Pose - 2ª temporada

Créditos da imagem: FX/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Pose - 2ª temporada

Aceitação, luto, HIV, ativismo e romance são só algumas das categorias no baile promovido pela segunda temporada

Henrique Haddefinir
23.08.2019
10h31
Atualizada em
23.08.2019
11h11
Atualizada em 23.08.2019 às 11h11

Ninguém pode culpar Ryan Murphy por ser otimista. Foi graças ao seu incrível trabalho trazendo underdogs para o centro dos holofotes que descobrimos um grande potencial de diversidade na arte e na relação da mídia com ela. E é curioso que ele consiga ser otimista enquanto escreve sobre personagens de horror ou sobre setores da sociedade esmagados pelo preconceito e pela discriminação. Essa é a grande questão sobre Murphy: no final das contas, não importa a obscuridade do cenário, ele prefere promover a superação, como se estivesse torcendo ansiosamente para uma reeducação do mundo, mesmo que vindo de um investimento tão pesado nas dificuldades terríveis e dramáticas que geralmente seus personagens enfrentam.

A segunda temporada de Pose começa com uma sinistra viagem de Pray Tell (Billy Porter) e Blanca (MJ Rodriguez) até um dos traumas da história de Nova York, que ela tenta esquecer. Os dois visitam a Hart Island, um pedaço de ilha há poucos metros do Bronx, onde as autoridades da cidade literalmente desovavam os corpos daqueles que morriam em decorrência do HIV e não eram reclamados por família ou amigos. Os corpos chegavam em caixotes de madeira fina, tinham apenas um número de identificação e eram enterrados em pilhas. Pray e Blanca, ambos infectados com HIV, assistem a cena e rezam pelo amigo que foram procurar. O medo está nos olhos deles.

Os outros traumas continuaram a aparecer no decorrer dos episódios. Além da ilha Hart, muitos dos escândalos, lutas ou “mitos” da história da comunidade LGBTQ da cidade foram sendo trazidos à tona. Alguns deles tão chocantes que o espectador desatento poderia pensar que se tratar “daquela cabeça maluca de Murphy”. A camisinha gigante do grupo ativista Act Up, o homem morto descoberto depois de 15 anos no armário de uma famosa drag queen, a morte de uma transsexual encontrada espancada e violentada num quarto de hotel depois de dois dias desaparecida... Seja entre sequências do documentário Paris is Burning ou nas páginas policiais, a inspiração para misturar a ficção com a realidade era parte justamente desse propósito da obra de Murphy: embora cercados de variáveis negativas, a série mostraria a propensão de todo ser humano em sobreviver e sonhar.

A categoria é... Vogue

O ponto de partida para o segundo ano também foi especialmente calculado: o lançamento de Vogue, a música e o videoclipe que ajudaram a confirmar a posição de Madonna como uma das grandes estrelas da época. A dança chamada vogue já era uma realidade nos bailes. Madonna, sempre muito atenta ao que está em vigência no mercado, foi lá buscá-la e levou-a ao centro das atenções. Em 1990, o mundo estava dançando Vogue e a comunidade dos bailes começou a se sentir devidamente representada. Blanca foi a que mais correlacionou a chegada do hit vogue com uma maior abertura do mercado a quem era da comunidade LGBTQ e tinha muito a oferecer. Então, enquanto a primeira temporada mostrava Blanca agregando a própria casa, a segunda dedica-se a dar a cada um de seus filhos uma narrativa independente, como fazem todas as melhores mães. Um dia eles precisam voar.

Com 10 episódios (dois a mais que no ano anterior), a série precisava ampliar seus horizontes narrativos e segregou bem quais seriam as storylines. Os resultados da dúvida se seria ou não renovada começaram a aparecer logo cedo. Elektra (Dominique Jackson) perdera seu provedor e acabou baixando a guarda, indo morar com Blanca. Com a renovação, os roteiristas tiveram que reverter o quadro, mas acertaram ao dar a ela uma nova e ousada forma de se reerguer. O episódio em que ela inaugura um novo “movimento pessoal” (virar mesas) e inaugura uma nova casa é um dos mais divertidos entre as duas temporadas. São de Elektra as cenas mais engraçadas, que junto das sequências de baile, fazem do segundo ano de Pose um nível acima na categoria entretenimento. Foi uma temporada com muito drama, mas também com muita alegria.

