Séries e TV

Crítica

Pose - 1ª Temporada

Elegante e honesta, a nova produção de Ryan Murphy continua sua tradição de reviver cultura pop e dar voz a minorias

Henrique Haddefinir
24.07.2018
13h51

Todas as vezes em que RuPaul – a drag queen mais prestigiada do mundo – se auto-proclama mother das participantes da Drag Race, ela que dizer com isso bem mais que "vocês são filhotes de um mundo que eu dominei". Num momento em que o investimento artístico em culturas marginalizadas é grande, a popularidade de Ru e da Drag Race é afetada pelo escrutínio de seus próprios códigos. Algo de emocional foi perdido no caminho e é quase como se Pose, nova produção do indomável Ryan Murphy, fosse um imenso flashback que está no ar para não só lembrar o que ser uma mãe significa, como para nos revelar que todos os signos e itens de cultura pop promovidos pela Drag Race tem sua origem num tempo não muito distante do nosso.

FX/Divulgação

O documentário Paris is Burning já é muito eficaz em sublinhar o mundo dos "bailes" da Nova York dos anos 80. Esses Bailes eram competições divididas por todo tipo de categoria, que aconteciam todas as semanas e eram protagonizados por Casas. As casas competiam entre si, sendo cada uma delas liderada por uma Mãe. A Mãe – que podia ser uma drag queen, uma transexual, uma travesti ou simplesmente alguém que dançava Vogue muito bem - tinha não só o papel de conceituar sua casa dentro de um estilo, mas também de guiar seus filhos pelas dificuldades sociais e emocionais que a comunidade LGBTQ sofria com mãos pesadas, sobretudo no tempo em que o HIV alcançava seu auge. Cada "Filho" passava a carregar o sobrenome de sua casa, enfim.

Pose começa justamente quando a Casa Abundance está iniciando seu processo de decadência, uma vez que sua mãe, a estonteante Elektra Abundance (Dominique Jackson) deixou-se tomar pela arrogância e transformou seus filhos em soldados ambiciosos e frios. Blanca (MJ Rodriguez), que pertence a Abundance, está cansada disso e quando descobre que é soropositivo, abandona o lar e decide começar ela mesma sua prole. A série, então, passa a mostrar a disputa entre Abundance e Evangelista, de Blanca, enquanto ao redor disso estão os dramas pessoais dos personagens, que incluem a marginalização social, a ameaça constante da morte e a busca pelo amor e pela aceitação. Tudo isso regado do glamour e do brilho dos bailes.

Big Apple is Burning

Em seu discurso no Trailblazer Award, Murphy disse que a ideia de Pose foi recusada muitas vezes por alguns estúdios e que o FX topou a empreitada ciente de que, embora os dramas humanos fossem universais, a série falaria para um nicho específico - e isso é verdade. Com o maior elenco gay e trans da história da televisão, Pose tem uma narrativa de exclusão que é típica das minorias e também do longo trabalho que o showrunner vem executando, sempre pensando em cultura pop, em reacender gêneros perdidos e em focar no azarão. Aqueles que não se comunicam com a realidade de Pose podem, contudo, encontrar a boa e velha narrativa de superação que também é muito recorrente na obra do produtor. Torcer por aqueles personagens fica inevitável já nos primeiros instantes do episódio piloto.

Após um começo agitado a série começa a contar sua história em capítulos que revisitam a comunidade de acordo com os maiores pontos de tensão da história. Num primeiro momento, o programa primeiro fala do que é mais dolorido para os personagens: o senso de rejeição. Expulsos ou abandonados pelos que deveriam amá-los incondicionalmente, os personagens se reúnem em busca de afeto, de um lar e de beleza, de ilusão. Para que a dramaturgia de Pose funcione, o público precisaria sentir o quão "invisíveis" aquelas pessoas são para o resto do mundo e o quanto os bailes eram o refúgio tomado de cores e brilhos, onde cada um podia se sentir aceito.

