Making a murder

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Making a Murderer - 2ª Parte

Mesmo com uma nova abordagem, segunda temporada de Making a Murder traz pouca novidade e se torna um reaproveitamento de informações

Matheus Bianezzi
26.11.2018
09h53

Quase três anos se passaram desde a estreia de Making a Murderer e desde então o caso de Steven Avery ganhou proporções globais. Salvo os moradores da região e outros aficionados por crimes e casos jurídicos, ninguém conhecia detalhes da história e cada episódio da primeira temporada era uma grata surpresa para o público. Agora, com um background já bem estabelecido e internacionalmente difundido, a segunda parte da série entrega um enredo um tanto quanto lento e repetitivo, com poucos trechos surpreendentes.

Embora o contexto narrativo seja o mesmo da primeira temporada – advogados tentando provar a inocência de Avery, supostamente acusado de forma errônea de assassinato e estupro em 2005 -, a segunda parte perde o grande mérito dos episódios anteriores: mostrar novas evidências e colocar o espectador na posição de um júri do tribunal norte-americano. O começo do novo ano soa como uma grande recapitulação dos fatos já apresentados, o que torna a jornada bem cansativa - afinal, quem está assistindo  já viu tudo aquilo durante aproximadamente 10 horas. Talvez isso ocorra por ter se passado apenas dois anos entre as temporadas, não sendo o suficiente para juntar fatos realmente relevantes e interessantes de serem contados. Em contrapartida, a primeira parte teve décadas de material para trabalhar. Inclusive, diversas cenas do julgamento são repetidas, dando ainda mais a impressão que os produtores estavam precisando matar tempo. Mesmo relatando as mesmas provas e acontecimentos, o maior diferencial entre as duas partes está justamente na mudança do fio condutor: saem os polidos advogados Jerry Buting e Dean Strang para dar lugar a grande protagonista da segunda temporada, a excêntrica e caricata Kathleen Zellner, responsável por dar uma sobrevida à série e, ao mesmo tempo, torná-la um entretenimento que beira o sadismo.

Se um desavisado assistir certas cenas soltas da segunda temporada pode facilmente achar que está assistindo CSI ou até mesmo MythBusters. Em busca de refutar as provas que condenaram Avery cerca de 13 anos atrás, a advogada Kathleen Zellner, responsável pela absolvição de 17 pessoas acusadas de crimes que não cometeram – mais que qualquer advogado particular nos EUA -, vai atrás de inúmeros experts forenses para tentar provar que seu cliente foi sentenciado injustamente. Ela e seus assistentes – que funcionam aqui como uma espécie de sidekick em filmes de super-heróis - realizam diversos testes com manequins, armas, sangue, crânios de animais, carros e parecem reconstituir as cenas do crime com uma dedução digna de um detetive como Sherlock Holmes. Isso faz o espectador esquecer que nem tudo é tão simples assim. Por muitas vezes parece que a série esqueceu que está lidando com um assassinato real, apelando para testes mirabolantes que ficam no limite do entretenimento e trazem uma falsa esperança para a família de Steven e para todos que estão assistindo. Além disso, é bom lembrar que cada escorregão no tom narrativo pode causar um extremo desconforto para a família da vítima, declaradamente contra a produção da série.

Embora originalmente conte a história de Avery, também acompanhamos a jornada de Brendan Dassey, o sobrinho de Steven que confessou participação no assassinato de Teresa Halbach. Os advogados do garoto, que tinha 16 anos na época, buscam a revogação da sentença pois alegam que o interrogatório foi coercivo e seu depoimento é falso, não podendo ser levado em consideração. Além de ser um adolescente, Dassey tem uma espécie de atraso mental e um QI extremamente baixo para sua idade, levando os advogados a crer que sua confissão foi induzida pelos policiais e não condiz com a realidade. Diferente do outro caso, aqui os argumentos são bem mais interpretativos do que técnicos, mas, independente da opinião que o espectador possa ter, é apaixonante assistir o empenho incessante com que os defensores Steven Drizin e Laura Nirider lutam por Dassey, mesmo com a constante oscilação entre vitórias e derrotas conforme o processo avança no sistema judiciário. Outro ponto positivo desse arco são as cenas de julgamento. Como as câmeras não tem permissão para entrar no tribunal, os produtores da série decidiram recriar as cenas em formato de cartoon, apenas com os áudios da sessão sendo reproduzidos. Tais cenas geram um contexto necessário para entendermos o que está acontecendo, logo, não poderiam ter sido deixadas de lado simplesmente. E já que eram necessárias, por que não fazer de um jeito criativo? Mérito das roteiristas Laura Ricciardi e Moira Demos.

A grande razão para Making a Murderer ter se tornado esse fenômeno foi a série de surpresas costuradas em uma história de aparente corrupção digna de um filme. Esse artifício se perdeu na segunda parte, afinal, todo mundo já conhece a trama, e deu espaço a um tom muito mais sensacionalista, bem diferente do enredo sóbrio que foi apresentado no já longínquo 2015. Uma terceira parte da trama ainda não foi confirmada pela Netflix, mas, caso ocorra, seria interessante que apresentasse novos componentes para o público se envolver e criar novas teorias. Se não, o sentimento do pai de Steven, Allan Avery, pode se tornar o de todos: “eu só espero que alguma coisa aconteça”.

Nota do Crítico
Regular