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Séries e TV
Crítica

O Urso | Última temporada perfeita é a Estrela Michelin que faltava à série

Produção encerra sua jornada de forma madura, cinematográfica e com o tempero especial que conquistou o público

Omelete
5 min de leitura
25.06.2026, às 12H00.

Ansiedade. Não existe palavra melhor para definir O Urso do que essa. Foi com a melhor representação possível da loucura que é o trabalho em uma cozinha que a série conquistou seus fãs. Entre gritarias, xingamentos e muita sujeira, a primeira temporada chegou como algo novo, pop e nervoso, quase hiperventilando. Esse sentimento se expandiu para fora do restaurante, tomando a vida pessoal dos personagens no segundo ano. Tomou conta da própria produção em uma terceira temporada que, mesmo muito boa, parecia não saber para onde correr. O quarto ano foi um respiro, um momento de reconciliação. E agora, no quinto, a ansiedade retorna para um último serviço.

As coisas não estão boas para o restaurante de Carmy (Jeremy Allen White), Syd (Ayo Edebiri) e Richie (Ebon Moss-Bachrach). O chef está deixando a cozinha, sua “aprendiz” não acredita cem por cento em seu próprio potencial e Richie segue buscando uma forma de fazer daquele ambiente o melhor possível. O dinheiro acabou, os fornecedores não entregam mais e a hora de o The Bear fechar as portas se aproxima. Do lado de fora, uma chuva torrencial atinge Chicago. A água começa a invadir o restaurante e tudo parece a ponto de desmoronar. É nesse “último dia” que a temporada final acontece, com a atmosfera de um longo episódio de encerramento com mais de 5 horas de duração.

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A trilha sonora da série, historicamente marcada por artistas como R.E.M., John Mayer e Wilco, dá lugar a uma frenética trilha original produzida por Hans Zimmer, que dita o tom da corrida contra o tempo nessas últimas horas da produção e do restaurante. O que servir quando não se tem ingredientes? O que dizer para os companheiros que lutaram tanto para erguer aquele lugar, mas agora ficarão apenas com um adeus? Com tudo desmoronando, ainda é possível encarar a gastronomia como arte? A tempestade do lado de fora do restaurante é a materialização de tudo o que foi acumulado ao longo desses anos; agora que todos parecem finalmente em paz com a situação, a chuva cai para interromper o sonho.

O Urso
Divulgação

Se O Urso ficou grande demais após o sucesso estrondoso, acumulando várias participações especiais — seja de chefs reais ou de atores consagrados —, a última temporada volta ao que fez da série um fenômeno: as quatro paredes da cozinha. Praticamente confinada no restaurante, a história precisa apenas do talento do elenco principal para brilhar. Da dúvida de Gary (Corey Hendrix) sobre qual é o vinho certo, depois que as garrafas perdem os rótulos com a inundação, ao drama de Marcus (Lionel Boyce) que, inebriado pelo prêmio da temporada passada, convida o pai ausente para experimentar seus pratos, cada um tem seu momento de destaque. A primeira cena da temporada já coloca Tina (Liza Colón-Zayas) direto no fogo cruzado: depois de achar seu dom, o que fazer quando tudo dá errado?

Esse medo ocupa a mente de todos no The Bear, incluindo Jimmy (Oliver Platt), que entra em uma side quest ao lado de Computer (Brian Koppelman) e da novata Cheese para tentar dar um jeito na situação financeira caótica do restaurante.

Ao substituir aos poucos a ansiedade pelo medo de falhar, Christopher Storer e sua equipe entendem que, para um ano derradeiro, o grosso do trabalho já havia sido feito. Dos incríveis episódios como "System", "Review" e "Braciole", da primeira temporada; "Fishes" e "Forks", da segunda; "Tomorrow", "Ice Chips" e "Forever", da terceira; aos recentes "Worms", "Bears", "Tonnato" e "Good Bye", da quarta, os grandes pratos deste banquete já haviam sido servidos. Era preciso agora transformar toda a fúria, frustrações, reconciliações, erros e acertos em resolução. Esse menu degustação amargo, picante e, em alguns momentos, doce, precisava terminar com um último prato e uma sobremesa espetaculares.

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Reprodução

E isso acontece de forma acelerada, em episódios de 25 a 30 minutos que culminam em um sétimo e penúltimo capítulo que comprova todos os méritos técnicos da produção. Com edição e fotografia primorosas, o elenco age como nas melhores cozinhas do mundo: todos entendem perfeitamente seu papel e sua função, dando espaço para que cada um entregue o seu melhor serviço. É um episódio para entrar no hall de grandes momentos da televisão, reunindo praticamente todo o elenco em um balé que troca a gritaria desenfreada por comandos e vozes firmes, momentos de reconhecimento mútuo e, por que não, profunda satisfação.

O fato de este episódio se desenrolar como um balé evidencia, também, a maturidade atingida por seus artistas. O agito na cozinha de O Urso sempre representou o caos na mente de Carmy e seus colegas, mas ao chegar em seus últimos momentos dançando igualmente com a música, e a chuva arrastando todos os seus receios para longe, a equipe do restaurante finalmente cria o espetáculo que tanto buscaram. Para os bears, é uma verdadeira grande inauguração, enquanto para nós é o canto do cisne perfeito para uma série (quase) perfeita.

Em tempos nos quais parece difícil encontrar conclusões dignas para as séries que amamos, O Urso encontra seu grande mérito neste encerramento justamente ao reduzir seu escopo para uma falsa simplicidade. Mas a pia cheia de louça prova que muito foi feito nesses últimos cinco anos. Quando Syd encara uma foto de Remy, o ratinho cozinheiro de Ratatouille, e ri, quase o xingando, a série assume uma postura de total oposição ao discurso otimista do filme da Pixar de que “todo mundo pode cozinhar”. Depois de tudo o que passaram, será que qualquer um realmente conseguiria aguentar o tranco e ser como Syd, Carmy, Richie, Marcus, Tina, Neil (Matty Matheson), Sugar (Abby Elliott) e todos os outros bears?

O Urso se consolida como uma das melhores séries já produzidas e chega ao final coroando esse legado com uma temporada perfeita. E assim como os incríveis pratos de Syd, Carmy e Marcus, peço licença ao Omelete — prato que também esteve na série, diga-se de passagem — para inovar. Junto aos tradicionais cinco ovos da nota máxima do site, entrego também a tão sonhada estrela que a série buscou e mereceu desde o primeiro minuto. Foi gostoso demais — e absurdamente ansioso — acompanhar essa jornada.

Nota do Crítico

O Urso

Criado por: Christopher Storer
Onde assistir:

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