Rooster, da HBO, prova que o humor melancólico é a nova fronteira da TV
Bill Lawrence, cridor de Ted Lasso e Falando a Real, acerta mais uma vez
É fascinante observar a evolução de Bill Lawrence. Se em Ted Lasso ele nos entregou o otimismo em estado puro e em Falando a Real explorou o luto com sarcasmo, em Rooster, nova aposta da HBO, o criador parece ter encontrado o equilíbrio definitivo entre a acidez e a ternura. A série não tenta emular o "abraço quentinho" de suas obras anteriores; em vez disso, ela nos joga em um cenário onde o humor nasce do desconforto e da exaustão, provando que Lawrence ainda tem muito fôlego para subverter as expectativas do gênero.
O grande motor dessa engrenagem é, sem dúvida, Steve Carell. Na pele do protagonista, Carell entrega uma performance que nos faz lembrar por que ele é um dos gigantes da sua geração. Ele habita esse homem comum, cercado por absurdos cotidianos, com uma economia de gestos que diz muito mais do que qualquer monólogo. É um trabalho de sutilezas: um olhar cansado ou uma resposta atravessada carregam o peso de anos de frustração, mas Carell nunca deixa o personagem cair no niilismo total, mantendo sempre aquela faísca de humanidade que nos prende à tela.
Diferente de Ted Lasso, onde a bondade é regra, Rooster navega por águas mais turvas. O texto é afiado, rápido e frequentemente impiedoso, mas possui uma honestidade intelectual rara. A série entende que a vida adulta não é feita apenas de grandes vitórias ou tragédias retumbantes, mas de uma sequência de pequenas derrotas que tentamos transformar em piada para sobreviver. Esse humor "pé no chão" é o que separa a série de outras comédias de situação atual, elevando-a ao status de estudo de personagem.
A dinâmica do elenco de apoio também merece destaque, funcionando como o contraponto perfeito para a figura central de Carell. Lawrence tem o dom de criar comunidades que parecem reais, com pessoas que se irritam e se amam com a mesma intensidade, e uma extensa gama de personalidades absurdas e extremamente cômicas. Em Rooster, as interações são rápidas e orgânicas, refletindo uma direção que sabe exatamente quando deixar o silêncio desconfortável agir e quando inserir uma tirada sarcástica que corta o ar como uma navalha.
O que mais impressiona na produção da HBO é a sua capacidade de ser estranhamente viciante. Não há ganchos mirabolantes ou reviravoltas de tirar o fôlego a cada cinco minutos; o que nos faz querer assistir ao próximo episódio é a escrita magnética. Existe um prazer quase literário em acompanhar os diálogos, uma construção de mundo tão sólida que o espectador se sente parte daquele cotidiano cinzento, mas estranhamente reconfortante, que a série propõe a contar ao explorar nuances da jornada de Greg Russo (Carell), um escritor de luto pelo divórcio e que muda os rumos de sua vida para ajudar sua filha.
Além disso, a estética da HBO eleva o material. A fotografia evita a saturação das comédias tradicionais, optando por uma paleta que reforça a sobriedade da trama, sem nunca torná-la visualmente monótona. É uma série que se sente cara e bem cuidada em cada detalhe técnico, desde o design de produção até a trilha sonora pontual, mostrando que a parceria entre Lawrence e Carell foi pensada para entregar algo que fuja do lugar-comum das plataformas de streaming.
No fim das contas, Rooster é a prova de que Bill Lawrence não precisa repetir fórmulas para ter sucesso. Ao se distanciar da doçura excessiva e abraçar uma melancolia vibrante, ele criou, junto a um Steve Carell em estado de graça, uma obra que ressoa de forma profunda e genuína. É uma série sobre o cansaço, sobre as pequenas alegrias e, acima de tudo, sobre a resiliência humana diante do banal. Uma aula de televisão que nos deixa ansiosos para descobrir até onde esse galo, com o perdão da piada bilíngue, vai cantar.
Rooster
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