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Crítica

Pela Metade prova a maestria de Richard Gadd em explorar trauma e obsessão

Criador de Bebê Rena está de volta com outra série chocante e viciante

Omelete
3 min de leitura
22.04.2026, às 06H30.
Pela Metade prova a maestria de Richard Gadd em explorar trauma e obsessão

Em Pela Metade, nova produção da HBO Max, Richard Gadd prova que sua capacidade de transmutar traumas em entretenimento de alta voltagem não foi um golpe de sorte. A série narra a história de Niall e Ruben, dois jovens cujas vidas se entrelaçam de forma indelével. Niall, um nerd tímido e retraído, encontra no rebelde Ruben uma amizade que promete liberdade, mas que logo se revela uma espiral de toxicidade. Richard Gadd, que assina a criação, utiliza essa premissa para explorar como traumas passados podem transformar o carinho em violência, entregando uma obra que é, ao mesmo tempo, um estudo psicológico profundo e um suspense implacável.

O grande triunfo da série reside no equilíbrio milimétrico entre o drama humano e o suspense psicológico, algo que Gadd já havia explorado no sucesso fenomenal Bebê Rena, da Netflix. Enquanto sua obra anterior era um relato íntimo sobre traumas e perseguição, Pela Metade amplia o escopo para as consequências de longo prazo de uma relação abusiva. A dinâmica entre os protagonistas é magnética e desconfortável: Ruben sabe ser carinhoso e protetor, mas seus próprios traumas o transformaram em um rapaz imprevisível e violento. Essa ambiguidade mantém o espectador em um estado de tensão constante, já que a mera presença de Ruben pode significar o caos absoluto, seja para Niall ou quem estiver em seu alcance.

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Essa dualidade de sentimentos causada pela relação entre Ruben e Niall é, de longe, a maior ligação entre os trabalhos de Gadd. Niall é quase tão submisso quanto Donny (Gadd) era em Bebê Rena, e em muitos momentos conseguimos nos afeiçoar a Ruben, da mesma forma que era possível sentir empatia pela stalker Martha (Jessica Gunning). Mas é através desse desconforto que Pela Metade conquista a atenção, colocando o espectador na incômoda posição de querer continuar acompanhando a evolução desta relação, mesmo que os sentimentos oriundos dessa experiência sejam muitas vezes negativos - cada surto de Ruben parece um violento tapa na cara de quem decide se afeiçoar a ele. 

O elenco é, sem dúvida, o coração pulsante da obra. As performances de Mitchell Robertson (Niall) e Stuart Campbell (Ruben) como os adolescentes são viscerais; eles capturam com perfeição a pureza da amizade inicial e a lenta corrosão causada pelo comportamento errático de Ruben. Essa base emocional é fundamental para que as versões adultas, interpretadas com maestria por Jamie Bell e pelo próprio Richard Gadd, ressoem com tanta força. Bell entrega um Niall que carrega as cicatrizes do passado no olhar, enquanto um quase irreconhecível Gadd oferece um Ruben adulto complexo, forçando o público a confrontar a humanidade por trás de atos imperdoáveis.

A direção e a fotografia colaboram para criar uma experiência sensorial completa, onde o cenário reflete o estado mental fragmentado dos personagens. Gadd utiliza sua escrita afiada para garantir que o "choque" da narrativa não seja gratuito, mas sim uma ferramenta para explorar as marcas invisíveis da sobrevivência. A transição entre os tempos narrativos é fluida, permitindo que o público entenda como aquele nerd tímido e aquele jovem rebelde se tornaram os homens quebrados que vemos no presente, mantendo o mistério sobre o ápice da violência que os separou.

Ao marcar seu retorno triunfal após o estrondo de Bebê Rena, Richard Gadd reafirma sua posição como um dos criadores mais vitais da atualidade. Pela Metade é um fenômeno psicológico que desafia nossas percepções sobre culpa, lealdade e as sombras do crescimento. É impressionante como a trama nos prende em um ciclo de fascínio e inquietação, provando que Gadd é um mestre em transformar a dor humana em arte poderosa e absolutamente viciante. Ao final, fica a certeza de que estamos diante de uma das melhores e mais corajosas produções do ano.

Nota do Crítico

Pela Metade

Criado por: Half Man
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