Foto de Ozark

Créditos da imagem: Ozark/Netflix/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Ozark - 2ª temporada

Novo ano reafirma coragem da série em fazer os sacrifícios certos

Henrique Haddefinir
14.01.2019
11h56

Existem duas categorias de séries familiares muito comuns na TV. A primeira é a das séries de canais abertos, produzidas por redes como Fox e ABC, que tem um grande número de episódios, começam fortes e depois viram uma bagunça, cheias de reviravoltas esdrúxulas e folhetinescas. A segunda é a dos dramas familiares para canais fechados, como a HBO, que apresentam núcleos centrados, poucos personagens e uma coisa forte em comum: são famílias nucleares americanas, aparentemente normais, que escondem tortuosos segredos, que ultimamente tem muito a ver com atividades criminosas. Pais de família ou "donas de casa" que em algum momento se veem obrigados a se tornarem bandidos.

O título mais relevante do mercado nesse sentido foi Breaking Bad, uma série sobre um moribundo professor de química que para não morrer e deixar a família na miséria, decide fabricar a melhor metanfetamina do mercado. É claro que depois dela vieram muitas, algumas inclusive até na área da comédia – como Good Girls - mas o fato é que no final das contas o sistema é o mesmo: as famílias entram no crime para se salvarem ou para ganharem dinheiro depois de uma situação extrema. Cruas ou trabalhadas no verniz, essas dramaturgias passam todas pelos mesmos lugares, com organizações latinas no fundo, assassinos frios atirando em pessoas no meio de uma frase, chefões afetados com modos bizarros e muitas e muitas sequências de quase-morte pelas quais passam os protagonistas, quase todas as semanas.

Ozark, produção da Netflix, entra nessa categoria. Criada por Bill Dubuque (que até então não tinha feito roteiros para a TV), a série é descaradamente uma recorrência de todos esses códigos narrativos que foram imortalizados pela Família Soprano e afetados pelo sucesso de títulos como Mad Men e até a própria Breaking Bad. Está tudo lá: pai, mãe, casal de filhos, esposa loira, papai carregado de tensões, filhos adolescentes problemáticos, envolvimento com o crime, ameaças, mortes violentas, capangas sem nenhuma fala e coadjuvantes destinados à morte. Contudo, nada na televisão é realmente novo e tudo tem a ver com como as recorrências serão utilizadas. Se for inteligente, é perdoável. E Ozark é bastante inteligente.

Sem pausas 

A história começa mostrando a apática rotina de Marty Byrde (Jason Bateman), um contador sócio de uma empresa que, discretamente, lava dinheiro para um cartel mexicano. Tudo vai bem até que o cartel descobre que o sócio de Marty está desviando dinheiro lavado. Como era esperado, o cartel manda seu assassino até lá e o massacre é inevitável. Marty tinha um panfleto no bolso, algo sobre um tal lago Ozark (que realmente existe) e passa uma conversa no executor, garantindo que pode lavar muito mais grana em muito pouco tempo. Assim, o novo morador de Ozark chega com a família para tentar garantir a sobrevivência e lida durante toda a primeira temporada com tensões de um nível angustiante, enquanto tudo em volta parece a um passo de ser destruído.

Essa destruição é lenta, fragmentada e muitas vezes imperceptível. Quando a segunda temporada começa, os personagens vivem na negação de que tudo pode ser contornado. É uma outra constante, aliás, dentro desse tipo de narrativa. Marty chegou no lago precisando lidar só com o cartel, mas quando o segundo ano começa ele já precisa administrar o cartel, os Snell, a máfia e ainda a perseguição do FBI. A crescente de ramificações é tanta que já nos primeiros episódios é possível notar como Marty está com o automático ligado, quase completamente alheio aos reflexos emocionais de tudo que acontece. Bateman é eficiente em transmitir essa ideia, que apesar de exigir menos de sua atuação é coerente com o que acontece na vida do personagem. Pessoas emocionais não podem conseguir lidar com tantas adversidades.

