Um dos melhores true crimes recentes, Pacto Brutal escancara fragilidade da lei

Créditos da imagem: HBO Max/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Um dos melhores true crimes recentes, Pacto Brutal escancara fragilidade da lei

Tatiana Issa e Guto Barra produzem um documentário que detalha a impressionante luta de Glória Perez para impedir a morte da reputação de sua filha

Omelete
6 min de leitura
29.07.2022, às 10H08

Na década de 90 - a última antes da chegada massiva da internet - o mercado do jornalismo impresso era um dos mais lucrativos do mundo, sobretudo para revistas. As revistas que cobriam o entretenimento eram a principal fonte de curiosidades sobre astros, estrelas e sobre os bastidores das novelas (duas vezes mais assistidas que nos dias de hoje). Com tanta circulação era de se esperar que essas mesmas revistas também tivessem uma perigosa credibilidade e relevância. O que estava na capa era lei e influenciava toda aquela geração. Por isso, o choque de Glória Perez ao ver as matérias sobre o assassinato da filha ilustrados com aquele tipo de imagem era tão justificado. Por que a foto na capa tinha que ter Bira e Yasmin, personagens de Guilherme de Pádua e Daniella Perez em De Corpo e Alma, abraçados?

Na era do streaming, os true crimes (ou as séries documentais sobre crimes famosos) são uma tendência e revelam em vários deles o papel controverso da mídia. Pode não parecer numa instância racional, mas uma capa, um título, uma paleta de cores, pode se tornar uma marca cultural, um reflexo de pequenezas de julgamento, uma ferramenta para determinar “verdades” que se baseiam única e exclusivamente na especulação. Que tipo de construção de sentido as capas de manchetes com Yasmin e Bira aos beijos estavam propondo? O caso Daniella Perez não era só uma questão de condenar os assassinos; com isso todo mundo concordava, eles eram culpados. O caso Daniella Perez era sobre não condenar, também, a vítima.

Quando a manhã do dia 29 de dezembro de 1992 chegou, o Brasil acordou com a notícia de que Daniella Perez (a Yasmin) tinha sido assassinada pelo colega de elenco Guilherme de Pádua. Naquele ponto da trama da novela (na noite do crime foi exibido o capítulo 127) Yasmin e Bira eram um casal que funcionava como alívio cômico, mas embora o término deles fosse iminente, o público ainda os via como namorados divertidos e sensuais. Após o crime, foi como se as capas que antes especulavam o futuro dos personagens Bira e Yasmin, agora especulassem o passado de seus intérpretes, Guilherme e Daniella. Glória Perez precisou entrar em ação: Daniella foi morta covardemente pelo assassino... não seria “morta” novamente pela opinião pública.

Tatiana Issa, uma das diretoras de Pacto Brutal, era amiga pessoal de Raul Gazola, marido de Daniella; com quem contracenava na novela Deus nos Acuda, que estava no ar às 19 horas, ao mesmo tempo em que De Corpo e Alma, novela que Daniella fazia, ocupava o horário nobre. A experiência de Tatiana com o assunto era testemunhal e foi importante para abrir uma porta até Glória Perez, que sempre recusou produções sobre a filha e que agora parecia disposta a contar sua história diante das credenciais sérias e o trabalho premiado da diretora. Pacto Brutal não tem o melhor dos títulos, mas é uma obra pautada em competência, segurança e sensibilidade.

De Corpo e Alma

No dia 21 de julho os dois primeiros episódios do documentário foram liberados na HBO Max. Foi o suficiente para que a brutalidade do caso e as negligências que o cercavam ficassem evidentes. No último dia 28, os outros 3 foram acrescentados. Pacto Brutal tem duas funções bem evidentes: corrigir no curso do tempo a equivocada ideia de que Daniella tivesse qualquer ligação escusa com o assassino; e mostrar como Glória Perez precisou lutar muito para conseguir não só condenar os culpados, mas também para conseguir que o Brasil olhasse com atenção para alguns dos absurdos da legislação.

