Ponto Final faz uma viagem irregular até a estação do riso

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Ponto Final faz uma viagem irregular até a estação do riso

Com um impressionante valor de produção, a nova aposta de Rodrigo Sant’Anna na Netflix confunde ansiedade com ritmo

Omelete
4 min de leitura
20.01.2024, às 13H30

Rodrigo Sant’Anna é um humorista extremamente talentoso. Sua carreira fazendo plateias rirem no teatro já era longa quando alcançou fama por conta da Valéria, do Zorra Total. Desde então, uma coleção de personagens que refletiam o subúrbio carioca foram surgindo na filmografia do ator. Entre 2022 e 2023, estrelou o sitcom A Sogra Que Te Pariu, que teve duas temporadas de sucesso entre os assinantes da Netflix. 

Sua comédia é uma comédia de identificação popular. Além de sempre preparar um texto com muitas referências midiáticas, sua voz em cena está embasada pelo próprio conhecimento da vida suburbana. Isso apareceu em todos os seus trabalhos -- e Ponto Final, sua nova série da Netflix, não foi diferente. Ele sabe tanto sobre o que está falando, que muitas vezes a impressão é de que ele quer falar tudo que puder ao mesmo tempo. A dominância como ator e criador é a grande força e o grande porém dessa nova empreitada. 

Ponto e vírgula

A sinopse da série entrega pouco sobre a história que será contada. Ivan (Sant’Anna) é um motorista de van que foi casado com Sandra (Roberta Rodrigues), uma motorista de ônibus. O ônibus dela e a van dele param no mesmo ponto final, onde todos os outros personagens coadjuvantes orbitam. Entre eles a trocadora do ônibus Alê (Nany People); o mecânico Miguê (Thardelly Lima) e o filho do casal principal, Ivandro (Faiska Alves). Não existe um evento catalisador que inicia a história; o que importa é acompanhar as aventuras de todos os personagens na rotina daquele ponto de ônibus. 

Apesar de sua série anterior na Netflix ter sido cancelada, Rodrigo assinou um contrato longo com a plataforma e Ponto Final já estava garantida quando esse cancelamento aconteceu. E como é possível ver logo no primeiro episódio, o investimento na produção do novo sitcom foi imenso. 

O cenário do ponto de ônibus é deslumbrante. Tudo foi muito bem pensado para dar ao lugar o máximo de realismo possível. É sempre admirável ver um ônibus de verdade circulando dentro do estúdio e um grupo de figurantes ajuda a credibilizar toda a encenação. A grandiosidade do set fica ainda mais impressionante quando as câmeras abrem panorâmicamente e vemos a plateia que assiste ao programa, tal qual os grandes sitcoms do mercado norte americano. O valor de produção e o cuidado aos detalhes é realmente admirável. 

Contudo, em seus 7 episódios, a temporada de Ponto Final se limita a uma fórmula segura de total previsibilidade e nenhuma ousadia. Talvez a coisa mais ousada do texto de Rodrigo sejam as constantes citações a marcas e produtos famosos; uma coisa que todos nós fazemos o tempo todo na nossa vida, mas que é raro ver na TV por razões óbvias. Tudo que acontece na vida do brasileiro que não está nas camadas de privilégio está ali; Rodrigo sabe de verdade sobre o que está falando. 

Apesar disso, a série quase não tem costura central. A cada episódio Ivan se mete em uma confusão diferente, enquanto sabemos que ele ainda nutre sentimentos pela ex-mulher. A série é toda uma escada para o protagonista, mas parece haver uma ansiedade em Rodrigo Sant’anna. Ele despeja uma piada em cima da outra, uma referência em cima da outra, sem nenhum tempo de respiro entre elas. Há uma parte disso que é construção de personagem, é claro. Mas, também há uma sensação de pressa que prejudica o ritmo -- ou timing--, elemento tão fundamental na comédia.

A escrita dos episódios também é apressada, com os finais, por exemplo, sem nenhum desfecho bem cuidado. Em alguns deles, aliás, os créditos invadem a tela de maneira súbita, como no episódio 2, que beira o agressivo. Do mesmo jeito que todos os episódios começam com Ivan dentro da van, talvez um tipo de marca que identificasse o fim ajudasse a diminuir a sensação de desnorteamento. 

O elenco, entretanto, é um acerto em todas as frentes. Thardelly Lima é quem melhor administra o tal do ritmo da comédia. Roberta Rodrigues e Nany People têm um jogo carismático em cena também. Tuca Andrada (que vive o novo namorado de Sandra) aparece menos que os outros, mas não desperdiça suas cenas. Já Faiska Alves, que é, provavelmente, o terceiro personagem mais importante da trama, deixa a própria e notória empolgação escapar um pouco do ator para o personagem. 

Ivan não é o motorista de van mais legal do mundo; e Sant’Anna imprime bem as distorções morais desse protagonista. Eventualmente ele quebra a quarta parede para falar com o público, mas esses momentos sempre soam um outro recurso dominante do ator e não funcionam. A edição também deixa alguns erros de gravação na versão final; mas, novamente, eles não parecem orgânicos, e sim uma forma de emular o que dava certo na edição do Sai de Baixo (e mais recentemente, no Vai Que Cola). 

No final das contas, a comédia proposta pela produção é característica de um mercado que precisa permanecer vivo. É reconfortante ver o streaming investindo no setor, porque a comédia, em qualquer instância, só quer nos fazer rir e talvez seja o gênero mais altruísta das artes cênicas. Ponto Final não faz rir tanto assim, mas ela consegue criar seu próprio universo.

Nota do Crítico
Regular
Ponto Final
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Criado por: Rodrigo Sant’anna

Onde assistir:
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