Mayans M.C. - 1ª temporada

Créditos da imagem: FX/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Mayans M.C. - 1ª temporada

Spin-off de Sons of Anarchy termina seu primeiro ano provando que tem boas histórias para contar

Henrique Haddefinir
19.11.2018
09h35

A qualidade do trabalho de Kurt Sutter à frente de Sons of Anarchy sempre foi inegável. O terror diário vivido por seus personagens, também. Íntimo do universo dos clubes de motociclistas, o criador da série ilustrou com notáveis níveis de violência a vida nos áridos condados que circundam a Califórnia, cheios de sol, terra e poeira. Uma vida que literalmente não sai do lugar e se baseia em legados, em heranças sociais; que são tidas como irremediáveis por todos os que as vivem. Sons of Anarchy passou sete anos explorando os pesares dessa existência limítrofe e era de se esperar que não houvesse muito mais a se dizer. Quando o spin-off da série, Mayans M.C., foi anunciado a sensação era de que a mesma ideia não precisava de novas abordagens.

Era uma desconfiança natural dada a perspectiva narrativa que já tinha se anunciado. Os Mayans já tinham aparecido na série original e a sinopse de sua investida solo se assemelhava muito ao que Sons of Anarchy já tinha sido. A luta de Jax Teller para conseguir sair do crime virava a luta de EZ (J.D. Pardo) para não entrar nele. Mesmo que a partir de motivações opostas, as perspectivas dos dois protagonistas são muito parecidas: um olhar panorâmico do modus operandi do clube, um legado familiar, uma tragédia familiar, a paixão por uma mulher que representa o que seria viver uma vida “normal”... Mayans M.C. acontece quatro anos após os eventos de Sons, mas tudo na engrenagem dos clubes se assemelha.

A nova criação de Kurt Sutter, contudo, tem suas próprias diretrizes. EZ é o promissor filho de uma orgulhosa família mexicana. Tudo vai bem até que um cartel mata sua mãe e na busca por vingança ele assassina um policial. Depois de passar anos preso, ele sai e pede para entrar no clube onde está seu irmão Angel (Clayton Cardenas), numa tentativa de saldar suas dívidas com o governo. Seu irmão e os outros membros do clube não sabem desse acordo. Ao mesmo tempo, o próprio clube está veladamente dividido, já que Angel se une a um grupo rebelde na luta contra o cartel de Galindo (Danny Pino), que por sua vez é casado justamente com Emily (Sarah Bolger), antigo amor colegial de EZ.

Fardos

Num primeiro momento parece que vamos ter que assistir a mesma série acontecer diante dos olhos, o que não seria bom para remanescentes da produção anterior. Até metade de sua primeira temporada, Mayans MC não ousa e ameaça levar tempo demais preparando terreno. As coisas começam a mudar na segunda metade, quando todos os cenários que pareciam previsíveis nos levam a soluções inesperadas. Com suas bases muito bem assentadas, os roteiros começam a jogar com as possibilidades, evitando obviedades e apresentando alianças surpreendentes, revelações dramáticas e eliminando elementos importantes da narrativa de forma intensa e coesa. Os episódios são titulados seguindo uma métrica e a direção foca a cada semana num animal equivalente a ela. Tudo correlacionado. Fica claro, então, que a série sabe perfeitamente para onde quer ir.

Entretanto, é impossível não reconhecer que Mayans MC funciona como uma espécie de livre-continuação do que era a dramaturgia de Sons. A história de Jax foi encerrada e uma outra começou, com muitos elementos em comum, para nos oferecer exatamente a mesma atmosfera. Mesmo com as surpresas do roteiro, os níveis de violência e a sistemática que os envolvem seguem a mesma cartilha. A vida em torno do clube é crua, seca, tensa; e todos acordam para um novo dia com uma faca no pescoço. Não existem pontos de alívio e tudo é uma questão de sobrevivência constante. Todos os personagens sabem o que fazer para não continuarem mergulhados na lama, mas continuam chafurdando nela como se não tivessem escolha.

Há algumas sequências muito fortes e o que Sons demorou algumas temporadas para fazer, Mayans já faz imediatamente. Uma vez que a história demora algum tempo para se estabelecer, quando tudo se organiza os roteiristas ficam com uma série de picos de tensão para desenvolver. O que a primeira temporada de Mayans tem de mais positivo é exatamente esse grande senso de planejamento dramatúrgico. Em 10 episódios, essa é uma temporada com várias pequenas finales, tamanha a proporção de acontecimentos explosivos. São tantos, que chegamos a duvidar da capacidade dos envolvidos de providenciarem um bom gancho para o segundo ano. E eis que de uma forma que vai agradar muito os fãs de Sons Of Anarchy, eles conseguem fazê-lo.

Não estamos diante de um elenco de grandes atuações e muitas vezes as tramas familiares lembram perigosamente os folhetins novelescos. Porém, a série consegue escapar da consolidação dessas semelhanças. Por fim, para todos nós que não vivemos diretamente o legado do crime, terminamos a temporada incomodados com a recusa dos personagens em enxergarem  a luz. É um sentimento proposital e ajuda a elevar o objetivo filosófico da série. Considerando que a existência de Mayans MC vem pura e diretamente do oportunismo financeiro, chegarmos até o final vislumbrando uma boa condução artística é muito mais do que poderíamos esperar. Kurt Sutter gosta de dizer as mesmas coisas, mas ao que parece ele consegue variar a origem da vozes. 

Nota do Crítico
Ótimo