Orange Is the New Black - 7ª temporada

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Orange Is the New Black - 7ª temporada

Uma das maiores veteranas da Netflix chega ao fim cercada de homenagens e melancolia

Henrique Haddefinir
26.07.2019
15h27
Atualizada em
12.08.2019
16h10
Atualizada em 12.08.2019 às 16h10

Séries prisionais não são necessariamente um filão da teledramaturgia. Temos alguns títulos importantes como Oz e Prison Break, mas entre algumas tentativas falhas e poucos sucessos, a abordagem da rotina dentro de um presídio – quando acontecia – era sempre para retratar os horrores que os prisioneiros passavam todos os dias. Oz, por exemplo, foi uma série que antecedeu a grande transformação criativa promovida por The Sopranos (embora também fosse da HBO); e mesmo que tivesse um tom de crônica, era uma série tomada de violência e visceralidade. Era uma abordagem óbvia, claro. O que mais uma prisão poderia ter a oferecer? Seria possível encontrar otimismo e leveza numa narrativa assim?

A proposta de Orange is the new Black não tinha a menor intenção de pintar uma cadeia somente com cores claras, mas era uma proposta inesperada, ligeiramente cômica, que mesmo reforçando com um texto elegante o drama de cada uma das detentas, não perdia a oportunidade de cavucar ternura entre um corte e outro. Prisões, como um todo, são um território de abordagem criminosa que no caso dos homens toca em questões instintivas, sócio-políticas e egocêntricas; transferidas para a televisão com sangue e tensão em todos os casos. Orange nunca esqueceu-se da vaidade e do ego, mas aproveitou sua voz para falar de problemas que cercam as mulheres prisioneiras na forma de machismo, preconceito e abuso.

A premissa da série – a chegada de Piper (Taylor Schilling) ao presídio – ajudava na flexibilização dos níveis dramáticos da produção. Piper era uma patricinha apaixonada que acabou indo parar na cadeia num desvio impensado. Branca e privilegiada, a personagem se via fazendo uma curva imprevista no destino de todos que nascem como ela. Sem cair na fórmula quase irresistível do “rico num ambiente pobre”, a série apostou nas discrepâncias do mundo de Piper sim, mas ficou claro muito cedo que aquela era uma produção que queria falar sobre as mulheres, sobre muitos e muitos tipos delas, vindas de muitas histórias, cheias de muitos sonhos. Então, com variações de foco a cada temporada, Orange foi seguindo com um time central que passou a ser adorado no mundo todo. 

O nova Orange

Mesmo que se trate de uma comédia, Orange is the New Black se passa numa prisão e esse é o primeiro e grande obstáculo que impede as expectativas de final feliz. Quando o primeiro episódio da temporada começa, o roteiro já vai nos deixando claro que evidentemente a felicidade encontrará algumas detentas. Mas, na maioria dos casos, o único final possível é a interrupção da narrativa. Algumas cairão, outras se levantarão; e com várias delas a história vai continuar, ali naquela mesma rotina, apenas deixando de ser “contada em voz alta”. É uma percepção entristecida, que nos atinge assim que revisitamos as vidas de Piper e Taystee (Danielle Brooks), aquelas que são, enfim, as duas principais costuras do último ano.

Piper saiu no final da temporada passada. A liberdade, contudo, não é sinal de problemas resolvidos para nenhuma delas. Depois de passar alguns anos fora do convívio em sociedade, Piper descobre que não existe mais sociedade para ela. A família a trata como uma estranha inconveniente e os amigos como uma atração de circo. Ela sente falta de Alex (Laura Prepon) e luta para se manter em empregos. É uma temporada em que Taylor continua enfrentando o senso comum de que sua personagem é chata e desinteressante, mas é onde seu trabalho também está mais consistente. A vida de Piper era desajustada na prisão e fica ainda mais fora dela. É impossível não ser empático ao extremo esforço que ela faz para não deixar que o mundo externo se torne seu grande inimigo, o que, quase sempre, resulta na autosabotagem que leva algumas delas de volta para a detenção.

Isso foi o que aconteceu com Taystee, por exemplo. A última temporada é tão cruel com ela quanto com Piper. Taystee foi traída por Cindy (Adrienne Moore), condenada por um crime que não cometeu e entre apelações e pressões, se debate para não perder seu notório otimismo. Danielle está incrível em cena; e os roteiros compreendem a ambiguidade de sua posição depois de ter sido condenada. Sem Caputo (Nick Sandow) por perto, ela passa a trabalhar para Tamika (Susan Heyward), a guarda que era sua amiga de adolescência e que – numa virada repentina – passa a ser a diretora da prisão. Taystee é esmagada pela lentidão e pela burocracia do sistema, sofre intensamente a perda de todas as suas referências e ainda assim, passa toda a temporada afetando positivamente quem está em volta. Quando pensamos nela nas primeiras temporadas fica ainda mais fascinante notar como ela acabou se tornando uma das figuras mais importantes da série.

