Séries e TV

Crítica

Orphan Black - 1ª Temporada | Crítica

Tatiana Maslany chama atenção em uma das séries mais inteligentes e nervosas da atualidade

Henrique Haddefinir
02.07.2013
19h00
Atualizada em
21.09.2014
15h01
Atualizada em 21.09.2014 às 15h01

Em 2006, o cientista Severino Antinori declarou, a despeito de todas as discussões éticas e legais, ter feito três clones humanos em 2003 que, segundo ele, viviam muito bem no Leste Europeu. A notícia chocou o mundo e levou muita gente a considerar a realidade desses indivíduos, cópias genéticas exatas de uma matriz desconhecida para eles. O quão sedutora não parece a dramaturgia involuntária de imaginar-se espalhado em dezenas de pedaços pelo mundo?

Orphan Black

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Em Orphan Black, uma produção canadense que estreou em 30 de março no canal BBC America, a órfã Sarah Manning (Tatiana Maslany) vê sua vida sofrer uma ruptura peculiar quando dá de cara, em uma estação de metrô, com uma mulher idêntica a ela. A mulher se joga nos trilhos num suicídio inesperado, onde Sarah encontra uma chance de conseguir algum dinheiro para sua tentativa de mudar de vida e conseguir a guarda da filha. Beth Childs, a suicida, é detetive de polícia e Sarah resolve tomar seu lugar apenas para roubá-la. As coisas começam a se complicar quando a proximidade com a vida de Beth leva Sarah a descobrir perturbadores segredos sobre sua origem.

Todo o material de divulgação da série já adiantava o motivo das semelhanças entre Sarah e Beth mas, ainda assim, o clima do episódio piloto é de suspense constante. Imersa num planejamento extremamente seguro, requisito essencial para lidar com histórias que desafiam a genética ou o tempo, a série se envolve de uma atmosfera de incertezas e inseguranças, colocando os personagens em um jogo de pontos cegos que acaba se refletindo no espectador. Aos poucos, Sarah vai desvendando uma conspiração que a coloca frente a frente com a personificação do que antes era realismo fantástico: a clonagem.

O adiantamento desse aspecto primordial da série, no entanto, tem sua razão de ser. O diferencial de Orphan Black não está em sua temática científica, mas sim no embate constante entre ela e a ética social. E está, também, no trabalho impressionante de Maslany, que faz o impensável, vivendo várias versões da mesma matriz genética, entregando uma interpretação já premiada que consegue, com extrema competência, externalizar os conflitos pessoais de quem se descobre como uma imensa prova de contradição à natureza.

A guerra dos clones

Embora Orphan Black possa passar uma intenção inicial de fazer um jogo de "minha vida pela sua", as coisas não seguem por esse caminho. O roteiro propõe uma constante ruptura com a previsibilidade. Assim que Sarah Manning assume a identidade de Beth Childs, a história repete alguns daqueles clichês do gênero: a vida da detetive Beth é difícil de ser reproduzida por uma estranha, mesmo que a aparência seja a mesma. Movida pela ambição, Sarah se prende à vida da gêmea e é obrigada a aprender a viver como ela.

A subversão começa quando Beth deixa de ser a única coincidência genética e uma lacuna nos mistérios sobre ela é preenchida. Imediatamente, outra lacuna sobre a série também se esclarece: o que Orphan Black busca não é o oportunismo de gênero (o eterno impasse da vida que não lhe pertence mas lhe é sedutora), mas a transgressão. É curioso se entendermos a vida de Sarah como a própria metáfora indireta do programa. Ela tem uma vida ferrada, teve uma filha com um idiota, precisou deixá-la aos cuidados de uma "mãe adotiva" com quem não se dá bem e só tem uma ligação emocional forte (além da filha) com o "irmão", Felix (Jordan Gavaris, numa interpretação irresistível). É claro que a bem sucedida detetive que ela incorpora parece uma oportunidade única de se encaixar nos padrões sociais estabelecidos como saudáveis. É mais ou menos o que a concepção do programa transmite, partindo de um princípio muito eficiente para o mercado (histórias de identidades trocadas sempre tem seu apelo), mas decidindo não ficar dentro da zona de conforto. Sarah não se seduz pela fantasia e Orphan Black não se seduz pelo óbvio.

