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Crítica

O Mecanismo | Crítica

Série inspirada na Lava Jato apresenta ficção cansativa, tramas paralelas desnecessárias, porém conta com atuações de destaque

Fábio de Souza Gomes
26.03.2018
18h12
Atualizada em
01.04.2018
06h04
Atualizada em 01.04.2018 às 06h04

O Mecanismo é uma série que precisa ser analisada com cuidado. Primeiro e, acima de tudo, é preciso pontuar que ela uma obra ficcional baseada em eventos reais. Ou seja, não assista à série pensando em ver detalhes reais da Operação Lava Jato. José Padilha e sua equipe misturam fatos de diferentes governos para efeitos dramáticos, mudam nomes de personagens e, de novo, se baseiam na realidade para criar uma ficção que conta com oito episódios e chegou recentemente à Netflix.

Porém, é clara a referência aos personagens envolvidos nos escândalos de corrupção. Padilha disse durante a coletiva para divulgação do seriado que, em sua visão, a discussão entre direita e esquerda é cega pois, independente de quem estiver no poder, o político vai fazer parte do mecanismo, pois o mesmo esta intrínseco na política brasileira (eventualmente, esse mesmo discurso aparece em um dos capítulos). Logo de início, quando o doleiro é preso, ele fala tranquilamente que vai ser solto pois quem lhe paga são os principais partidos do país e, apesar de os dois primeiros episódios parecerem apenas uma perseguição ao governo petista, ao longo do seriado ele tenta mostrar que todos estão envolvidos nesse grande esquema – os empresários, o vice-presidente, o senador candidato da direita disposto a parar a Lava Jato, chegando até um simples encanador. Contudo, a série toma algumas liberdades problemáticas para mostrar sua visão.

Em um momento onde o país está dividido politicamente, a série assume que um personagem claramente inspirado no ex-presidente da República Lula sabia de tudo e comandava o esquema, colocando, inclusive, a já discutida fala do senador Romero Jucá sobre “estancar as sangrias” em sua boca. Questionado, Padilha disse que essa é uma discussão “boboca” e, em outros países, provavelmente esse fato não será relevante. Porém, como nós brasileiros estamos diretamente ligados com a Lava Jato (uma investigação que acontece até os dias de hoje), colocar uma fala tão marcante quanto a de Jucá na boca de outra pessoa acaba como um desserviço ao espectador. 

Para contar essa história, o cineasta conta com dois protagonistas: Marco Ruffo (Selton Mello) e Verena (Caroline Abras). Apesar de no início parecer um pouco forçado, Mello melhora muito ao longo do seriado e consegue conduzir bem a história pelas sombras enquanto Abras cria uma detetive complexa e forte que busca encontrar a corrupção por trás do país. A única ressalva fica por conta de sua relação amorosa com Claudio Amadeu (Lee Taylor), uma trama paralela que seria uma tentativa de mostrar como a personagem separa sua vida pessoal da profissional, mas fica apenas forçada e desnecessária em sua grande parte.

Ela divide com Mello a função de narrar a história – algo que o diretor já havia feito nos dois Tropas e em Narcos. Nos dois primeiros episódios dirigidos por ele essa narração em alguns momentos fica extremamente repetitiva, com os personagens explicando o que já estamos vendo em cena. A partir do terceiro episódio ela começa a ficar cada vez mais sútil e aparece em apenas alguns momentos específicos, mas, ao mesmo tempo que a experiência melhora, ela vira uma espécie de muleta para explicar buracos do roteiro, que tenta a cada episódio criar momentos “icônicos”.

Um dos grandes pecados da série é tentar criar frases de efeito. Em cada capítulo, há pelo menos uma tentativa de criar alguma fala icônica, mas elas muitas vezes aparecem em momentos onde não são necessárias, acabam ficando vazias e não têm o impacto sonhado pela produção da obra.

Entre os mocinhos está a figura do juiz Paulo Rigo (Otto Jr.), cuja comparação com o juiz Sérgio Moro é inevitável. O programa coloca esse juiz como o único capaz de auxiliar Verena, mas que no fundo quer chamar atenção para si e vê na Lava-Jato uma oportunidade de sair de Curitiba – como sua esposa tanto quer. Mais uma vez, a visão dos envolvidos acaba entrando em jogo, colocando o juiz como um herói egocêntrico, uma espécie de justiceiro que é o único capaz de parar o Mecanismo.

A série conta no todo com boas atuações, mas é impossível não destacar o doleiro interpretado por Enrique Díaz. Ele vive Roberto Ibrahim como um homem com total controle sob o que está fazendo, uma pessoa extremamente carismática e age de uma maneira tão natural que ofusca qualquer outro que apareça ao seu lado. Ibrahim é corrupto, sabemos que ele está prejudicando o país, mas o ator deu tantas camadas ao personagem que suas motivações e suas ações ficam muito claras em cena.

Cada diretor tentou dar seu próprio estilo seguindo a linha pensada por Padilha nos dois primeiros episódios. A fotografia sempre busca o efeito de documentário característico do cineasta, funcionando melhor nos capítulos dirigidos por ele e nos capítulos finais. Os dois últimos, dirigidos por Daniel Rezende, são inclusive os que passam melhor a mensagem de que todos estão envolvidos no Mecanismo, mostrando detalhes das empreiteiras, dos políticos e com Ruffo literalmente explicando que não existe direita e esquerda. O episódio abusa de zooms dramáticos, que eventualmente ficam cansativos, mas é um dos poucos que envolve todas as áreas da corrupção. 

No fim, O Mecanismo poderia ter sido muito melhor do que realmente foi. Ideias políticas à parte – isso fica a critério de cada espectador julgar se apoia ou não o que foi apresentado –, a série conta com uma narrativa cansativa e com tramas paralelas, em sua maioria, desnecessárias apesar de ter boas atuações.

Nota do Crítico
Regular