O drama, aliás, faz parte das altas prioridades de Murphy. No início da década de 90 o HIV continuava a dizimar pessoas todos os dias e os roteiros estabelecem muito bem a gravidade disso, com velórios fazendo parte da rotina dos personagens e discussões sobre testes, morte, medicações, semana após semana. Blanca se entende com o AZT, mas Pray Tell é consumido por ele. Os diretores dos episódios não maquiam a devastação causada pela doença, sobretudo porque o texto, logo adiante, vai fazer a sobrevivência ser parte fundamental da história. Ainda que essa história fale de morte. O episódio em que nos despedimos de uma importante personagem revela as inspirações diretas em Angels in America, de Tony Kushner, em que as vozes dos mortos são invocadas em personificações e fantasias. Algo realmente bonito, elegante, comovente, que faz jus ao que a série representa para quem ela retrata.

A Categoria é... Lupone

Contudo, nem tudo correu de forma regular. Foi uma temporada menos rica para Damon (Ryan Jamall), que foi consumido demais por um relacionamento truncado com Ricky (Dyllón Burnside). Já para Angel (Indya Moore) toda sua trajetória tinha a ver com conseguir ser vista como uma mulher e depois de se frustrar na relação da primeira temporada, ela buscou em sua carreira como modelo essa mesma sensação. Em alguns momentos sua trama parecia otimista demais, acessível demais quando colocamos em perspectiva o nível de limitações que alguém em sua posição encontraria. Então, ela atravessa o trauma de ver sua carreira sendo confrontada com seus segredos. Murphy, ainda assim, não resiste à tentação e sempre encontra outras maneiras de terminar os episódios com um sorriso no rosto no espectador. A intenção é que a trama seja dura como a realidade, mas ele é completamente seduzido pelo sonho. O que às vezes atrapalha, quando essa irresistência, por exemplo, reforça o exagero dramático: a teatralização, a romantização da dor, que com isso se tornam frequentes demais, perdendo força. O episódio com o karaokê do hospital, por exemplo, foi apenas uma maneira de colocar o elenco para cantar. Era dispensável.

De tudo que aconteceu na temporada, sem dúvida a narrativa de Blanca foi a mais segura. Depois de encaminhar os filhos ela foi atrás de uma carreira e os produtores acertaram muito em trazer Patti Lupone para viver sua rival na compra do salão. Lupone vivia uma versão fictícia de Leona Helmsley, uma “mulher de negócios” lendária em Nova York, que se tornou um mito após deixar uma parte de sua herança para o cachorro. Ela é uma mulher que enfrenta o machismo diariamente, que sabe o que é vencer o poderio masculino numa sociedade que premia o homem por ser homem. Mas, escolhe rivalizar com outra mulher, tentando destruí-la, tentando se convencer que por Blanca ser transsexual o impacto não será tão hipócrita e mesquinho. Os diálogos entre as duas são a síntese do quanto Pose é escrita com elegância e inteligência.

Entre os bailes, os conflitos, as vitórias e fracassos, o que mais permeia a produção é a ideia de acolhimento. Pose é sobre encontrar um senso familiar depois de ser abandonado pela própria família. É sobre responsabilidade maternal, sobre fraternidade, o que torna o resultado todo ainda mais comovente. Novamente, a temporada foi encerrada de uma maneira que permitisse a conclusão caso a renovação não viesse. Mas, veio. Foi bastante animadora a insinuação de que outras pessoas começarão a passar pelas portas da Casa Evangelista. Uma vez criados os filhos vão embora, mas uma mãe está sempre disposta a receber. Pose pode ter tropeçado um pouco por gostar demais de ser dramática, mas nada a supera quando mostra o quanto preza pela vida.

Nota do Crítico
Excelente!