Uma vez estabelecidos os laços, os episódios começam a adentrar os terrenos mais nebulosos. Além de uma vida tomada de privações, a comunidade também precisava enfrentar perigos inimagináveis: o HIV nos anos 80 era tido como uma espécie de providência divina para o extermínio dos gays e o completo desinteresse em impedir a mortalidade provocada pela doença devastava as relações. O longa The Normal Heart, dirigido por Murphy e exibido na HBO, se passa no mesmo período e mostra o quão destruidor o vírus foi e o quão negligente as autoridades foram com relação a quem mais era afetado por ele. Pose tem momentos difíceis na abordagem ao tema e sem dúvida, o episódio "Love is the Message"  é um dos mais bonitos e tristes da TV nos últimos tempos. Nele, o trabalho de Billy Porter, o narrador dos bailes, é absolutamente espetacular.

Category Is... Redemption Realness  

Ao passo em que a Casa Abundance vai desmoronando, a Casa Evangelista cresce. Dentro dela, o jovem Damon (Ryan Jamaal), que fora expulso de casa, encontra a força e o apoio necessários para lutar por seu sonho de ser dançarino. A série investe pouco nele a partir da segunda metade da temporada, mas de certa forma, Damon é a parte ingênua que permeia tão pouco aquelas histórias tão cheias de "gambiarras de sobrevivência". Ele é o elemento otimista que escora quase todos os trabalhos de Murphy, e isso não deixa de ser um alento. Não importa o quanto sofram os personagens criados por ele, sabemos que ele encontrará um jeito de pegar toda aquela escuridão e traduzi-la em algum tipo de otimismo.

Angel, a personagem de Indya Moore, tem sua narrativa correndo por fora. A prostituição era, para muitas das transexuais e travestis da época, o único caminho para garantir comida na mesa. De fato, isso ainda acontece até hoje. Angel é "resgatada" por Stan (Evan Peters), um típico americano criado pelas regras conservadoras, casado com a personagem de Kate Mara, empregado de uma das empresas de Trump e com James Van Der Beek como patrão direto. O personagem do eterno Dawson Lerry é como uma reprodução vintage do atual presidente americano e sem se preocupar muito em fazer uma crítica política, a narrativa desse núcleo tem uma única grande coisa a dizer: o higienizado mundo da classe média branca não é capaz de entender o que é viver tendo direitos básicos negados a cada minuto do dia. O amor entre Angel e Stan tem uma infinidade de poréns e pesares, cada um deles tomados de melancolia e humanidade.

Mesmo assim, Pose encerra sua primeira temporada imbuída de muito afeto. Ainda que expulsos de casa, ainda que rejeitados pelas maiorias, ainda que perdendo seus grandes amores, aqueles personagens tem uma ligação fraternal que se torna o centro da questão. As trajetórias de Blanca e Elektra convergem de forma coesa e especial, proporcionando ao espectador um respiro bem-vindo depois de semanas seguidas de dramas e perdas. A voz que Murphy sempre deu à comunidade LGBTQ dessa vez é gritada, mas o showrunner continua capaz de cavucar catarses em qualquer pedacinho de arte que colocam em suas mãos. Pose tem uma direção de arte impecável, um texto cuidadoso e um elenco cheio de representatividade e talento, de um jeito que – quando colocamos em perspectiva o que Hollywood sempre fez – chega mesmo a comover.  

A baixa audiência não impediu a renovação para a segunda temporada, provavelmente por conta do imenso prestígio que o programa logo passou a ter. A tirar pelo fato de que os bailes começaram a perder força a partir de 1989 - um ano antes dos eventos da primeira temporada -, temos grandes possibilidades para o que a série nos mostrará no ano que vem. Por agora, pode-se dizer tranquilamente que Pose desfilou lindamente pelo salão e que se a categoria fosse algo como "Dramatic TV Show Realness", esse troféu já está garantido e pode ser muito festejado.

Nota do Crítico
Excelente!