Para organizar a narrativa, Guto Barra e Tatiana situaram os 5 episódios em tópicos específicos. No primeiro o foco é o dia e a noite do crime; no segundo, os assassinos são descritos ainda no âmbito da época do ocorrido; no terceiro, Glória dá detalhes da própria investigação; no quarto, o passado dos criminosos é exposto e, por fim, no quinto e último, o julgamento e a frouxidão da justiça se revelam e prenunciam a absurda situação em que se encontra esse caso: assassinos soltos, vivendo com ficha limpa, como se nunca tivessem matado ninguém.

Há um trabalho de contextualização em torno do caso de Daniella que acaba ditando decisões importantes acerca da produção. Tatiana e Guto se preocupam muito em detalhar a vida da atriz e suas relações, o que é absolutamente natural considerando o objetivo da obra. Porém, reforçar o quanto as novelas eram impactantes para a sociedade brasileira dos anos 90 e a força de alguns dos nomes que ilustraram os depoimentos poderia ajudar a situar melhor as novas gerações, tão interessadas no caso quanto aqueles que já sabiam do que De Corpo e Alma, por exemplo, se tratava.

Decididos a não dar espaço para os assassinos falarem, Tatiana e Guto também decidiram não usar dramatizações das várias versões do crime. Foi uma decisão acertada, que impediu que a deselegância do título do doc se espalhasse pelos episódios. De fato, a honestidade da direção diante do horror daquela noite dispensa encenações que acabariam apenas por distrair a audiência. Oscilando entre a delicadeza da história de Daniella e a violência do assassinato, Tatiana e Guto conseguem transmitir a angústia da noite do crime, a indignação com os assassinos, a admiração pela luta de Glória e a indignação com o desfecho legal do caso. Uma emoção para cada episódio; costurando a experiência do espectador de uma surpresa para a outra.

E acredite, há surpresas. Embora seja difícil agrupar as muitas versões dadas pelos criminosos, o espectador provavelmente consegue terminar a maratona de episódios com uma ideia geral básica das mentiras que cercavam os assassinos e o tipo de personalidade que eles sustentaram. Também é possível montar, sozinho, uma versão mais aproximada do que teria acontecido naquela noite (as declarações de Ivana Crespaumer ganham contornos assustadoramente possíveis). Contudo, o mais importante seria conseguir que a partir daqui nenhuma especulação envolvesse dúvidas quanto ao caráter de Daniella e sua inocência absoluta nos eventos que resultaram em sua morte. Acredito que o documentário alcança esse objetivo.

Não é fácil assistir aos episódios e se deparar com as fotos da atriz morta em todos os ângulos possíveis e imagináveis. Não é fácil ouvir Glória Perez descrever a dor ao encontrar o corpo sem vida da filha que horas antes estava almoçando na casa dela. Não é fácil ouvir Glória dizer que se jogou em cima do corpo de Daniella no dia da exumação que trocou o corpo de sepultura (por conta de constantes vandalizações). Não é fácil ver a prima de Daniella mostrar a camiseta que a atriz usava quando foi morta e contemplar, nitidamente, cada um dos furos feitos pelo punhal que usaram para assassiná-la. Pacto Brutal é difícil, denso. Mas, cumpre perfeitamente o papel de dissolver teorias inconsequentes e estabelecer a verdade mais dura de todas: Daniella Perez cruzou o caminho de dois monstros, por acaso, e se tornou vítima de um plano de cobiça que ninguém, àquela altura, era capaz de prever.

Pacto Brutal: O Assassinato de Daniella Perez
Encerrada (2022- )
Pacto Brutal: O Assassinato de Daniella Perez
Encerrada (2022- )

Duração: 1 temporada

Nota do Crítico
Excelente!

Ao continuar navegando, declaro que estou ciente e concordo com a Política de Privacidade bem como manifesto o consentimento quanto ao fornecimento e tratamento dos dados e cookies para as finalidades ali constantes.