Magnum prova que a Marvel ainda sabe contar boas histórias, mesmo sem heróis
Produção do Disney+ com Yahya Abdul-Mateen II e Ben Kingsley é uma das surpresas mais interessantes do MCU recente
O Marvel Studios passou por altos e baixos em 2025. Capitão América 4 não empolgou, Thunderbolts* funcionou melhor, Coração de Ferro passou quase despercebida e Demolidor: Renascido dividiu o público com o saudosismo da versão da Netflix. Quarteto Fantástico também gerou reações mistas e sobrou para os trailers de Vingadores: Doutor Destino o papel de lembrete do “plano maior” do estúdio que vem por aí. A boa notícia é que 2026 começa de forma mais interessante com Magnum, nova série do Disney+ que aposta em algo diferente no MCU: uma história que quase não parece ou precisa de super-herói.
A trama acompanha Simon Williams, um ator tentando sobreviver em Hollywood. Vivido por Yahya Abdul-Mateen II, o personagem lida com um mercado competitivo, crises de ansiedade e poderes especiais que surgem justamente quando ele perde o controle emocional. Diferente do padrão Marvel, esses dons não são um trunfo, mas um problema — algo que Simon prefere esconder para não comprometer sua carreira.
É nesse contexto que ele cruza o caminho de Trevor Slattery, interpretado novamente por Sir Ben Kingsley. O ex-Mandarim, revelado como fraude em Homem de Ferro 3, agora tenta reconstruir sua vida e sua carreira como ator. Os dois acabam trabalhando juntos em um remake de Magnum, um herói fictício dos anos 1980, que será dirigido pelo excêntrico e premiado Vonn Kovack (Zlatko Buric).
A comparação com O Estúdio é quase inevitável — e talvez injusta. Ambas as séries usam o humor e a metalinguagem para comentar a própria indústria do entretenimento. No caso de Magnum, o olhar se volta também para o desgaste do gênero de super-heróis. A série bebe diretamente da fonte de Shane Black, cineasta por trás de Homem de Ferro 3, e conhecido por histórias centradas em duplas carismáticas e diálogos afiados, como Máquina Mortífera, Beijos e Tiros e Dois Caras Legais - essas duas, também com críticas à indústria.
É justamente quando se afasta do MCU que Magnum encontra sua melhor forma. A dinâmica entre Simon e Trevor é o grande motor da série, potencializada por um Ben Kingsley visivelmente à vontade e brilhando no papel. O personagem evolui de forma natural em relação às aparições anteriores, incluindo Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis. Não por acaso, a origem do projeto está ligada ao trabalho do diretor Destin Daniel Cretton, que percebeu que Trevor merecia uma história própria.
Simon, por sua vez, vive uma jornada do herói muito mais íntima. Sem vilões cósmicos ou ameaças globais, a série explora conflitos familiares, crises de identidade e dificuldades emocionais. O selo Marvel Spotlight garante mais liberdade criativa, permitindo episódios que destacam a diversidade de Los Angeles, incluindo um capítulo quase inteiro ambientado na comunidade haitiana onde vive a família do protagonista. Há mentores, erros e aprendizados — mas tudo em uma escala humana.
O maior problema de Magnum surge quando a série se lembra de que faz parte da Marvel. As referências aos Vingadores funcionam bem como pano de fundo, assim como o “vexame” público do falso Mandarim. No entanto, a entrada do Departamento de Controle de Danos, já visto em Ms. Marvel e nos filmes do Homem-Aranha, interrompe o ritmo e força novas conexões com um universo maior que a trama claramente não precisa. Isso enfraquece, inclusive, a proposta original do selo Spotlight.
Comandada por nomes vindos de produções como Falando a Real, Poker Face, Insecure e Community, Magnum é uma grata surpresa. Menos ácida do que poderia ser em sua crítica à indústria, mas eficiente no que se propõe, a série se apoia em um texto afiado e em um elenco carismático, que inclui Byron Bowers, que tem tudo para se tornar um favorito do público e gerar teorias dos fãs.
No fim das contas, Magnum resgata algo que sempre foi a maior força do MCU: o lado humano de seus personagens. E tudo isso sendo uma série (quase) sem super-heróis, o que pode dizer mais sobre esse universo do que os criadores esperavam.