Séries e TV

Crítica

Outlander - 3ª Temporada | Crítica

Série arrisca ao desfazer conceito do “amor perfeito”, mas ainda precisa de um novo antagonista

Camila Sousa
27.12.2017
15h39
Atualizada em
29.12.2017
09h01
Atualizada em 29.12.2017 às 09h01

[Cuidado com spoilers leves de Outlander abaixo]

A segunda temporada de Outlander terminou com um grande gancho: Claire estava de volta ao seu tempo, tinha criado sua filha Brianna e finalmente revelou a ela a verdade sobre a viagem no tempo e seu verdadeiro pai: Jamie. Com isso estabelecido, o terceiro ano começou de forma intensa, quebrou vários paradigmas, mas terminou sem muito fôlego, principalmente pela falta de um bom antagonista.

Logo nos primeiros episódios há um misto entre mostrar a vida de Claire em Boston nos anos 40 e revelar o que aconteceu com Jamie na Batalha de Culloden. Essa dinâmica entre as duas épocas é interessante. Vemos como os protagonistas tentam sobreviver à realidade em que estão. Jamie está no campo de uma batalha perdida e Claire precisa encontrar forças para criar a filha que é a única coisa que lhe restou do homem que amava.

Há aqui, como em outras temporadas da série, uma valorização importante da força da mulher, que não é física (embora também possa ser), mas uma determinação emocional, de superar os obstáculos sem se entregar. Caitriona Balfe brilha novamente como uma Claire mais madura e contida, que precisa colocar as necessidades da família acima das suas.

A série também é corajosa ao mostrar os erros de seus protagonistas. Claire aceita criar sua filha com o antigo marido, Frank, em um casamento de fachada. Esse relacionamento é conturbado e Claire comete vários erros. Em certo momento, por exemplo, ela sente ciúme de Frank, embora tenha concordado que ele poderia ter relações com outras mulheres. Ela é falha, o que a torna mais humana, aproximando-a do público.

De volta ao passado, Jamie sobrevive à batalha e recomeça sua vida. Nesse caminho, ele conhece uma jovem triste chamada Geneva e a engravida, em uma cena que foi bem mais duvidosa nos livros, mas colocada de forma leve na série. Jamie foi chantageado para fazer sexo com Geneva e cedeu, em um misto de desejo, pena e medo. É uma atitude questionável, mas, novamente, Outlander não precisa que seus protagonistas sejam perfeitos.

O episódio seis marcou uma reviravolta importante: com a ajuda de sua filha Brianna e do jovem Roger, Claire deixa sua realidade e volta ao passado para encontrar Jamie. Com isso, a trama da série teve perdas e ganhos. O reencontro entre Claire e Jamie, o casal que conduz toda essa história, é emocionante. Porém, com ela de volta ao passado, o núcleo de Brianna e Roger desaparece. A perda é sentida principalmente porque os jovens são carismáticos e o contraponto entre passado e futuro não existe mais.

Mas é nesse momento que Outlander se sobressai e mostra por que  é uma série relevante: era muito fácil mostrar um “mar de rosas”, mas a realidade é que Jamie e Claire ficaram longe um do outro por muito tempo e se tornaram pessoas diferentes. O seriado é corajoso ao não escolher o “amor perfeito” e sim o “amor real”, que precisa ser construído com muita conversa e entendimento entre as duas partes. Até mesmo a questão da idade, da qual filmes e séries de Hollywood costumam fugir, aparece aqui. Claire e Jamie estão grisalhos, mais maduros do que antes e, embora exista muito amor entre os dois, aquela paixão avassaladora da juventude não existe mais. No lugar, há mais sabedoria.

Na primeira metade dessa temporada de Outlander, Claire se formou em medicina e se tornou uma médica respeitada em Boston. Embora ainda existissem preconceitos com as mulheres na época, ela conquistou um lugar de respeito dentro da sociedade. Exatamente por isso há um gosto amargo ao vê-la voltar ao passado e ser novamente rebaixada por seu gênero e enfrentar obstáculos como o perigo iminente da violência sexual. A série se mantém verdadeira com essa dinâmica, mas é incômodo ver uma heroína tão empoderada novamente com medo.

No entanto, a grande problema de Outlander é não ter um bom antagonista. Black Jack Randall foi por muito tempo um grande vilão da série, principalmente por sua ligação com os antepassados do marido de Claire e suas motivações sádicas, que foram reveladas pouco a pouco. Depois disso, o tempo se tornou vilão, já que a Batalha de Culloden era inevitável e muitos morreriam ali.

A terceira temporada termina sem um grande obstáculo e isso se reflete nos protagonistas. Claire precisa enfrentar novamente Laoghaire, que volta em uma trama reaproveitada da primeira temporada. Depois, o casal viaja para encontrar o sobrinho de Jamie, que foi sequestrado por culpa dele. Várias pequenas tramas e pequenos vilões surgem, mas não há uma trama central para direcionar e dar peso a tudo.

Claire e Jamie continuam tão heroicos e corajosos quanto nas temporadas anteriores, porém apagados pela falta de um grande conflito e o exagero das tramas menores. Com pouco fôlego, o terceiro ano termina em aberto, mostrando que os dois estão em um novo país. É a promessa de novos desafios e a esperança de que o casal tenha um futuro mais interessante.

Nota do Crítico
Bom