Quando outras cópias começam a aparecer, a dramaturgia mostra todo o seu poder de persuasão. Os criadores da série, Graeme Manson e John Fawcett, estão cientes que o tema "clonagem" representa um perigo iminente de verossimilhança ao texto. Eles não querem, sabiamente, correlacionar a série ao habitual universo megalomaníaco que persegue o tema. Orphan Black só pretende as indiretas inspirações, sem abraçar o tom cartunesco tão provável ao lançar mão dessas liberdades criativas. Os personagens, então, evitam o peso da palavra "clone" tanto quanto nós evitaríamos. A base, enfim, é a ciência da coisa, e não a coisa em si.

Ao passo em que desvenda os segredos de Beth, Sarah vai se deparando com mais cópias e cada uma delas reside dentro da mais completa ordem natural. Mais importante que tratar do fantástico (ainda que a clonagem não seja mais assunto só de cinema) é situar o fantástico dentro do comum, do cotidiano. A vida das cópias é como a vida de qualquer pessoa, ainda que secretamente, elas sejam parte de um plano maior, monitoradas dia e noite por uma vida que é encenada para elas e não por elas - outra sacada genial do roteiro.

Do início para a metade da temporada, as cópias clamam pela necessidade de manter suas vidas intocadas. É natural. Até mesmo os gêmeos univitelinos tem uma propensão grande a buscar uma identidade social diferente uma vez que não podem fugir da semelhança física. Cada um dos clones foi inserido dentro de um contexto, de uma nacionalidade, o que significa que foram sociabilizados de maneiras distintas. Em comum, a aparência e o fato de serem todos órfãos, adotados por famílias ao redor do mundo. Mesmo aquelas que foram geradas por mães conscientes do processo acabaram como indivíduos também conscientes de seu isolamento. A Orphan Black do título não é Sarah. A Orphan Black do título é um estado de espírito, uma licença poética para uma espécie de marco zero científico. Tudo é escuro por não ter origem definida. "Origem", então, é a palavra-chave da série e da vida dos clones. Qualquer e toda cópia tem um original... Mas qual delas então, é o princípio de tudo? O Gênese?

OrphanBlack texto

Elas por Ela

Para que todas essas complexidades da série pudessem ser transmitidas, uma atriz competente precisaria ser escalada para viver todas essas personagens. Tatiana Maslany faz um trabalho irrepreensível ao viver cada uma das cópias com uma propriedade de detalhes que muitas vezes assusta. Da rebelde Sarah, passando pela neurótica Alysson até a perturbadíssima Helena, cada uma delas tem uma profundidade impressionante e compartilham a mesma angústia, mas com um histórico distinto que delega a elas uma identidade única.

Aí temos outra vantagem de Orphan Black: uma série cheia de ação e ciência poderia rapidamente ser confundida com uma produção incapaz de representações emocionais. A televisão aprendeu a entender as mazelas de qualquer criação viva e hoje faz filmes de animação que humanizam bonecos de massinha. Enquanto Sarah dá tiros e persegue bandidos, imprime em seus gestos e olhares a agonia de perceber que sua história se fragmentou em pedaços que não são seus - a dúvida em se envolver com o namorado da mulher que finge ser, a preocupação em proteger o pouco que lhe distingue das outras.

O roteiro não apenas apresenta cópias como Alysson e Cosima, mas se dedica a descolá-las do papel de alegorias temáticas, dando a cada uma delas uma função, uma natureza, um anseio. Na metade da temporada, já estamos apaixonados por Alysson e sua neurose familiar, por sua maneira desajeitada de analisar o próprio mundo que termina por leva-la à desgraça absoluta. Já estamos preocupados com a atração que Cosima sente pelos neoevolucionistas e já estamos com pena da forma como Helena é manipulada pela própria fragilidade.

No que diz respeito à trama, Orphan Black dá aula de esperteza. Somos enganados e surpreendidos o tempo todo. Essa é uma fórmula perigosa, sobretudo porque nos educa a esperar sempre muito e cria uma responsabilidade constante de superação. Com uma segunda temporada já garantida, provavelmente veremos o futuro da série se focar na sua maior ambiguidade: Sarah tem uma filha, um material genético original criado a partir de sua construção reproduzida. Uma filha que desafia a natureza do anti-natural e que pode ser a resposta para muitas coisas. No entanto, vamos ter que segurar a ansiedade. Tatiana Maslany e suas mil facetas só voltam ao ar em 2014. Até lá, nos resta teorizar a respeito dessa incrível mitologia que, no desafio da lógica científica, nos entrega uma história cheia de nervosismo e complexidade.

Nota do Crítico
Bom

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