Séries e TV

Crítica

Ray Donovan - 5ª temporada

Quinto ano força a evolução de seu protagonista, mas não abandona suas tradicionais muletas

Mariana Canhisares
29.10.2018
17h05

Ray Donovan, em sua essência, é a mesma série ano após ano. Ainda que renove o elenco de apoio, sabe-se desde o princípio que o protagonista (Liev Schreiber) se envolverá com a nova cliente femme fatale, Terry (Eddie Marsan) terá uma crise de consciência, Bunchy (Dash Mihok) meterá os pés pelas mãos e Mickey (Jon Voight) tentará passar para trás alguém mais esperto do que ele. A quinta temporada dá a impressão de que abandonará estes velhos hábitos. Logo no episódio de estreia, apresenta uma nova estrutura narrativa e cria uma ruptura significativa na trajetória de Ray. No entanto, o seriado recorre justamente às suas muletas para revelar o que o aguarda na nova fase em Nova York.

Ray Donovan/Showtime/Reprodução

Sem explicitar de imediato o que aconteceu, o quinto ano começa com a notícia de que Abby (Paula Malcomson) morreu. Valendo-se de flashbacks, a série reconstitui as semanas antes do luto, revelando fragmentos do fato a cada episódio, conforme a vida de Ray continua sem a esposa. O revés traz uma mudança de tom importante para boa parte dos episódios. Se antes a violência predominava, agora mesmo alguns dos conflitos mais físicos do protagonista têm um quê reflexivo.

Esta estrutura e o próprio arco narrativo beneficiam o desenvolvimento da personagem de Malcomson, tão precário até aqui. Tradicionalmente retratada como a mulher louca pelo ciúmes ou a mal-agradecida dos Donovan, pela primeira vez Abby recebe um tratamento um pouco mais equilibrado e, convenhamos, necessário. Depois de tanto tempo, a personagem ganha mais complexidade e, assim, fica mais fácil sentir empatia por ela e suas decisões. É uma pena que tenha sido preciso recorrer a uma doença para que ela ganhasse um desenvolvimento mais interessante do que as meras reações às atitudes do marido. Entretanto, o recurso dá a Malcomson uma despedida à altura da sua performance.

A enfermidade também coloca Ray em uma posição de impotência, algo quase inédito na série. Tendo sido o pilar dos Donovan durante todos esses anos, aquele que não tem medo de sujar as mãos para salvar a família, é difícil para ele ter que aceitar Abby desistindo da própria vida. Afinal, mais do que perder a mãe dos seus filhos, ele vê a história da sua infância se repetindo. Talentoso, Schreiber aproveita bem essa oportunidade para explorar a vulnerabilidade do personagem para além da introspecção, já bem conhecida de Ray. Sem descaracterizar o protagonista, o ator potencializa a truculência e a sensualidade pelas quais o faz-tudo é conhecido e enfatiza a culpa e a solidão na sua busca por redenção. Aos poucos, o ator leva Ray a se transformar naquilo que sempre desprezou: Mickey.

Porém, fora o casal, os demais personagens pouco evoluíram. Apesar de todas as reviravoltas, Bunchy, Daryl (Pooch Hall) e Terry são praticamente os mesmos. A Mickey só se adicionou um desejo de vingança nada inédito, uma vez que ele e Ray estão sempre em pé de guerra. Conor (Devon Bagby), então, foi excluído dos dramas familiares. Talvez a única exceção tenha sido Bridget (Kerris Dorsey), por estar no centro de todo o embate ético dos Donovan, mas ainda assim é uma transformação pequena para a agora universitária.

Isso não é demérito algum do elenco, que continua ótimo. No fundo, o problema está no roteiro. Pouco inspirado, ele não oferece caminhos novos para os personagens. Repete ideias de temporadas passadas com outras caras e, às vezes, com desvios desinteressantes, que prejudicam o ritmo da série, já mais lento do que o normal. Com isso, participações como a de Susan Sarandon são desperdiçadas em meio a um novelão e a série cai no maçante.

É fato que se fez uma escolha consciente de priorizar a transformação final de Ray no seu pior inimigo em detrimento dos demais arcos. No entanto, já passou da hora da série largar os lenga-lengas e começar a se redimir com seus fãs, tomando posturas mais ousadas. Não se pode deixar de notar que há sim uma tentativa disso nos últimos episódios da temporada, mas nada muito animador. Com um ritmo completamente diferente, mais focado na ação e na violência, os capítulos parecem um prólogo da nova temporada, uma promessa de voltar às origens do seriado. Não fossem os numerosos clichês, haveria mais expectativa para o renascimento de Ray Donovan.

Nota do Crítico
Bom