Imagem de Mrs. Fletcher

Créditos da imagem: Mrs. Fletcher/HBO/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Mrs. Fletcher - 1ª temporada

Série da HBO se diz limitada, mas essa história sobre pornografia, solidão e consentimento merecia uma nova temporada

Henrique Haddefinir
19.01.2020
11h22

A vida de Eve Fletcher, a Mrs. Fletcher, era como a de qualquer mulher divorciada da classe média americana. Ela se dedicou a criar o filho e, quando o rapaz consegue entrar na faculdade, Eve precisa ocupar seu tempo livre com outra coisa. Sempre que isso acontece nos filmes e séries, a "mãe-de-família" em questão aparece indo fazer um curso ou se envolvendo com outra pessoa. Eve Fletcher faz tudo isso, mas decide, também, fazer algo novo. Algo que pode passar pela cabeça de todos que vivem o mesmo dilema, embora ninguém fale a respeito: Eve resolve desbravar o mundo da pornografia.

Tom Perrotta é um autor que gosta de dar a seus personagens uma perspectiva peculiar do mundo. Anos atrás ele escreveu uma obra chamada The Leftovers, sobre 2% da população mundial desaparecendo e deixando a sociedade como conhecemos no caos. O livro acabou se tornando uma série da HBO, com o mesmo nome, que, embora não tenha conseguido uma popularidade grande, é reconhecida como uma das produções mais brilhantes da rede. Dessa vez, Perrotta ainda está falando sobre solidão e uma família se dividindo, mas dando a sua história uma roupagem extremamente contemporânea.

The Leftovers foi escrita numa parceria entre o escritor e o roteirista Damon Lindelof. Mas, com fim da produção, Lindelof foi cuidar da adaptação de Watchmen e Perrotta ficou com a responsabilidade de adaptar a própria obra sozinho. Mrs. Fletcher, a série, nasceu como uma produção de 7 episódios, que precisavam condensar as páginas do livro de uma maneira concisa, mas sem perder a discussão a respeito dos temas. Embora não tenha sido divulgada amplamente como uma série limitada, Mrs. Fletcher foi calculada para ser tudo que pudesse em seu único ano, levando a pergunta derradeira: ela foi tudo o que poderia?

MILF

Kathryn Hahn ficou com a tarefa de viver Eve Fletcher, uma mulher de meia idade que trabalha num centro de idosos e que, para continuar estudando e evoluindo como pessoa, entra numa aula de gênero, ministrada por uma professora trans (vivida pela adorável Jen Richards). A ida do filho Brendan (Jackson White) para a faculdade coloca Eve numa outra realidade. De forma muito esperta, Perrotta unifica esse novo momento da personagem às muitas discussões sobre gênero e sexualidade, com o novo mundo pornográfico que ela desbrava todos os dias. Eve se torna uma máquina de fetiches e fantasias.

7 episódios, com 30 minutos cada um é um tempo relativamente curto para uma adaptação, ainda que o livro seja pequeno. Na obra original há um grande investimento de tempo em mostrar como Eve se deixa seduzir pela ideia de ser uma MILF (sigla que representa mulheres de meia idade muito atraentes) e em como ela investe nessa sensação, cometendo alguns graves erros de julgamento no processo. A série, contudo, perde um pouco do impacto da evolução de impulsividade da personagem ao abrir mão de revelar a ligação que Julian (Owen Teague) já tinha com ela, sem que ela nem mesmo soubesse.

O pouco tempo também atinge a narrativa de Brendan, que chega na faculdade achando que seu reinado de "alfa do ensino médio" vai perdurar para sempre. Branco, bonito, musculoso, jogador do time da escola, alienado de qualquer parte do mundo que não seja aquela que lhe diz respeito, Brendan também é bastante autocentrado, o que inclui nenhuma atenção aos desejos e prazeres das mulheres que encontra. Tanto no livro quanto na série, ele também confunde o mundo real com o mundo da pornografia ao achar que todas as mulheres querem ser tratadas como aquelas dos filmes.

Com esse tempo curto nas mãos, a adaptação toma decisões difíceis, que fazem sentido no plano geral, mas que afetam a experiência de quem já leu os livros. Perrotta é menos severo com Brendan do que é no original. O jovem é mais cretino nas páginas do livro e uma boa discussão sobre gordofobia se perde quando o autor troca o romance do colega de quarto de Brendan com uma jovem gorda por um romance homossexual. A mudança, que também poderia enriquecer a história, acaba não sendo devidamente explorada.

Ao contrário do que geralmente acontece quando adaptações são muito drásticas, o trabalho de Hahn, a direção discreta e o texto sagaz de Perrotta ainda fazem de Mrs. Fletcher uma série delicada e interessante, que demonstra um imenso potencial para ter muito mais que apenas sete episódios. Algumas tensões ficam pelo caminho, alguns desdobramentos empolgantes não acontecem e a ideia de que algumas horas a mais seriam cruciais perseguem o espectador conforme os créditos do final rolam na tela. Séries limitadas – hoje tão baseadas em crimes – se resolvem completamente, sem deixar rastros. Mrs. Fletcher implora por mais tempo.

Nota do Crítico
Bom