Séries e TV

Crítica

O Mundo Sombrio de Sabrina - 1ª Temporada

Série da Netflix explora individualidade e pressão social em carta de amor aos clássicos de terror

Arthur Eloi
26.10.2018
13h11

Ainda que sustos e criaturas sejam suas características mais populares, o terror oferece a oportunidade única de explorar a humanidade através do medo e do indesejado. Curiosamente os dramas adolescentes fazem algo parecido, trazendo ensinamentos valiosos sobre a vida em uma linguagem apta para quem está na faixa etária onde estes serão necessários. Não é à toa que os dois gêneros frequentemente se sobrepõem, como em franquias clássicas como Pânico ou A Hora do Pesadelo. Há uma combinação valiosa na inocência da juventude com a perversão do sobrenatural.

O Mundo Sombrio de Sabrina/Netflix/Divulgação

O Mundo Sombrio de Sabrina é mais um exemplo dessa mistura de sucesso. A nova série da Netflix mergulha de cabeça no conturbado período da adolescência - com o diferencial de explorá-lo pela perspectiva de uma família de bruxas satanistas. Adaptação da HQ de mesmo nome, a trama acompanha Sabrina Spellman (Kiernan Shipka): uma garota que, aos 16 anos de idade, é confrontada com o dilema de preservar sua vida normal ou abraçar seu lado negro e consagrar-se uma bruxa, tal qual seu pai, primo e tias.

Em relação aos quadrinhos da Archie Comics, o programa dá uma boa aliviada no tom sombrio: a história original traça muitos paralelos com casos reais de bruxaria e as escritas de Anton LaVey, o fundador da Igreja de Satã. Por ser ambientada na década de 1960 - quando o movimento satanista teve seu início - há um teor mais clássico e pesado para as muitas desventuras de Sabrina. A série de TV, por sua vez, escolhe tornar o culto que a família da protagonista integra em algo mais caricato e teatral, o que funciona pela narrativa se focar mais nas complicações mundanas da garota do que nas particularidades dos adoradores do demônio.

Entre os Vivos

A Igreja da Noite, como é chamada, nada mais é do que uma caricatura da imagem popular que religiões de costumes mais conservadores têm: a devoção exigida pela instituição, combinada com dogmas antiquados, pode ter severas consequências na mente de um jovem que ainda desenvolve sua personalidade, visão de mundo e experiências. Tudo que Sabrina faz é elevar essa ideia ao exagero, mas sem perder sua mensagem.

Tanto o conflito próprio da protagonista quanto o dos demais adolescentes do programa - a colega menos "feminina" que é forçada a se adequar às expectativas dos outros, o garoto que não atende às demandas de um pai frio, etc - ressaltam a luta por manter a individualidade quando tudo parece estar te forçando a ser apenas mais um. Ainda que não revele seu segredo místico, Sabrina encontra refúgio e forças com um grupo de desajustados. É clichê, mas um que sempre terá relevância - ainda mais quando a série mostra que ainda pode existir preconceito e maus tratos mesmo entre aqueles que se assumem diferentes, como as bruxas que torturam feiticeiras aprendizes.

Enquanto Shipka segura muito bem a barra como protagonista, o que faz a história de rebeldia funcionar é o carisma do elenco secundário. Todos os atores mais velhos interpretam papéis caricatos, mas com profundidade o bastante para que criem empatia no espectador ao ponto de dar-lhe as mesmas dúvidas que a jovem: ainda que os meios sejam errados, a intenção dos adultos ao pregar e converter é, no fundo, boa. Isso fica fácil de observar em Zelda, a tia de Sabrina vivida por Miranda Otto. A atriz traz um ar excêntrico digno das obras de Tim Burton, mas com humanidade surpreendente na hora de abordar as preocupações e traumas de uma mulher que tem a fé como base da vida. Reunida com Hilda, tia vivida por Lucy Davis (Mulher-Maravilha) que serve tanto quanto alívio cômico quanto ponto de carinho e apoio para a protagonista, a dupla rouba a cena toda vez que aparece.

Outro destaque fica para Chance Perdomo como Ambrose Spellman. O primo da garota faz o meio termo entre a sensatez de Zelda com o tratamento atencioso e prestativo de Hilda. Além disso, seu deboche e ironia são muito bem vindos considerando que o gato Salem é mudo nessa nova versão - mudança em relação à HQ e série de TV dos anos 90 que faz bastante falta, ainda que o felino seja importante em diversas situações.

Quem fica um pouco deslocada é Michelle Gomez como a Sra. Wardwell. Demônia disfarçada de professora, ela começa intrigante ao facilmente manipular Sabrina rumo a seus interesses nefastos - porém seu arco caminha muito mais devagar que o resto do programa, tornando-a maquiavélica e exagerada até entre os demais satanistas. De certa forma, Wardwell parece uma versão "comportada" de Missy, que Gomez viveu durante duas temporadas de Doctor Who. O Padre Blackwood, interpretado por Richard Coyle, se sairia melhor como antagonista principal por sua presença de peso - se sua subtrama não fosse uma das mais confusas e mal aproveitadas do seriado. Assim, mesmo que ambos tenham suas funções para a narrativa, os problemas que a protagonista enfrenta ao tentar manter sua vida normal servem melhor como conflito do que qualquer um dos dois.

Paixão Sombria

Entre romances adolescentes e problemas de se enturmar, O Mundo Sombrio de Sabrina é, como o título sugere, uma série de terror. Mesmo que alguns dos episódios apenas usem a estética do gênero, o programa não perde tempo em colocar espíritos, demônios e assassinatos na tela.

Ainda que não crie tensão e nem busque os sustos, o tom da temporada oscila entre o descontraído e o macabro. Alguns capítulos vão mais a fundo em criar experiência horripilantes, como um inteiramente dedicado a um exorcismo - com vários jumpscares de uma aparição demoníaca - e outro ambientado em um pesadelo.

É nítido o carinho que a produção tem com o gênero, usando e desvirtuando clichês de forma consciente e divertida. Essa paixão também se manifesta na concepção dos personagens, fãs de clássicos do terror. Isso significa que a série constantemente está discutindo os zumbis de A Noite dos Mortos Vivos (1968) ou o significado da nojeira de A Mosca (1986). Quando opta por referências, passa a brincar com o visual dos monstros da Universal Pictures, com Drácula (1931) e A Noiva de Frankenstein (1935), ou então citar O Abominável Dr. Phibes (1971), de Vincent Price.

O que consagra essa carta de amor ao terror são as vezes que as referências influenciam a estética do seriado, aproveitando do estilo e planos icônicos de O Exorcista (1974), Suspiria (1977) e até mesmo A Bruxa (2015). Não que necessite dessa muleta, considerando que a fotografia do programa é ótima, mas isso cria um prato cheio para os fãs que querem acompanhar uma boa história que relembra o carinho pelo gênero.

O Mundo Sombrio de Sabrina é um bom exemplo do potencial do horror para explorar questões atemporais sobre identidade, individualidade e pressão social. Ainda que seja desnecessariamente explicativa com certa frequência, e que tenha uma conclusão um pouco apressada, a série cria um contraste único entre o profano e mundano para entregar uma história humana e fácil de empatizar.

Seu futuro, por outro lado, é um pouco mais obscuro considerando que poucos ganchos interessantes foram deixados para a segunda temporada, que já está em produção. Enquanto isso, Sabrina fica com uma boa pedida para o Dia das Bruxas: aterrorizante na medida certa, mas divertida acima de tudo.

Nota do Crítico
Ótimo