Para se salvar de mais uma pressão, Marty pretende abrir um cassino flutuante que lhe ajudará não só a lavar dinheiro como também a dar boas fatias do bolo para o cartel e para os Snell. Do lado familiar, Wendy (Laura Linney) segue como peça fundamental no jogo do marido, agindo cada vez mais independentemente. Como era de se esperar, os filhos do casal estabelecem sua dinâmica decisiva. Jonah (Skylar Gaertner) se revela mais sensato e Charlotte (Sofia Hublitz) ganha o posto de "filha-mala", passando metade do tempo fazendo apontamentos corretos – a família é mesmo muito ferrada – e a outra metade colocando todos em risco com seus rompantes intempestivos.

Aliás, o temperamento irracional foi a estrela dessa temporada. Do pastor ao agente do FBI, quase todo mundo fez besteira movido pelo descontrole emocional. Contudo, ninguém foi páreo para Darlene Snell (Lisa Emerey), que desafiou todo o mundo seriado com uma natureza incontrolável que nunca foi vista em tais domínios. A mulher simplesmente fazia o que queria, razão pela qual o roteiro – muito espertamente – estabeleceu também ser a razão pela qual ela era tão amada pelo marido. Grande parte das encrencas da temporada são provocadas pelo temperamento raivoso da personagem, que também protagoniza algumas viradas das mais significativas dos episódios finais. Há uma linha tênue muito bem explorada que a separa da vilania completa e ela sempre está sublinhada na relação de amor que Darlene tem com o marido.

Sacrifícios

O outro lado dessa corda muito tensa é de Ruth (Julia Garner), que depois de se livrar de uma parte podre da família, precisa lidar com a outra. Seu pai sai da cadeia e isso confirma algo que o público já sabia: Ruth tem uma necessidade patológica de ser aceita pelo pai e isso a move por estranhos caminhos no curso da temporada. Ela luta para manter Wyatt (Charlie Tahan) na linha, mas a presença do pai torna a "maldição dos Langmore" mais difícil de ser vencida. É interessante ver como ela oscila entre transferir suas expectativas afetivas do pai para Marty de acordo com quem a decepciona primeiro. Ruth é uma personagem fascinante e alguém por quem realmente torcemos, a despeito de todo o desvio de caráter que a constitui.

Contudo, o que é mais notório na segunda temporada de Ozark é seu compromisso total em manter-se surpreendente e no limite. Breaking Bad, por exemplo, mesmo com toda a ovação de público e crítica, tinha problemas para abrir mão de seus personagens, a despeito de todo o universo potencialmente mortal em que estava inserida. Já em Ozark a atmosfera de vulnerabilidade é opressora. Em súbitos rompantes, sacrifícios são feitos por toda parte, sempre de modo coerente, sempre de forma corajosa, priorizando a trama e nunca o quão poderia ser mais fácil encontrar uma saída de última hora para preservar aquela vida. Mortes chocantes ilustraram o primeiro ano e isso se manteve em pauta no segundo.

Por fim, após tantos "controle de danos", o que permaneceu foram as mudanças internas de cada um dos sobreviventes. Muitíssimo bem dirigidos e abusando da paleta fria para fazer o público acreditar no cinza de suas estruturas, os episódios conduzem a epifanias. Ruth precisa entender que não pode ser uma Langmore se quiser viver, Marty precisa voltar a pensar com o coração se quiser sobreviver, Wendy e Darlene podem ter muito mais em comum do que imaginavam... É possível prever que na próxima temporada as quatro imagens dentro da imensa letra O da abertura continuarão a mostrar charadas sangrentas, mas podemos também há um alívio porque essa não é uma série oportunista. Ozark vai continuar contando sua história doa a quem doer, do mesmo modo temperamental com o qual vivem seus personagens, porque nenhuma narrativa com base no medo pode parecer segura.

Nota do Crítico
Excelente!