Christian Slater e Rami Malek em Mr. Robot

Créditos da imagem: Mr. Robot/USA Network/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Mr. Robot - 4ª Temporada

Série entrega excelente ano final cheio de surrealismo e experimentação, e se firma como a última grande produção da década

Arthur Eloi
24.12.2019
19h19

As vantagens da televisão são uma via de mão-dupla, facilmente aproveitadas para ir na contramão: o mesmo formato que permite aprofundar personagens e tramas ao longo de vários capítulos e temporadas dá espaço para programas ficarem em estado de coma, meramente respirando por aparelhos durante anos e anos. É por isso que ver uma série planejada desde o início, com direcionamento visivelmente mapeado, é tão satisfatório. Os últimos anos foram marcados por várias produções do tipo, e agora Mr. Robot fecha a lista de grandes seriados da década com uma quarta temporada que amarra muito bem toda a jornada até aqui.

O seriado cresceu muito desde o primeiro momento que apresentou Elliot Alderson (Rami Malek), hacker ambicioso, com o sonho de acabar com a terrível E Corp e melhorar o mundo. De lá para cá não só ele conseguiu, como também colheu os frutos de seus feitos ao ser preso, jogar os Estados Unidos em uma crise ainda mais profunda e comprar briga com o Dark Army, comandando pela enigmática Whiterose (BD Wong). Agora tudo precisa chegar ao fim, e o programa demonstra a importância de cada fase na construção de seu elenco. São episódios bastante reveladores, que discutem tanto a origem e financiamento do exército hacker chinês, como também os vários traumas do protagonista e, sim, o triste motivo da criação de seu “amigo imaginário” Mr. Robot (Christian Slater). Cada capítulo parece colocar o dedo mais a fundo na ferida. Isso, narrativamente, é excelente.

A quarta temporada é impiedosa, não dá um segundo de respiro ao público e nem ao protagonista. Um capítulo foca em respostas, outro em um passo importante para o conflito, já outro resgata algum elemento do ano dois. É um ritmo frenético, que funciona bem quando o tema discutido é urgência, a iminência do fim e também a impulsividade de Elliot, abordada desde o começo da série. Os poucos momentos que o ritmo desacelera são usados para elevar o impacto de decisões questionáveis, ou então destrinchar o emocional dos personagens. Por exemplo, uma subtrama em que o protagonista se envolve com um de seus “alvos” para manipulá-la acaba com ele forçando-a cooperar de forma brutal, destruindo sua vida no processo, o que quase a leva ao ponto de suicídio. Mais do que nunca, Mr. Robot sabe quando ser fria e chocante.

Praticamente todo episódio traz a equipe de produção no ápice de suas habilidades. O criador Sam Esmail e seus roteiristas criam cenários inéditos para carregar a tensão, mas sempre trabalhando em função de amarrar as pontas soltas e esclarecer o que ficou em aberto. Os diálogos aqui são alguns dos melhores de toda a série, e ressoam ainda mais graças à poderosas atuações: as cenas em que Christian Slater assume a narração, a excelente caracterização do traficante Fernando Vera (Elliot Villar), que rouba o foco sempre que dá as caras, ou então BD Wong dando dramaticidade à Whiterose e ao ministro chinês Zhang. O subarco de Darlene (Carly Chaikin) e da agente Dominique DiPierro (Grace Gummer) também impressiona ao combinar drama, violência e bastante ação. A trilha sonora de Mac Quayle complementa o suspense com sintetizadores pulsantes. É um daqueles raros casos em que tudo parece se alinhar e ser executado a perfeição - e nada deixa isso mais visível do que a fotografia.

A estética visual é componente central do programa desde o piloto, e foi apenas evoluindo com o passar dos anos. A partir da terceira temporada, ganhou um toque mais experimental, o que funcionou maravilhosamente bem como no episódio inteiramente realizado em plano-sequência. Aqui isso é elevado, e o diretor de fotografia Tod Campbell domina o espectador com planos fluidos e movimentos inusitados. A inventividade rouba os holofotes: um capítulo pode ser inteiramente conduzido sem diálogos, só através da comunicação não-verbal, enquanto o outro é gravado como uma peça de teatro. Cada episódio tem algo de especial, e a estética se torna uma obra por si só.

Mr. Robot não entrega apenas um prato cheio aos fãs, mas serve um verdadeiro banquete de despedida. O plano de Esmail de concluir tudo em “quatro ou cinco temporadas” é executado com o mais alto nível de qualidade, graças à uma equipe unida que passou muitos anos afinando suas habilidades. Mais surpreendente é como a série consegue seguir com narrativas bizarras, as vezes que desafiam a própria lógica, mas ainda fechar tudo de forma coesa, justificada e bastante satisfatória. É essa combinação de surrealismo e realismo sombrio que lhe dá personalidade única. O programa poderia ser só mais um caso de sorte de iniciante, daqueles que começam bem e vão se desgastando, cegos pelo próprio sucesso. Mas o controle que o criador exerceu ao longo dos anos nunca deixou a produção descarrilar - na verdade, o seriado chegou ao fim dos trilhos sem sequer balançar muito. Com o iminente fim da década, as listas de retrospectivas terão um problema espacial para acomodar tantos clássicos dos últimos dez anos, como The Americans, Atlanta, The Leftovers, Fargo e incontáveis outros. Mesmo com toda a dor de cabeça, o hacker vigilante, seu alter-ego imaginário e a série que combinou cultura tecnológica, ativismo, saúde mental e técnica cinematográfica artística, merecem seu lugar no pódio.

Nota do Crítico
Excelente!