muito criativas. Mas, não obstante, o criador ri da nossa própria realidade laboral, incluindo os coachs espirituais de LinkedIn, novamente de um modo que não é nada telegrafado, nem acompanhado de um sarcasmo amargo. É idiota e, por isso mesmo, genial.

Com destreza, Ruptura oferece um material complexo e eletrizante, que esconde temas profundamente humanos entre uma reviravolta e outra. Por isso, quando estende a tensão até os limites do tolerável no seu finale, a série tem o espectador na mão: especificidades à parte, a esperança do grupo de se libertar e se entender enquanto indivíduo é compartilhada com o público. É por essas e outras que a produção do Apple TV+ é uma melhores do ano — se já não é a melhor.

Ruptura
Em andamento (2022- )
Ruptura
Em andamento (2022- )

Criado por: Dan Erickson

Duração: 1 temporada

Nota do Crítico
Excelente!

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