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Créditos da imagem: Nós Somos a Onda/Netflix

Séries e TV

Crítica

Nós Somos a Onda - 1ª temporada

Superficial, série perpetua o fetiche da dramaturgia contemporânea pela "vingança do oprimido"

Henrique Haddefinir
13.11.2019
10h43

A ação de Nós Somos a Onda, série da Netflix, pode chocar os desavisados que esperam uma comparação direta com a obra que a inspirou. A produção recente é mais do que uma adaptação livre, ela é praticamente uma reinvenção. No livro de Rhue, após a descrença de uma turma do Ensino Médio de que um regime totalitário ainda poderia se formar nas terras alemãs, um professor decide promover a criação de um grupo unificador de ideias fascistas, com título, uniforme, símbolo e até saudação; e divulgá-lo para ver se atrairia adeptos. Em pouco tempo, A Onda já tinha membros suficientes para arriscar a ideia de uma revolução reacionária.

Por essência, os jovens buscam desesperadamente pela sensação de ajuste que alivie suas pressões. Exigindo reconhecimento da própria ousadia, o adolescente se agrupa e se torna uma cópia de determinado grupo social. Em pouco tempo, ele é tão padronizado quanto o padrão que diz combater, adotando a mesma aparência de uma centena de jovens que estão no mesmo lugar. Nerds, metaleiros, alternativos, a lista é extensa. É por isso que essa é a idade em que eles se encontram suscetíveis a absorverem todo tipo de porcaria radicalista. O ponto de vista do livro é esse. O da série... bem, o da série não é exatamente assim.

Também responsáveis pela adaptação cinematográfica de 2008, o diretor Dennis Gansel e o roteirista Peter Thorwarth dão a volta nessa ideia original, tirando a autoridade intelectual da receita (o professor) e privando os personagens de uma análise crítica do que está prestes a acontecer. Na série, todos estão sendo guiados por outro ‘estudante’, supostamente mais sábio e mais forte, que dirá a eles o que devem fazer e a quem devem atacar, porque sim, um grupo como esse precisa de inimigos. Quem ocupa essa função é Tristan (Ludwig Simon), um jovem com um passado trágico que em apenas um dia afeta a vida de outros adolescentes infelizes, que passam a ver nele a representação da luta por um ideal: vingar-se do sistema opressor que os fez miseráveis. Daí, então, nasce o movimento A Onda.

Não deu Onda

O atual sucesso do Coringa, com Joaquin Phoenix, reacendeu a discussão acerca dos “incels”, uma comunidade que nasceu como uma corrente de celibatários involuntários, que culpava as mulheres pela própria solidão. Aos poucos, o discurso de ódio da comunidade evoluiu para outros tipos de opressão social e a inabilidade interpessoal dos membros passou a ser um exemplo para todo tipo de “grito de liberdade”. Os incels passaram a ser citados como ponte para o alcance da violência e atos extremos foram atribuídos ao grupo. O Coringa foi citado como novo símbolo dessa comunidade e por isso gerou tanta controvérsia. Basicamente, a opressão sofrida pelo personagem, vilipendiado por colegas de trabalho e estranhos, gera um sentimento indiscriminado de vingança. A cara do personagem já pode ser vista em manifestações ao redor do mundo.

A ideia de Nós Somos a Onda é reproduzir mais uma vez essa ideia, tendo Tristan e Lea (Luise Befort) como líderes de um movimento que começa discreto e vai tomando conta da cidade. A reprodução da ideia incel é exposta quase completamente, com o desajuste dos adolescentes (com uma aparência nada adolescente) sendo reforçado quadro a quadro, para que torçamos cada vez mais pela vingança. É aí que a série encontra seu primeiro problema: disfarçada de arauto de uma revolução popular justa, a história mostra cada um dos “revolucionários” agindo segundo os próprios interesses, entregando a premissa a uma hipocrisia involuntária. Mas, o roteiro não quer que vejamos isso, ele mesmo não percebe a cilada em que se meteu.

Apesar de bem dirigida e com uma ótima trilha sonora, Nós Somos a Onda é morosa e se arrasta por apenas seis episódios em uma sequência de previsibilidades que chega a ser chocante. Sem carisma, os personagens se comprometem rápido e como com todo grupo extremista, passam a ser desagradáveis e erráticos. Há uma discussão interessante escondida na relva, sobretudo quando a coisa começa a sair de controle e sangue começa a aparecer. É notório que a partir do momento em que tudo se torna uma questão de vingança a série perde foco, mas o que poderia ser um belo embate entre orgulho e política, fica pelo caminho. O roteiro prefere o impacto de certas decisões, para que o produto seja explosivo o suficiente para ser vendável.

Há, porém, um acerto que impede o final de ser um completo desastre. A série, enfim, não se seduz pela ideia de reforçar o perigo dos envolvidos a um lugar sem limites. Na hora certa, ela dá um passo para trás e enfeita o fim com uma pequena dose de otimismo. Mas, ainda assim, Nós Somos a Onda não se sustenta nem enquanto peça de entretenimento. É uma série previsível, desinteressante e superficial.

Nota do Crítico
Regular