Imagem de Punho de Ferro/ Divulgação/ Netflix

Créditos da imagem: Imagem de Punho de Ferro/ Divulgação/ Netflix

Séries e TV

Crítica

Punho de Ferro - 2ª temporada

Retornando a sua série-solo, o herói de K'un-Lun ganha finalmente cenas de luta convincentes e uma jornada digna de amadurecimento

Rafael Gonzaga
14.09.2018
19h00

Após uma primeira temporada morna, o herói protagonista de Punho de Ferro passeou por outras produções da Marvel na Netflix antes de regressar a sua série solo - não sem antes, é claro, arrumar a casa para deixá-la mais apresentável. Raven Metzner (Sleepy Hollow) assumiu a produção executiva da série, substituindo Scott Buck, que esteve à frente do primeiro ano. Outra adição importante foi a do coordenador de luta de Pantera Negra, Clayton Barber, para liderar as cenas de ação. Depois de passagens interessantes por Os Defensores e Luke Cage, todas essas mudanças na equipe técnica, é claro, renderam frutos positivos: o segundo ano de Punho de Ferro é muito melhor que a temporada debutante da atração. Em seu retorno, o público foi introduzido a um Danny (Finn Jones) mais complexo e, principalmente, com golpes mais certeiros.

A existência do Punho de Ferro até então foi justificada unicamente com sua missão de derrotar o Tentáculo, algo que foi definitivamente eliminado em Os Defensores. Ao contrário de Jessica Jones, Luke Cage ou do Demolidor, Danny não tinha universos paralelos muito bem definidos para explorar em sua série-solo. Portanto, nada mais justo que voltar a elementos de K’un-Lun para começar a dar autonomia ao herdeiro Rand. Apesar da qualidade técnica ser muito melhor, a segunda temporada é extremamente dependente da primeira: não só seu grande vilão, Davos (Sacha Dhawan), vem dela, mas todos os elementos que constroem a nova narrativa partem do que foi apresentado no ano de estreia - com exceção de Mary (Alice Eve), vilã novata que, não por menos, é a ponta mais solta de toda a história.

Aliás, vilões não faltam no segundo ano de Punho de Ferro. É interessante, por exemplo, ver o background de Davos exposto. As séries da Marvel na Netflix geralmente conseguem dar profundidade aos seus vilões ao mostrar os processos que os levaram a se tornar pessoas problemáticas ou, pelo menos, descrever as condições que fizeram suas piores características se desenvolverem em terreno fértil. No caso de Davos, é pintado com mais clareza o quadro de um homem que nasceu pretendendo ocupar uma função e falhou tentando - todo o resto de sua vida é o atestado do seu fracasso. Como se não fosse suficiente, Davos não teve a opção de morrer em batalha e ainda ouviu palavras extremamente duras relativas à derrota. Ele não é só alguém que não aceita o segundo lugar: é uma criança psicologicamente fragilizada por um processo brutal ao redor do qual toda sua existência girou até então.

Saindo um pouco do espectro maniqueísta de mocinhos e vilões, encontramos novamente os irmãos Meachum. Se na primeira temporada, Ward (Tom Pelphrey) ficou completamente desestabilizado e se tornou potencialmente perigoso para Danny, no segundo ano essa função ficou com Joy (Jessica Stroup). Faz sentido que a falta de controle da herdeira Ward venha atrasada em relação ao irmão: ela digeriu uma série de coisas com certo atraso em relação aos demais personagens da série. Aliás, é justamente essa sensação de estar à margem dos eventos que dificulta que Joy restabeleça a razão ou o relacionamento com Ward e Danny. A segunda temporada respeita a personalidade construída para ela e não subverte tudo o que foi apresentado até então: Joy atravessou a maior crise de sua vida e, na esteira disso, escolheu caminhos complicados para lidar com o problema - mas nada tão grave que impeça sua redenção.

O mesmo acontece com o próprio Danny Rand. Apesar de, após os eventos de Os Defensores e da promessa feita ao Demolidor de manter a cidade segura, o herói de K’un-Lun revelar uma face mais violenta e obstinada, o velho Danny não sai de cena. Caso contrário, o herdeiro Rand não manteria sua - irritante, diga-se de passagem - posição durante toda a temporada de acreditar na possibilidade de encontrar bondade dentro de Davos. Foi interessante ver uma versão menos serena do herói, mas, gostando ou não disso, é necessário que exista esse cuidado para que traços básicos de sua personalidade sejam preservados mesmo não sendo exatamente populares entre a maioria do público.

Infelizmente para o imortal Punho de Ferro, a segunda temporada deixa claro que Danny Rand não consegue carregar nas costas o protagonismo de uma série-solo. No penúltimo episódio, enquanto Colleen (Jessica Henwick) está lutando sozinha contra uma gangue de adolescentes lobotomizados, Danny está dentro de um centro comunitário basicamente discutindo relação com Davos - não dá para o herói principal ser eclipsado pelas cenas dos coadjuvantes em sua própria atração. Sem Colleen, aliás, Punho de Ferro não funcionaria. Além disso, como já havia sido mostrado durante a breve reunião em Luke Cage, Colleen e Misty (Simone Missick) são realmente uma dupla formidável. As duas funcionam bem em cena tanto em batalha quanto como amigas. Será uma decepção se a Netflix não investir em um formato próprio das Filhas do Dragão.

O saldo da segunda temporada é positivo, ainda que permaneçam problemas como a constante oscilação da força do herói - não dá para acreditar que o sujeito que detém o poder para proteger K’un-Lun sozinho leve uma surra de Mary, seja capturado sem grandes problemas, perca o poder e ainda apanhe de um grupo de adolescentes na sequência. Contudo, há claramente uma jornada de amadurecimento de vários personagens e isso é muito importante na hora de levar a série para algum lugar ao invés de passar a impressão de estar andando em círculos. Danny, Joy, Ward, Colleen: todos evoluem bastante. Olhando para o primeiro ano, o jovem Punho de Ferro com seu ar de detentor da sabedoria de K’un-Lun soa como um tolo: no fim da segunda temporada, ele é, finalmente, um herói respeitável.

Nota do Crítico
Bom