My Brilliant Friend - 1ª Temporada

Créditos da imagem: My Brilliant Friend/HBO/Divulgação

Séries e TV

Crítica

My Brilliant Friend - 1ª Temporada

Série de TV adapta livro da italiana Elena Ferrante, que toca profundamente mulheres

Marcelo Forlani
07.01.2019
22h06
Atualizada em
09.01.2019
12h59
Atualizada em 09.01.2019 às 12h59

Não sei como foi na sua casa mas aqui, nestes últimos anos, houve um culto à escritora italiana Elena Ferrante: vi minha mulher distribuindo os livros como presente de natal, aniversário ou simplesmente "mimo carinhoso" para as amigas próximas; rolaram clubes de leitura e mil trocas de mensagens nos celulares, além de ser assunto constante em qualquer mesa de bar ou restaurante quando mais de uma mulher estava presente.

Antes da estreia da série de TV de My Brilliant Friend no Brasil, uma co-produção da RAI com a HBO, comecei a ler "A Amiga Genial", o primeiro livro, e realmente é prazeroso e envolvente, mas tem muito mais do que apenas uma boa literatura ali. Mesmo sem ter tempo de avançar na leitura, consegui entender um pouco de onde vem o fascínio pela tetralogia napolitana, como é chamada a quadra de livros.

Logo no começo da história somos apresentados às duas protagonistas, Lila e Lenu. Quem conta a história é a última, depois que sua amiga de infância literalmente some da Terra sem deixar nenhuma dica de seu paradeiro, apagando qualquer pista de sua existência no passado. É por isso que Lenu volta no tempo e começa a contar a história das duas e do bairro no subúrbio de Nápoles onde nasceram e cresceram.

O primeiro capítulo já mostra três cenas que contam muito da relação das duas. Em um de seus primeiros encontros, na saída da aula, começa uma guerra de pedras. De um lado da rua, os meninos, sentindo-se inferiorizados após Lila mostrar-se muito mais inteligente que eles. Do outro lado, sozinha, Lila devolve as pedras com violência e precisão. Vendo a cena, Lenu percebe que estar perto daquela menina que nada teme pode ser a porta de saída da sombra da mãe, uma dona de casa amargurada. Com a ligação entre as duas criada, elas se encontram depois, cada uma com uma boneca à mão.

Assim como as meninas, a boneca de Lenu é mais branquinha, arrumada e nova; a de Lila é mais velha, surrada e despenteada. Em um momento de traição, Lila pega a boneca da amiga e joga em um porão sujo e assustador. Sem ficar para trás, Lenu faz o mesmo. Fica ali a prova de que uma nunca deixará a outra "ganhar". Sem conseguir achar o brinquedo, as duas vão à casa do principal Don do bairro e o confrontam. Nesta terceira cena, suas mãos grudadas mostram uma ligação forte, que não vai se quebrar.

Não cabe a mim, homem, descrever sobre as dificuldades de ser mulher, principalmente naquela Itália do pós-guerra, mas é claro o sofrimento das mulheres na série, rebaixadas ao segundo - e até terceiro - plano nas tomadas de decisão das casas. Por isso, a relação entre Lenu e Lila é diferente: elas competem entre si, uma puxando a outra - ora para cima, ora para baixo - sem jamais perder a amiga de vista. Após a infância em que estudaram juntas e disputavam as melhores notas, as meninas tomam caminhos distintos.

Enquanto Lenu é encorajada por seu pai a seguir estudando após terminar o ensino básico, Lila tem que trabalhar com seu irmão e o pai na sapataria. Nas horas vagas, porém, ela lê tudo o que acha na biblioteca e se mantém na cola de Lenu, estudando sozinha latim e grego e escrevendo melhor do que todo mundo.

Ao contrário da maioria das obras de ficção, My Brilliant Friend não tenta vilanizar um lado e santificar o outro. No lugar dos maniqueísmos vemos um mundo dolorosamente real, que poderia ser a minha vida ou a sua, com pessoas condenadas a viver ali naquele bairro acinzentado no centro da região costeira da Itália sem jamais ter visto o mar. A relação de amizade entre as duas vai se desenvolvendo com amor, ciúmes, cumplicidade e competição. É doloroso ver e, principalmente, entender cada uma das decisões tomadas por elas e suas consequências.

É duro assistir aos acontecimentos em que elas não têm poder de decisão, mesmo tendo protagonismo. mas assim como um bom livro, rever (ou reler) traz mais camadas, novos entendimentos. E é o que nos resta até que chegue a próxima temporada (além de correr atrás dos livros).

Nota do Crítico
Excelente!