Foto de Perry Mason

Créditos da imagem: Perry Mason/HBO/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Perry Mason - 1ª temporada

HBO produz versão sombria, mas confortável do famoso personagem americano

Henrique Haddefinir
10.08.2020
11h45

A última vez que Perry Mason foi o protagonista de uma série de TV foi em 1974, quando a CBS tentou recuperar o público perdido com o fim da série clássica (quando o personagem ficou no ar por 9 anos, entre 1957 e 1966). A investida não funcionou; a audiência recusou a troca do ator que vivia Mason e The New Adventures of Perry Mason ficou somente um ano no ar. Porém, seu potencial não ficou esquecido. A produção clássica obteve imenso êxito ao praticamente inaugurar um filão do mundo das séries, que passou a ser copiado por anos e anos, até perder força na Terceira Era de Ouro da Televisão (no final dos anos 90). Foi ela, a clássica Perry Mason, a precursora do “procedural”, aquele tipo de narrativa em que um caso é investigado a cada semana, não tendo nenhuma conexão entre eles.

Com o passar dos anos, o procedural passou a incorporar todo tipo de trama. O termo passou a abrigar não só as séries criminais, mas também suas “primas”, como as séries médicas e as que se passavam no mundo da advocacia. O gênero foi enfraquecendo no início dos anos 2000, quando o formato começou a dar mais atenção para a vida pessoal dos protagonistas, criando uma espécie de “liga” entre os episódios. Com a virada promovida por séries como Arquivo X e Lost, o público foi seduzido pela ideia de juntar as peças de uma narrativa maior e os procedurais se tornaram um artigo raro na TV.

O Perry Mason clássico, contudo, era procedural de raiz. Nos livros de Erie Stanley Gardner – em que as séries foram buscar inspiração – não se sabe quase nada sobre sua vida ou mesmo sobre sua aparência. Um pouco disso foi resolvido na primeira adaptação, mas esses são tempos movidos pela complexidade de detalhes, tempos afetados pelas mudanças que Tony Soprano promoveu e um protagonista agora precisa ser complicado, traumatizado, quebrado. Sendo assim, a HBO providenciou as transformações necessárias, a obscuridade condizente com a contemporaneidade e chamou Matthew Rhys para dar conta do trabalho. Depois de anos à frente de The Americans – outro dos títulos dramáticos pós-Família Soprano – a escolha não era surpreendente.

O novo Perry Mason é pura HBO. Fracassado, atormentado pelos anos na guerra, abandonado pela esposa, proibido de falar com o filho e cercado de decadência, o personagem perambula pelas ruas de Los Angeles em 1932 quando se depara com o crime que vira o assunto mais comentado da cidade: o pequeno bebê Charlie Dodson fora sequestrado, mas os bandidos que o raptaram nunca tiveram a intenção de devolvê-lo vivo para os pais. O assassinato brutal de Charlie é o ponto de partida para a temporada, que diferente do que aconteceu na série clássica, tem apenas esse caso como foco.

Milagres

Como também é muito vigente nos dias de hoje, a série aproveita sua base histórica para ir atrás de algumas figuras interessantes dos anos 30 e uma delas é aquela que pode ser chamada de uma das primeiras pastoras evangélicas. que construiu sua trajetória de uma forma muito parecida com o que vemos nesse meio até hoje. Aimee McPherson foi uma pioneira no uso da mídia como forma de alcançar e seduzir mais seguidores de sua Igreja Quadrangular, de pé até hoje, e cujo templo principal está localizado exatamente em Los Angeles. Foi esse senso de espetáculo que marcou sua história e que acabou sendo replicada por líderes evangelistas através dos anos.

Perry Mason segue em duas narrativas paralelas: a investigação do crime feita por Perry e a trajetória de Sister Alice (Tatiana Maslany, novamente incrível), angariando fiéis pela cidade e descobrindo aos poucos que um sermão não é nada perto do espetáculo de catarse que uma boa oratória pode provocar. As duas histórias são interligadas pelas suspeitas que recaem sobre os pais do bebê assassinado. Alice tem uma ligação especial com Emily (Gayle Rankin), a mãe do menino, que é uma de suas mais devotas seguidoras. Fica evidente que os produtores se enamoraram da ideia de retratar o surgimento desses pastores popstars e precisaram, de alguma maneira, conectar Perry e Alice através de algum fator narrativo. Essa carpintaria, mesmo óbvia, é eficiente. Mais para frente, quando a convergência definitiva acontece, você se esquece que inicialmente aquela interação parecia providencial demais.

Esse adiamento de convergências talvez seja um ponto frágil da produção. A narrativa demora para engrenar, para te envolver e alguns espectadores podem desistir nesse processo. O tratamento de época mantém o alto padrão da rede, mas Matthew Rhys sofre um pouco para conseguir trazer a atenção para si depois que Tatiana Maslany entra em cena. Talvez por entenderem o carisma da personagem, os produtores decidiram deixá-la afastada do primeiro episódio, numa tentativa de nos fazer olhar mais atentamente para Perry, antes que a personagem chegasse com seus discursos arrebatadores. Assistir Sister Alice começar a compreender, só através de seus olhares, que os poderes de sugestão são reais, é impressionante. A personagem ainda é misteriosa e complexa, o que só torna tudo mais envolvente.

Ao passo em que a temporada avança e Perry precisa assumir uma postura responsável diante do processo de defesa da mãe do bebê morto, a série começa a se reorganizar. A mágica do roteiro acontece no melhor estilo Hollywood e essa sombria e perturbadora história se torna, quem diria, uma história de redenção. Era quase como se a HBO apostasse numa longevidade para a produção, que antes mesmo de ter seu primeiro ano encerrado, já havia sido renovada para uma temporada dois. São as quimeras dramatúrgicas da nossa época: Perry Mason não é um procedural porque tem uma trama subsequente, não pode ser uma antologia porque seus personagens principais perdurarão na temporada seguinte, mas não pode ser um drama mitológico porque terá um caso por ano. Então, o que é Perry Mason? É uma série que mesmo construída com códigos modernos, ainda resguarda o principal objetivo de um clássico: ela é boa e é equilibradamente confortável.

Nota do Crítico
Ótimo