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Crítica

Orange is the New Black - 5ª Temporada | Crítica

Nova temporada não supera anterior, mas consagra série como uma das mais importantes em exibição atualmente

Rafael Gonzaga
09.06.2017
17h55
Atualizada em
29.06.2018
02h43
Atualizada em 29.06.2018 às 02h43

É indiscutível a maturidade que Orange is the New Black ganhou desde a estreia na Netflix até seu quarto ano, o melhor até então. Em sua última temporada, os executivos por trás da trama absorveram definitivamente todas as críticas sobre o excessivo protagonismo branco - as atrizes dos núcleos afro-americano e latino só se tornaram parte do elenco regular, respectivamente, no segundo e no terceiro ano da série - e entregaram uma trama bem amarrada sobre racismo e violência policial. A história retorna após um final de temporada arrebatador, encerrado no cliffhanger de uma rebelião estourada em função da morte de Poussey Washington (Samira Wiley).

Existia uma hesitação por parte de muitos espectadores em acreditar na possibilidade de um quinto ano ainda melhor que o quarto. A resposta para essa questão, infelizmente, é negativa - mas isso não é necessariamente algo de todo ruim. Ainda que a nova temporada não tenha o impacto do anterior, Jenji Kohan conseguiu manter o nível altíssimo e entregou uma remessa de episódios de qualidade - além do que, verdade seja dita, era uma missão muito mais complicada executar a quinta temporada do que foi com o quarta.

O ano anterior se desenvolve nos detalhes, cria tramas que parecem pequenas e que, antes do espectador perceber, ganham dimensões assustadoras. Já o quinto começa com a premissa de espremer cerca de 72h de enredo em 13 episódios, algo complicadíssimo do ponto de vista de manter a fluidez do roteiro. A série merece os méritos de se garantir ao apostar nesse desafio e ter, na maior parte do tempo, conseguido sustentar a trama sem que ela se tornasse arrastada - ainda que tenha falhado em momentos da primeira metade da temporada, como no dispensável  episódio "Litchfield’s Got Talent". Há a sensação de que alguns capítulos poderiam ter sido menores ou mesmo de que a remessa inteira poderia ser mais enxuta, mas, no fim das contas, o saldo é infinitamente mais positivo do que negativo.

Antes de tudo, sobre a quinta temporada, é preciso saber que Piper Chapman (Taylor Schilling) está no banco de reservas: quem carrega o protagonismo com maestria é Taystee Jefferson (Danielle Brooks). A jovem, que desde a morte de Vee Parker (Lorraine Toussaint) assumiu o papel central no núcleo afro-americano, foi o grande nome por trás de todos os episódios. Na primeira metade da temporada, carregada de humor, Brooks brilhou como a principal válvula dramática ao dar vida à detenta revoltada pela morte da amiga. Na segunda, a atriz voltou a dar um show no papel da principal articuladora da rebelião, psicologicamente esgotada e confusa quanto às próprias ambições nas negociações.

Aliás, todo o núcleo que orbita ao redor de Taystee ganhou destaque: as atrizes Adrienne C. Moore e Amanda Stephen, que vivem, respectivamente Black Cindy e Alison Abdullah, apresentaram um ótimo trabalho. Vicky Jeudy, que interpreta Janae Watson, protagoniza a melhor sequência de flashbacks da temporada, mostrando a origem de sua revolta com o sistema de privilégios raciais, e, é claro, Uzo Aduba continua impecável como Crazy Eyes, personagem apagada na primeira metade dos episódios, mas fundamental durante a segunda.

O vilão de fato só se revela de fato no final do oitavo episódio. Piscatella (Brad William Henke) entra em cena como o terceiro guarda na escala de sadismo em Litchfield - não vamos esquecer Humphrey (Michael Torpey), que ao menos tem o fim merecido ao longo da temporada, e Pornstache Mendez (Pablo Schreiber), que volta a dar as caras no novo ano. Antes de Piscatella tomar as rédeas do antagonismo, ele fica espalhado por personagens fracas, como a dupla de idiotas Leanne (Emma Myles) e Angie (Julie Lake), dispensáveis tanto como vilãs quanto como alívio cômico - esse último só é bem executado por “Flaritza”, dupla formada por Flaca (Jackie Cruz) e Maritza (Diane Guerrero). Henke, por outro lado, faz um excelente trabalho revelando Piscatella como alguém mais problemático do que o espectador presumia.

Piper chega a assumir posições importantes em alguns momentos da trama, desde a organização de um memorial para Poussey até o grande conflito com Piscatella. Contudo, o principal destaque da personagem no quinto ano é fruto do seu relacionamento com Alex Vause (Laura Prepon). A química entre as duas atrizes se tornou ainda mais forte, a ponto de que é impossível não enxergar as duas como único casal possível, principalmente quando se coloca em comparação seus interesses românticos anteriores, como Stella Carlin (Ruby Rose) ou Larry Bloom (Jason Biggs), que faz uma aparição relâmpago nos novos episódios.

Vale pontuar também que, se na morte de Poussey os roteiristas fizeram uma ligação explícita com Eric Garner, homem negro assassinado em julho de 2014 por policiais de Nova York por uso excessivo de força, a quinta temporada volta a fazer alusão ao caso e a outros do mesmo pacote. A série toca na realidade quando Figueroa (Alysia Reiner)pede que Taystee confie no "sistema" e a presidiária argumenta em um discurso inspirado que esse mesmo sistema “atira em um homem negro porque ele grafitou um muro, ou tentou pegar a chave, ou vendeu cigarros soltos”, referências a mortes que começam em Michael Stewart, nos anos 1980, e terminam no já citado Eric Garner.

Ainda que Orange is the New Black não desapegue de uma pincelada cômica que já é marca da trama desde a primeira temporada, o drama se consolidou como sua principal carta na manga. O quinto ano da série não decepciona mesmo com os escorregões da primeira metade e fortalece os vínculos do espectador com personagens queridos. Se a representatividade da série e a visibilidade de narrativas femininas já não fossem motivos suficientes para garantir à Orange is the New Black um lugar entre as séries mais importantes em exibição no momento, Jenji Kohan faz questão de entregar uma história inteligente tocada por figuras carismáticas. A nova temporada conclui alguns arcos, como o dos vilões Piscatella e Humphrey, e deixa vários outros ainda em aberto, mas, principalmente, encerra com um novo cliffhanger poderoso capaz de deixar o espectador roendo as unhas para todas as possibilidades abertas para a sexta temporada.

Nota do Crítico
Ótimo