Talvez, contudo, o maior acerto dessa última temporada esteja na sufocante narrativa da imigração. Quase todas as personagens que conhecemos não vestem mais aquela roupa laranja que também serviu para o título. Foi interessante ver que o "Orange" passa a ser novamente uma cor diferencial para a série, quando toda uma área é reservada para receber imigrantes ilegais nos EUA. A questão é que na era pós-Trump mesmo que você tenha nascido nos EUA, se for de alguma origem estrangeira, está colocado no mesmo saco. Os roteiristas discorrem a temática com extrema franqueza, quase nos socando com plots que incluem alguém sendo detido numa boate por ter esquecido uma simples identidade e sendo deportado para a América do Sul sem nunca nem ter pisado lá. É esmagador. A narrativa de Blanca (Laura Gomez) está situada nesse lugar, junto com todo um ótimo time de novas personagens e uma conclusão tão acachapante quanto.

A falta de ritmo nas temporadas de Orange se deve, em grande parte, à decisão de ter 13 episódios com 50 minutos cada um. Apesar de estarmos no último ano o problema rítmico se mantém em evidência, com os primeiros episódios sendo um pouco mais arrastados. A direção, contudo, se esmera em reforçar o aspecto dramático que tantas despedidas exigem e uma quantidade admirável de ótimas “sequências de final de episódio” enfeitam a temporada com uma trilha sensível e delicada. Seja por causa da disponibilidade de atores ou não, mais uma vez alguns personagens somem e se desvalorizam nessas últimas horas. Não há nada no nível de negligência de Sophia (Laverne Cox), mas é um pouco decepcionante ver alguns personagens promissores ficando pelo caminho.

Em tempos de encerramentos de séries sendo traumáticos para o público, o trabalho em Orange era preocupante justamente pela quantidade imensa de destinos a serem resolvidos. Em retrospectiva, o resultado acabou sendo satisfatório. Enquanto trajetórias como a de Daya (Dascha Polanco) teriam que ser revistas desde muito tempo para serem coesas em qualquer alteração (e Daya se tornou, enfim, o câncer do presídio), a solução para o final de Red (Kate Mulgrew), por exemplo, incomoda justamente por parecer espontânea demais. Há uma extrema coerência nos resultados para Lorna (Yael Stone), Cindy, Doggett (Taryn Manning), Nicky (Natascha Lyonne, sempre sofrendo por amor), Gloria (Selenis Levya) e até Aleida (Elizabeth Rodrigues). Mas, embora não seja incorreto, é difícil ver Suzanne (Uzo Aduba) cuidando de galinhas a temporada inteira, para ser relevante apenas numa sequência profundamente emocional já no último episódio (e que cena!).

As galinhas, aliás, são algumas das homenagens da temporada. Há velhos rostos que retornam e momentos que referenciam o que a série teve de melhor. Curiosamente, está em personagens que cresceram e se redimiram o grande poder dessa despedida. A relação tóxica entre Alex e Piper (que permanece sendo incapaz de se esclarecer aos olhos da própria criadora da série) perde de mil para a relação entre Caputo e Figueroa (Alysia Reiner), que começou nos piores termos, mas que se fortaleceu de uma forma muito carismática. Ele próprio - que abre um curso de confrontamento psicológico - faz autoavaliações importantíssimas com relação ao machismo com o qual agiu durante os primeiros anos. Há uma tentativa constante de corrigir comportamentos trágicos, mas muitas vezes o trágico precisa existir para que mudanças sejam promovidas. Então, é reconfortante que a série não tenha apelado para grandes espetáculos e que toda a belíssima ação final da temporada tenha sido cortantemente humana. Danielle Brooks explode em cena, fazendo de Taystee a representação mais exata da luta constante de uma detenta, perdida entre viver para ser livre ou simplesmente buscar outro – e cruel – tipo de liberdade.

Enfim, quando a tela escurece alaranjada pela última vez, a mistura de emoção e reflexão é quase palpável. Alguns finais nos fazem sorrir, outros nos incomodam, desagradam. Mas, todos eles vem de uma única certeza: a vida quer o melhor, mas nem sempre é isso que ela pode dar. Orange is the new Black tropeçou várias vezes, mas em suas duas últimas temporadas conseguiu respeitar a própria gênese e reverenciar aquelas mulheres com todo o respeito que elas merecem. E elas merecem. Ainda fica a dor por aquelas que não pudemos salvar, mas toda boa dramaturgia é feita disso: alegria e pesar por quem não existe de fato, mas que sentimos através da força de tudo que é invisível.

Nota do Crítico
Ótimo