Quem Matou Sara?

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Quem Matou Sara? chega ao fim com uma temporada fora de controle

Com um enredo estapafúrdio e risível, uma das produções mexicanas de maior sucesso da Netflix encerra sua trajetória.

Omelete
4 min de leitura
Henrique Haddefinir
21.05.2022, às 13H36

Entender o sucesso que Quem Matou Sara? faz no catálogo da Netflix não é difícil. As produções do eixo México-Espanha que tem aparecido na plataforma nos últimos anos, têm todas um cromossomo em comum: o choque. Quem Matou Sara?, Toy Boy, Elite, Sky Rojo, Desejo Sombrio... não há absolutamente nenhum desses títulos que não compartilhe desse DNA oportunista: A violência gráfica, os enredos que sempre se baseiam em abusos sexuais, o erotismo exacerbado e um crime que precisa ser desvendado pelos protagonistas. Essa lista de características acaba sendo também aquela que fortalece essas produções junto ao público.

Dentre as citadas, Quem Matou Sara é a que tem uma fórmula mais complicada de manipular. Presa ao nó dramático do “quem matou”, ela acabaria tendo que – em algum momento – sacrificar sua credibilidade em nome de mais tempo de tela. E foi exatamente isso que ela fez... Em seu primeiro ano, o mistério sobre o assassinato da jovem Sara (Ximena Lamadrid) até aparecia mais organizado entre as tensões que os episódios estabeleciam. O enredo se dedicava a colocar a morte da moça dentro de um conjunto de intrigas familiares e de esquemas de traição.

Porém, quando o segundo ano chegou, o compromisso com a longevidade foi defenestrando a verossimilhança. O assassino da primeira temporada não era o assassino e o assassino da segunda temporada também não era o criminoso. Chegamos ao ponto em que a preocupação era se alguém tinha mesmo matado Sara. Preocupação essa que se revelou bastante cabível quando o último episódio do ano 2 insinuou que a vítima não estava morta, tornando completamente inúteis os quase 20 episódios vistos até então. E se a ideia da sobrevida da personagem já parecia ridícula, a forma que encontraram para fazer isso terminou de jogar a série no limbo. Era um “rocambole” para nenhum confeiteiro botar defeito.

Ninguém matou Sara?

Era bastante previsível que a encomenda de novas temporadas iria provocar um efeito de empobrecimento da narrativa da série. O grande problema em produções como essa é que se você não entrega para o público a resposta que ele confia que virá no final das temporadas, ele começa a desconfiar de você. Esse foi literalmente o caso de The Killing (2011), que estreou como uma das maiores promessas da programação americana e acabou se esgotando quando tomou a esdrúxula decisão de não revelar o assassino no season finale. A partir dali tudo parecia uma imensa enganação.

Em Quem Matou Sara, a terceira temporada já começou reforçando que a jovem realmente não morrera. Alex (Manolo Cardona) descobre o caixão da irmã vazio e começa a rastrear respostas para explicar o que realmente teria acontecido. Absolutamente tudo que aconteceu nos dois primeiros anos foi jogado pela janela e nunca precisaria ter existido. Os criadores contam uma história nova, quase “spin-offtica”, que não tem quase nenhuma conexão com o passado da série; com direito a um vilão novinho em folha, jamais citado antes e vivido por ninguém menos que Jean Reno.

Na sua busca por relevância, os episódios soam como se fossem um surto coletivo, com direito a experiência científica, tortura e até uma filha perdida que é feita pela mesma atriz que faz Sara, só que com uma peruca diferente. Mas, é claro, sem perder de vista alguns personagens que já conhecemos, como Chema (Eugenio Siller), que volta para a última temporada só para cumprir a cota de "sequências de abuso”. É assustador ver como o texto apressa e entuba elementos desconexos entre si e na sua relação com a série. Nada funciona.

A grande “ousadia” da finale definitiva é ter dado aos seus fãs a derradeira resposta de quem matou Sara do modo menos “óbvio”. Depois de anos no ar e de tantos suspeitos, ninguém matou Sara. A essa altura da temporada são tantos exageros narrativos, tanta deselegância, tantas reviravoltas absurdas, que insinuar que “Sara foi morta aos poucos por vários de seus algozes” não tem nenhum impacto. É um show de horrores, com insanidades criativas competindo para ver qual vai ser a campeã de nonsense.

O que poderia ser uma grande história sobre uma jovem engolida pelos acordos velados da sociedade rica, se transformou em uma fanfarra, em uma micareta da ficção ruim, capaz de constranger até os mais sensíveis.

Quem Matou Sara?
Encerrada (2021-2022)
Quem Matou Sara?
Encerrada (2021-2022)

Criado por: ¿Quién Mató a Sara?

Duração: 3 temporadas

Nota do Crítico
Ruim

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