PCC Poder Secreto

Créditos da imagem: HBO Max/Divulgação

Séries e TV

Crítica

PCC: Poder Secreto impressiona ao mergulhar no sistema penitenciário

Documentário da HBO Max mostra o começo de uma organização que nasceu de um massacre

Omelete
4 min de leitura
Henrique Haddefinir
06.06.2022, às 17H41

No último episódio de PCC: Poder Secreto, um dos antigos membros da facção termina de contar sua história descrevendo o dia em que foi mostrar para o juiz que o libertou o diploma que conseguiu após sua soltura. Ele termina o relato dizendo que o que ficou de seu tempo de prisão foi a capacidade de resolver problemas: “O papo reto que eu tinha com os manos da prisão... eu não tinha ideia que isso era uma ciência. Eu sou formado no Instituto de Coach 15 anos de Cárcere”. Logo depois, o grande “personagem” do documentário – o Macarrão, ex membro criador da organização – fala de perdão, de arrependimento, de uma nova chance.

Por todos os episódios da série documental dirigida por Joel Zito Araújo essa é uma dinâmica usada para manter a perspectiva humana do projeto. Os escolhidos para dar depoimentos são ex-membros da facção, jurídicos que entraram em conflito direto com eles e famílias de criminosos que ficaram pelo caminho. Os familiares que falam, inclusive, não falam em nome de grandes alcunhas da organização. São famílias de criminosos comuns, que estão ali para ilustrar como tudo começa e como tudo termina.

Para a maioria de nós o olhar na direção do mundo do crime é pautado pela manifestação midiática, e a ideia de “organização” acaba soando não-condizente com o princípio anárquico do crime. A organização, contudo, existe; e o que o documentário de Joel Zito faz é voltar até o início dos anos 90 para mostrar como a vida na periferia e a vida dentro das cadeias de São Paulo exigiram um controle que o sistema público de segurança não era capaz de dar. O PCC começou como um time de futebol e se tornou um estatuto para defesa das comunidades e do sistema carcerário, visto que seus criadores estavam presos quando a sigla foi ressignificada.  

A criação do PCC, inclusive, é o ponto do documentário em que ele entra num território de expansão cultural. Para que esse momento alcance a audiência, a edição precisa ilustrar como era a vida nas periferias e dentro das principais cadeias da época. Começa, então, uma viagem impressionante pela rotina das favelas, que vivem a ambiguidade constante de admirar e temer o crime, já que é o crime que influencia diretamente nos níveis de segurança que eles experimentam no dia a dia. A banalização da morte é tão chocante quanto coerente. Em dado momento, um dos homens que dá depoimento conta como era “mais legal” naquele tempo; e faz isso logo depois de relembrar o dia em que havia alguém enforcado na trave do campo de futebol do bairro e eles só colocaram o corpo de lado para jogar.

Primeiro Comando

Outro dado impressionante do documentário foi a quantidade de depoimentos de ex-membros que a produção conseguiu organizar. Temos a perspectiva de quem esteve no na frente de liderança, de quem entrou como um simples soldado, de quem está preso ainda, de quem já obteve liberdade, de jurídicos que até hoje vivem sob o medo de uma represália - e tudo isso é ilustrado com um arquivo de imagens muito detalhado. O episódio que trata do Massacre do Carandiru é especialmente difícil de assistir. O massacre foi o ponto de partida para a criação da facção e no documentário talvez estejamos diante da mais direta observação dentro dele.

Letras de rap costuram a ótica da população com a ótica dos criminosos e dão dinâmica e profundidade aos episódios. Em quatro capítulos, é possível acompanhar a trajetória do PCC até os dias de hoje, onde a influência da facção deixou de ser tão exposta midiaticamente a partir da violência e passou a ser uma questão puramente financeira. Seus braços internacionais, a disputa interna de poder... está tudo ali. Como toda grande organização do ponto de vista social, ela caminha para uma transformação de influências, de acordo com quem morre e com quem sobrevive.

O mais assustador foi perceber que nos 5 minutos finais do documentário, a direção de Joel Zito antecipa a ameaça de um novo ciclo, como se todos esses anos em que crime e autoridades tiveram seus papéis momentaneamente invertidos, não tivessem nos ensinado absolutamente nada sobre gestão pública.

Vivemos todos no limiar da sorte... E não devia ser desse jeito.

PCC - Poder Secreto
Em andamento (2022- )
PCC - Poder Secreto
Em andamento (2022- )

Duração: 1 temporada

Nota do Crítico
Excelente!

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