Foto de O Escolhido

Créditos da imagem: O Escolhido/Netflix/Divulgação

Séries e TV

Crítica

O Escolhido - 1ª temporada

Nova série brasileira da Netflix tem problemas de desenvolvimento e termina como uma grande promessa

Camila Sousa
02.07.2019
15h36
Atualizada em
02.07.2019
16h52
Atualizada em 02.07.2019 às 16h52

É uma matemática complicada fazer produções de suspense. Por um lado, é importante manter o mistério para criar expectativa nos fãs, mas por outro é necessário entregar algumas respostas pelo caminho para ajudar na compreensão geral do que está acontecendo e “recompensar” o espectador que passou um longo período tentando descobrir tudo. É exatamente neste aspecto que O Escolhido, nova série nacional da Netflix, peca. O conjunto de seis episódios termina deixando mais perguntas do que respostas e não de uma forma positiva.

A produção é focada na história de três médicos enviados para uma região remota do Brasil com o objetivo de vacinar a população local contra o vírus Zika. Mas chegando ao local eles descobrem que as pessoas de lá não acreditam em medicina e sim no caminho da cura d’O Escolhido. Ao apresentar essa premissa, a série toca em vários assuntos delicados, incluindo o embate entre fé e ciência. O passado dos personagens, especialmente da protagonista Lúcia (Paloma Bernardi) ajuda nessa construção, mas a impressão que fica é que o debate jamais se aprofunda. Frases de efeito interessantes são ditas, mas os diálogos jamais incluem um desenvolvimento profundo sobre o tema.

Aliás, essa é uma sensação comum durante todos os episódios. Vários temas são trazidos à tona com frases fortes, mas nenhum personagem parece interessado o suficiente para se prolongar em algum deles. Durante sua divulgação, muitas vezes O Escolhido foi nomeada como uma série de “terror” da Netflix, mas a verdade é que ela pende muito mais para o suspense. Há uma ou outra cena que podem causar certo medo, mas novamente parece que a equipe não teve interesse em se aprofundar nisso.

Protagonismo feminino

Um dos grandes problemas que atrapalham o bom desenvolvimento de O Escolhido é a protagonista Lúcia. Chefe do trio de médicos que se aventura em Águazul, a personagem é apresentada como alguém forte, certa de suas convicções médicas e capaz de liderar um grupo formado por homens sem pensar duas vezes. Só que Lúcia não é constante em suas ações. Em alguns momentos ela fica curiosa para saber como aquele lugar funciona, em outros fica com medo e em outros, ainda, parece totalmente tranquila no local. A série peca em não dar mais cenas focadas na protagonista para ajudar o público a entender suas constantes mudanças. Com isso, Lúcia muda de ideia do dia para a noite, sem justificativa alguma.

Ao invés de mergulhar mais em tais conflitos, O Escolhido usa seu tempo de tela para desenvolver a trama da fé pelo personagem-título e como as pessoas da cidade confiam suas vidas a ele sem nenhum receio. Esse poderia ser um ponto positivo, se o seriado caminhasse entregando pequenas respostas ao público, mas há uma frustração ao chegar no último episódio e perceber que praticamente nada é revelado sobre a história d'O Escolhido e como ele chegou onde está. Há alguns flashbacks, mas, novamente, eles criam mais perguntas do que respostas. 

Com tudo isso, O Escolhido termina sua primeira temporada com ares de uma grande preparação. Há um gancho claro para o ainda não confirmado segundo ano, indicando que a história pode ficar mais interessante. No entanto, o que a série entregou até agora foi uma promessa não concretizada. Se a segunda temporada for oficializada, a produção precisa perder o medo de ir fundo em suas discussões e dosar melhor as revelações de seus mistérios.

Nota do Crítico
Regular