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Crítica

Perdidos no Espaço - 1ª Temporada | Crítica

Aventuresca, nova versão da série mantém os códigos clássicos da TV

Natália Bridi
16.04.2018
16h27
Atualizada em
16.04.2018
23h03
Atualizada em 16.04.2018 às 23h03

Quando a primeira versão de Perdidos no Espaço chegou à TV, em 15 de setembro de 1965, Neil Armstrong ainda não havia pisado na Lua. A corrida espacial se mantinha cercada de mistério, alimentando intrigas entre nações na Guerra Fria e criando infinitas possibilidades na ficção.

Passados 50 anos do fim da série criada por Irwin Allen, a Netflix estreia uma nova versão de Perdidos no Espaço em que atualiza conceitos sociais (o papel do pai, da mãe e dos filhos), mas mantém o espírito de aventura que motivou a criação da família Robinson na década de 1960. Em 10 episódios, o remake equilibra drama familiar e de sobrevivência com romance, humor e toques vilanescos, mantendo sempre um olhar curioso sobre o universo que apresenta para o público.

O qualidade visual impressiona. Os dois primeiros episódios, dirigidos por Neil Marshall, captam a grandiosidade do planeta em que os Robinson caem depois de um misterioso acidente na Estação Espacial que os levaria para a colônia de Alpha Centauri. Geleiras, cavernas, florestas e incêndios surgem no caminho da família, estabelecendo obstáculos que criam expectativa e levam à torcida por uma solução. A câmera dá forma à agonia dos personagens, alternando planos abertos - que acentuam o contraste entre o vasto cenário e seus pequenos exploradores - e planos super fechados, crescendo o desespero de uma luta pela vida em meio ao gelo, por exemplo.

Efeitos práticos e visuais se misturam para garantir a escala e a harmonia da história, que também combina referências retrôs e modernas - as criaturas do planeta lembram os seres criados por Ray Harryhausen enquanto o design da nave e dos trajes espaciais segue a atual cartilha do ”sci-fi realista”. Entre tons pastéis, destacam-se apenas o laranja da nave Júpiter e a combinação laranja e azul escuro dos trajes espaciais, o que dá unidade à essa versão do futuro. Já o desenho do robô destoa de tudo, ressaltando o aspecto alienígena do personagem, que ganhou uma origem bastante diferente da série original. Ao mesmo tempo, falta carisma à máquina, o que atrapalha no reconhecimento das suas relações com os humanos, principalmente o garoto Will e a complicada Dra. Smith.

Também diferente da série original, os Robinsons não estão sozinhos nessa primeira temporada, com outros sobreviventes e colonizadores cruzando seu caminho. A atenção, porém, se concentra no núcleo principal definido em 1965, com personagens que se mantém dentro dos seus arquétipos. O militar John Robinson (Toby Stephens) é um pai durão e ausente, a engenheira Maureen Robinson (Molly Parker) é uma mulher destemida e uma mãe capaz de tudo pelos filhos, o sensível Will Robinson (Maxwell Jenkins) só quer provar o seu valor, a sonhadora Penny Robinson (Mina Sundwall) é a adolescente que faz piada com tudo ao mesmo tempo em que se preocupa com todos, a jovem médica Judy Robinson (Taylor Russell) é a filha mais velha que finge não ter tempo para sorrir, o mecânico Don West (Ignacio Serricchio) é o malandro de coração mole, e a Dra. Smith (Parker Posey) é a vilã capaz de justificar para si e para os outros as maiores maldades. O arco dos personagens é mínimo, mas  a boa escalação do elenco garante o interesse sobre o desenrolar das suas vidas.

A própria trama não foge do esperado dentro das situações estabelecidas, respeitando os códigos clássicos da TV. Isso não torna a série desinteressante, pelo contrário. A familiaridade dos personagens e da narrativa garante uma sensação de conforto entre inúmeros alertas de perigo. É possível se preocupar com o destino da família Robinson, mesmo já sabendo o que esperar.

Fica claro que o novo Perdidos no Espaço não pretende revolucionar a ficção científica na TV. Seu objetivo é mais simples. Como em 1965, a conquista do universo pode ser uma aventura segura, longe das complicações da realidade.

Nota do Crítico
Ótimo