O Mar da Tranquilidade traz mistério eficiente e drama com toque de lirismo

Créditos da imagem: Gong Yoo e Bae Doona em cena de O Mar da Tranquilidade (Reprodução)

Séries e TV

Crítica

O Mar da Tranquilidade traz mistério eficiente e drama com toque de lirismo

Bae Doona e Gong Yoo ancoram ficção científica coreana ambiciosa da Netflix

Caio Coletti
27.12.2021
15h32

O Mar da Tranquilidade nunca é menos do que fascinante como história de mistério. Após um episódio introdutório talvez exageradamente longo, a série engata, nos ágeis sete capítulos seguintes, uma sequência impecável de obscurecimentos e revelações, permitindo que o espectador enxergue aos poucos a criação labiríntica da roteirista Park Eun-kyo (autora do filme Mother, de Bong Joon-ho). Com a ajuda de uma montagem que sabe como nos deixar na ponta da cadeira, a série mostra que não subestima a inteligência do espectador, confiando que somos capazes de manter as linhas narrativas de cada personagem em mente enquanto pulamos de uma para outra em momentos estratégicos, pensados para magnificar o suspense.

Isso porque os nossos “heróis” passam boa parte da história separados em grupos distintos, espalhados pela base lunar de Balhae, para onde são enviados a fim de recuperar uma amostra misteriosa do experimento científico que estava sendo conduzido por lá antes de um acidente de circunstâncias obscuras. Conforme a tripulação encontra adversidades e descobre detalhes sobre os tais experimentos e o tal acidente, destrinchamos também os seus passados, especialmente o do capitão Han (Gong Yoo, de Round 6) e o da Dra. Song (Bae Doona, de Sense8), e descobrimos que eles têm motivos diferentes para estar ali.

Além do mistério, há algo de horror corporal na forma como O Mar da Tranquilidade articula a ameaça que os tripulantes encontram na base lunar. Usando a conexão humana profunda com a água, um elemento essencial para a vida, mas também - na quantidade e contexto certos - antitético a ela, o diretor estreante Choi Hang-yong conjura imagens poderosas, incômodas, do corpo humano se voltando contra si mesmo. 

Se, nesse campo de gênero, O Mar da Tranquilidade se mostra segura desde o princípio, como drama de personagens ela demora um pouco mais para “pegar no tranco”. No texto de Park, a história originalmente produzida como um curta-metragem (em 2014, pelo mesmo diretor da série) luta para encontrar uma veia temática potente o bastante para sustentar oito episódios de TV. É só lá pelo sexto ou sétimo capítulo que a série se mostra como verdadeiramente é, e o subtexto que ela encontra surpreende: O Mar da Tranquilidade é uma exploração da mística da infância.

De fato, a série se transforma quando crianças entram em cena. O diretor Choi filma-as com uma mistura óbvia de admiração e assombro, destacando a improbabilidade da sua juventude, da sua inocência, no mundo distópico que a série cria. Como em muitas ficções científicas antes, as crianças em O Mar da Tranquilidade são símbolos de esperança, apontando para uma continuidade que parece improvável diante da paisagem pós-apocalíptica construída por essas narrativas - e, por isso mesmo, fontes de ansiedade para os adultos, que não sabem se podem honrar e preservar a promessa contida nelas.

Aqui, no entanto, as crianças surgem também como estrelas-guias. Seja por se lembrarem de suas próprias infâncias ou se confrontarem com elas diante dos filhos (biológicos ou postiços), O Mar da Tranquilidade está cheia de adultos que se orientam a partir de sonhos e possibilidades infantis, e posiciona, inclusive, que aqueles desconectados de suas infâncias são incapazes de tomar decisões humanas, solidárias e dignas. Perdidos em seu exaspero existencial, em seu niilismo rígido, eles perturbam o silêncio do espaço com suas preocupações mundanas inescapáveis.

Com um elenco sólido, do qual se destaca uma Bae Doona caracteristicamente à flor da pele (fãs de Sense8 e A Viagem sabem que a atriz é incapaz de entregar uma performance que não seja brilhantemente transparente em suas emoções), a nova série coreana da Netflix pode ser lenta em construir o seu drama, mas culmina em uma exploração lírica e imagética de tirar o fôlego desse confronto elemental entre quietude e caos que existe no ser humano. Uma recompensa farta para quem ficar com ela até o final.

O Mar da Tranquilidade
Em andamento (2021- )
O Mar da Tranquilidade
Em andamento (2021- )

Criado por: Park Eun-kyo

Duração: 1 temporada

Nota do Crítico
Ótimo

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