Manifest

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Séries e TV

Crítica

Manifest - O mistério do voo 828 - 1ª temporada

Sucesso da NBC sobre o misterioso voo 828 chega ao Globoplay

Henrique Haddefinir
10.10.2019
11h01
Atualizada em
10.10.2019
11h20
Atualizada em 10.10.2019 às 11h20

Alguns títulos do nosso vasto catálogo de séries de TV são transformadores, divisores, provocam uma onda de réplicas que mudam a forma como as histórias são contadas. Entre esses títulos (que incluem The Sopranos, Arquivo X e Sex and the City) está Lost, a série da ABC que foi um dos maiores – senão o maior – fenômenos de popularidade da primeira década do ano 2000. Antes dela, ninguém na TV tinha bipartido narrativas entre retrocessos e avanços no tempo, várias vezes, no mesmo episódio, por exemplo. A junção intensa de religião com ciência, a teoria dos degraus de separação, a necessidade de manter o público atento para montar sozinho o quebra-cabeças. Depois dela, esse tipo de “série sobre um mistério central” passou a ser um “filão”, um mercado de investimentos que saturou o gênero.

Manifest, da NBC, tem duas coisas em comum com Lost: ela começa com um “acidente” de avião e sua narrativa esconde segredos a serem desvendados. As semelhanças, contudo, param por aí. Centrada na família Stone, a série começa quando os membros desse clã resolvem se separar para voltar a Nova York depois de uma viagem para a Jamaica. Ben Stone (Josh Dallas), sua irmã Michaela Stone (Melissa Roxburgh) e seu filho Cal (Jack Messina) embarcam no voo 828. Sua mulher Grace (Athena Karkanis) e sua outra filha Olive (Luna Blaise) partem em outro avião. O voo 828 sofre uma forte turbulência, mas consegue pousar na Big Apple no horário previsto. O problema é que quando chegam, os passageiros descobrem que cinco anos se passaram e parentes e amigos dos integrantes do 828 achavam que eles estavam mortos.

Com menos de 20 minutos de episódio-piloto a série entrega absolutamente toda a sua premissa, deixando o espectador sob a perspectiva incerta do que está por vir. A criação de Jeff  Rake (de The Tomorrow People) tem a intenção de ser uma história centrada no que aconteceu com os passageiros, sem muletas procedurais, enquanto, de fato, ela existe a partir do momento em que é revelado o que os integrantes do voo 828 tem em comum: todos ouvem em suas cabeças uma espécie de “chamado”, que antecipa o futuro ou ordena que eles tomem atitudes para evitar ou esclarecer problemas. Esse é o lugar de conforto da produção, que pode correr por excessivos 16 episódios, economizando o máximo possível de revelações. Em Manifest tudo é sobre ouvir e seguir os tais dos chamados.

Voo Rasante

Assim como acontece nesse tipo de série, as mensagens são cifradas e nada nunca é dito claramente. Os roteiros vão atrás de todo o tipo de referência que sirva à criação desses enigmas, como trechos bíblicos, alinhamentos planetários, horóscopo chinês e por aí vai. O efeito colateral de ser herdeiro dessas séries que dividiram águas é que nada nelas soa muito novo e as produções precisam se apegar a coisas como o carisma dos personagens, coisa que Manifest não tem. Os dramas entre aqueles que sumiram e os que ficaram são todos centrados na questão amorosa e perde-se boa parte do tempo vendo como funcionam os desinteressantes triângulos amorosos formados pelos irmãos Stone. É difícil torcer até pela jovem Saanvi (Parveen Kaur), que passa a série inteira tendo apenas diálogos sobre as poucas características científicas do que envolve o evento com o 828.

Assim como nas séries adolescentes, de fantasia ou mistério, ninguém tem uma rotina. Todos estão em perigo iminente, com suas vidas girando em torno dos passageiros, dependentes de ganchos que mantenham o público distraído semana após semana. A NBC ainda complicou a vida da produção ao não dar a ela o orçamento devido e algumas sequências pioram a deselegância do resultado final, como quando os personagens têm visões com terríveis lobos de computação gráfica. Os “chamados” aparecem na forma de vozes imperativas que – para variar – se resumem a “pare ele”, “liberte” e coisas do tipo, que, aparecendo entre as cenas, soam absolutamente cafonas. Esses detalhes brigam com a premissa da série, que tem chances reais de ser interessante, desde que os roteiros se comuniquem com mais organicidade.

Lá pelo meio da temporada uma reviravolta curiosa melhora ligeiramente as perspectivas para um segundo ano, quando o papel do governo perde força para uma resposta mais ampla, ligada, sobretudo, aos novos elementos que mesmo fora do avião, foram afetados pela curiosa transformação temporal. Mas, é aterrador perceber que Manifest parece destinada a continuar expandindo sua mitologia no intuito de justificar suas temporadas, o que vai nos afastando cada vez mais pela falta de verossimilhança. Sem personagens carismáticos, sem um orçamento justo, sem poder avançar muito na história, a série acaba soando genérica, uma versão de um produto original. Não quer dizer que algo não possa mudar daqui para frente. Contudo, agora o mistério é saber quanto tempo de vida saudável uma produção baseada em segredos pode ter atualmente.

*Manifest - O mistério do voo 828 foi teve seus dois primeiros episódios exibidos como filme na Globo, mas já tem sua primeira temporada toda disponível para assinantes da Globoplay. 
Nota do Crítico
Regular