Séries e TV

Crítica

Raio Negro - 1ª temporada

Melhor série de herói da CW, Raio Negro se faz necessária mesmo sem reinventar o gênero

Rafael Gonzaga
18.07.2018
12h28
Atualizada em
18.07.2018
12h45
Atualizada em 18.07.2018 às 12h45

Dá para entender logo nos primeiros episódios o motivo de Raio Negro ter sido lançada fora do Arrowverso pela CW. A série sobre Jefferson Pierce (Cress Williams), o herói aposentado que dá nome ao programa, é muito mais madura que as demais produções da rede: intercalando cenas de luta repletas de efeitos especiais e explosões, há debates consistentes sobre racismo, sexismo, corrupção e criminalidade. O carisma de Raio Negro, contudo, se deve a ser, acima de tudo, uma série familiar: o protagonismo de Jefferson é dividido com Jennifer (China Anne McClain) e Anissa (Nafessa Williams), suas duas filhas que descobriram os poderes recentemente, e com Lynn (Christine Adams), sua ex-esposa e interesse romântico mal resolvido.

Há três jornadas simultâneas e é isso que faz com que a série não perca o fôlego em momento nenhum. Enquanto Jefferson recomeça sua carreira como justiceiro e sente os impactos disso em tudo que construiu em sua vida pessoal no tempo em que ficou parado, Anissa e Jennifer lidam de formas distintas com a descoberta dos poderes. A filha mais velha do Raio Negro abraça os poderes e se torna uma vigilante treinada pelo pai, ao passo que a caçula rejeita a mudança em um primeiro momento. Os caminhos que as duas trilham na série são coerentes com suas personalidades e rendem bons momentos de embate familiar - seja quando Anissa desafia os pais insistindo em defender a cidade ou quando a recusa de Jennifer em aceitar sua situação coloca Jefferson e Lynn em uma discussão sobre o que pode ou não ser considerado normalidade.

Aliás, o tema da aceitação se desenrola de forma bastante orgânica ao longo dos episódios. Não é uma novidade nas séries de heróis da CW a presença de personagens LGBT, e em Raio Negro não é diferente. A sexualidade de Anissa, primeira super-heroína lésbica e negra da TV, é retratada sem restrições e com a mesma naturalidade que a da irmã ou a dos pais, heterossexuais. Além disso, por ser uma série ambientada em uma comunidade fictícia formada majoritariamente por negros, a trama se apropria de diversas problemáticas reais que afro-americanos sofrem, como abandono do estado e violência policial. Cenas como a de Jefferson sendo parado na chuva por uma viatura em função da cor da sua pele equilibram a balança entre fantasia e realidade.

É não restringir o cargo de vilão a um ou outro sujeito diabólico que faz com que Raio Negro seja uma série muito menos infantil que suas primas The Flash ou Supergirl. O racismo estrutural é o principal antagonista de Jefferson e, nesse série, o herói tenta parar seus tentáculos tanto através de sua vida como civil, onde é um diretor dedicado tentando fazer da educação uma arma, quanto através de sua identidade heróica, impedindo iniciativas secretas de subvalorizem a vida de pessoas negras. Os vilões de carne e osso também apresentam jornadas interessantes, como é o caso de Khalil (Jordan Calloway), Latavius (William Catlett) e, é claro, Tobias Whale (Marvin ‘Krondon’ Jones III), um personagem cheio de contradições, posicionamentos problemáticos e um passado traumático.

Parte do sucesso da série - melhor estreia da CW nos últimos dois anos - pode ser justificada pela experiência da equipe responsável por ela. A série é assinada por Salim Akil e Mara Brock Akil, que já trabalharam em produções como Girlfriends, popular sitcom americana centrada na vida de quatro mulheres afro-americanas bem sucedidas em Los Angeles. A trilha sonora também é boa, com destaque para as criações feitas para a série por Godholly. Há algumas derrapadas, contudo. O traje, desenvolvido por Laura Jean Shannon, tenta reimaginar o clássico dos quadrinhos de forma mais tecnológica, mas acaba soando um tanto quanto exagerado - como um vigilante combatido pelas forças policiais, não faz muito sentido que o herói pareça um refletor ligado toda vez que vai às ruas lutar contra o crime.

Do ponto de vista do arco principal, Raio Negro não é exatamente inovadora - a série é uma mistura de Os Incríveis com Luke Cage em vários aspectos -, mas isso não faz dela menos necessária. Raio Negro é uma atração extremamente atual a ponto de fazer críticas explícitas a discursos de ódio comuns nos dias de hoje: Martin (Gregg Henry) é o esteriótipo de um supremacista branco, por exemplo. Além disso, a série presenteia o público com uma remessa de personagens interessantes, com personalidades cativantes, dilemas complexos e contradições humanas. Para uma temporada inicial, a série chega a ir bem longe, entregando uma trama introdutória concisa e deixando algo muito maior para as que virão na sequência. Raio Negro é, definitivamente, um feixe de luz na mesmice que a CW vem apresentando no campo das séries de heróis.

Nota do Crítico
Ótimo