Narcos: Mexico - 1ª temporada

Créditos da imagem: Narcos: Mexico/Netflix/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Narcos: Mexico - 1ª temporada

Derivado conta com grandes atuações, mas sofre com falta de originalidade

Matheus Bianezzi
05.12.2018
14h08
Atualizada em
13.12.2018
00h23
Atualizada em 13.12.2018 às 00h23

Narcos: México quer te fazer acreditar que é uma série nova. O elenco inteiro foi mudado; a locação é diferente; e ela é até listada separada no catálogo da Netflix. Embora o recheio seja outro, a estrutura é bastante parecida com as outras temporadas. Assim como a guerra às drogas é cíclica e repetitiva, os novos episódios de Narcos patinam ao tentar encontrar um novo viés, ficando reféns de uma fórmula batida e das atuações de seu ótimo elenco.

A saga de Pablo Escobar teve seu fim e agora embarcamos para um novo país - mas com os mesmo problemas. Em um México tão ou mais corrupto quanto a Colômbia, um ex-policial de uma cidadezinha no interior decide organizar a produção de maconha nacional. Com uma visão diferenciada para negócios, Miguel Ángel Félix Gallardo (Diego Luna) interrompe as incessantes guerras locais por território e cria o primeiro cartel mexicano.

Embora o sonho de ambos seja o mesmo, o traficante lembra pouco o personagem vivido por Wagner Moura. A violência crua ainda existe, mas Gallardo é em sua essência um calculista empresário das drogas, que comanda tudo à sua volta no melhor estilo Rei do Crime. Sua autoridade é conquistada por meio de subornos milionários, acordos políticos e, quando a violência é necessária, geralmente vem de maneira velada - não derrubando aviões cheio de inocentes como Escobar. Apesar do personagem passar mais tempo em sua poltrona fumando do que efetivamente em ação, Diego Luna torna até esses momentos interessantes de se assistir. Com trejeitos próprios e uma atuação cheia de nuances, o ator supera as enormes expectativas depositadas nele e entrega um personagem refinado, sendo convincente desde os momentos de ira até os momentos de serenidade.

O roteiro não é tão favorável ao talento do outro protagonista. Michael Peña, que vive o policial responsável por capturar Gallardo, faz o que o enredo cobra de maneira bem feita, mas nunca conseguindo o mesmo destaque que Luna. Para quem não conhece o ator, pode ficar com a sensação que ele é consideravelmente mais limitado que o seu conterrâneo mexicano, mas não tão é simples assim. O arco do personagem Kiki Camarena, o agente interpretado por Peña, é de fato menos interessante que os outros da série e nunca passa a mesma tensão dramática que o eixo dos traficantes. Dessa forma, cada episódio funciona numa espécie de gangorra, mudando seu ritmo e qualidade conforme os núcleos se alternam. Tal discrepância deixa ainda mais evidente como a série perdeu com a saída de Pedro Pascal. Frequentemente, ficamos com saudades do agente carismático que fortalecia e levava o lado dos "mocinhos" nas costas. Mesmo sabendo as consequências geradas pelas ações de Gallardo e seu cartel, é difícil acabar não torcendo por eles. Embora Luna seja a chave principal, não é só ele que traz esse efeito.

No melhor estereótipo do latino sangue quente, Tenoch Huerta dá vida ao traficante Rafael Caro Quintero, criador de uma nova espécie de maconha e sócio de Félix Gallardo. Junto de Don Neto (Joaquín Cosio), são os responsáveis por algumas das melhores sequências da série. Os dois são viciados em cocaína e, mostrando toda a dualidade que uma droga como essa pode causar, protagonizam cenas que são ao mesmo tempo muito engraçadas e trágicas. Tudo parece que pode dar errado a qualquer momento. É uma pena que os bons coadjuvantes não vão muito além desses dois citados, principalmente em relação às personagens femininas. Elas praticamente não existem. As poucas que têm uma função minimamente relevante, ou são estereótipos da latina sexy, ou esposas estritamente tolerantes com as ambições de seus maridos. Se o que você busca em uma série são mulheres tridimensionais, Narcos: México te decepcionará.

O que não decepciona em nada é a produção. As paisagens naturais dão um tom diferenciado e contrastam bastante com a violência que a trama propõe. Além de ter uma função essencial, a trilha sonora também é impecável. Ao som de bandas clássicas como Toto e Culture Club, ela localiza o espectador nos anos 80 e mostra como a influência estadunidense estava conquistando cada vez mais espaço. Apesar da própria narrativa deixar claro como os norte americanos tinham poder político sobre o México, a trilha sonora reafirma isso de forma sutil em um âmbito cultural.

É nítido que a série tenta se reinventar, mas, de maneira geral, caí em uma estrutura de gato e rato muito semelhante ao que já foi mostrado anteriormente. O grande mérito está nas contratações para o novo ano. O problema é que tais atuações se tornaram o principal e quase único pilar que sustenta dez episódios, e não mais uma das qualidades que tornaram Narcos o que é hoje.

Toda história que envolve narcotraficantes e tem como temática a guerra às drogas tende a ser muito parecida. Com a originalidade ficando fatalmente pelo caminho à cada temporada, os criadores terão uma difícil missão pela frente, ou a relevância da série se tornará cada vez menor.

Nota do Crítico
Bom