O Método Kominsky - 1ª temporada

Créditos da imagem: O Método Kominsky/Netflix/Divulgação

Séries e TV

Crítica

O Método Kominsky - 1ª temporada

Com trama sensível e divertida, seriado com Michael Douglas é a prova que certos atores só melhoram com o tempo - mesmo que isso signifique ficar refém de suas performances

Matheus Bianezzi
27.03.2019
17h45
Atualizada em
03.04.2019
15h16
Atualizada em 03.04.2019 às 15h16

No mundo dos sitcoms, Chuck Lorre é rei. Responsável por algumas das maiores séries de comédia lançadas, como The Big Bang Theory, Two and a Half Men e Mike & Molly, o produtor americano provou em seu mais recente projeto que também sabe trabalhar muito bem com apenas uma câmera. O Método Kominsky, lançado pela Netflix, uniu três mentes poderosas para criar uma série tocante e capaz de arrancar boas risadas - mesmo que as boas e velhas gargalhadas de fundo, típicas de sitcom, não existam. Aqui, felizmente, o tom é outro.

Sandy Kominsky (Michael Douglas) não é mais um rosto facilmente reconhecível nas ruas de Las Angeles. O ator, que flertou décadas atrás com o sucesso, agora dá aulas de teatro para jovens que querem tentar a sorte em Hollywood. A vida boêmia do professor cai por terra quando a mulher de seu melhor amigo e agente, Norman Newlander (Alan Arkin), morre, logo no primeiro episódio. Como último pedido antes de falecer, Eillen (Susan Sullivan) pede para que Sandy cuide de seu marido, independente do que isso signifique. É a partir dessa promessa que a dupla se junta e o espectador começa a acompanhar cada passo da vida dos idosos.

O que rege a história são suas próprias dicotomias. Durante todos os episódios, a linha cômica varia como uma montanha-russa. Isso poderia ser péssimo em outras produções, mas em O Método Kominsky é brilhante. A dor de um luto está sempre intercalada com as piadinhas mais bobas, assim como qualquer representação de sentimento mais emotivo é quebrada com alguma escatologia. De forma sempre iminente, o humor se faz presente até nas horas mais fúnebres, mas não entra atrapalhando de forma cartunesca. Essa balança existe também entre as personalidades dos próprios protagonistas. Enquanto Sandy é um bon vivant que coleciona relacionamentos mal sucedidos e garrafas de whisky, Norman tenta lidar com a dor de ter perdido sua esposa de longa data e o potencial sentido da própria vida. Por razões diferentes, o que os une além da amizade é a nem tão eterna briga com o mundo que os está deixando para trás.

Desde meados dos anos 60, tanto Michael Douglas quanto Alan Arkin vêm colecionando prêmios e títulos lançados. Apesar dos dois serem proeminentes atores que surgiram no mesmo período, eles nunca tinham contracenado juntos. Embora a criação de Lorre seja boa, são os dois experientes atores que fazem ela funcionar com encenações carregadas por uma química incrivelmente orgânica. Ainda que várias piadas sejam sobre problemas físicos inerentes à velhice do homem, a interpretação da dupla é tão fina que não restringe as gargalhadas apenas ao público masculino. Quem ganhou o Globo de Ouro pelo papel de Sandy Kominsky foi Michael Douglas, mas não seria nem um pouco absurdo caso Arkin tivesse levado a estatueta para casa.

Em uma série de oposições, nem todas elas têm um efeito positivo. Enquanto em um lado a participação do ator Denny DeVito é excelente, o mesmo não pode ser dito sobre o arco da atriz Lisa Edelstein. Vivendo o urologista de Sandy, o papel parece ter sido escrito para DeVito. Apesar de ser apenas uma ponta, as cenas protagonizadas pelo ator de origem italiana poderiam sustentar um derivado sozinhas. Já na trama de Edelstein a história é outra. Quem assistiu House sabe do potencial dramático da atriz e a culpa aqui não é dela. Vivendo a filha alcoólatra e disfuncional de Norman, Phoebe, seu aprofundamento é super raso. A função da personagem é basicamente existir para que os protagonistas façam uma road trip até um centro de reabilitação. Isso seria ok caso o tempo de tela da personagem fosse tão curto quanto o de DeVito e não durasse quatro episódios.

A temática abordada majoritariamente em O Método Kominsky não é uma novidade. Diversos outros títulos já representaram a vida idosa e seus dilemas, inclusive produções da própria Netflix, como o sem sal A Última Gargalhada. Independente de ser uma novidade ou não, é sempre refrescante assistir séries e filmes que colocam pessoas velhas de forma humanizada, sem cair num estereótipo do mestre sábio ou do ser moribundo e debilitado. Kominsky entrega isso de forma franca e cheia de compaixão.

Por outro lado, é inevitável não se incomodar com a incapacidade de Chuck Lorre de escrever personagens fora de sua própria experiência e vivência, como é o caso de Phoebe e quase todos os jovens alunos de Sandy que não são lá muito interessantes. Na segunda temporada, para chegar no patamar de qualidade que uma dupla como Arkin e Douglas impõe em qualquer produção, Lorre vai ter que acelerar para não ser deixado para trás.

Nota do Crítico
Bom