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Crítica

Luke Cage - 1ª Temporada | Crítica

Muito além de ser apenas mais uma série de herói, um retrato de seu tempo

Aline Diniz
30.09.2016
11h00
Atualizada em
29.09.2016
23h51
Atualizada em 29.09.2016 às 23h51

Muito foi dito sobre o tom de Luke Cage antes de sua estreia, tanto pelo criador Cheo Hodari Coker quanto pelo protagonista Mike Colter - que poderíamos esperar uma série diferente dos quadrinhos, mas que capturava a essência do personagem; o quão musical essa experiência seria; o quão significativa seria para a comunidade negra... A série entrega tudo isso e muito mais.

Como toda boa história de origem, Luke Cage estabelece bem de onde veio esse personagem, contando em detalhes sua trajetória para os desconhecidos dos quadrinhos. Vale lembrar, no entanto, conforme dito nesse outro artigo de primeiras impressões, a série difere muito de sua própria história de origem, deixando de lado os conhecidos traços de Cage, trazendo-o tanto para o discreto universo pré-determinado por Demolidor e Jessica Jones como para os dias de hoje. As mudanças o tornam mais palatável, desmontando a persona caricata que foi introduzida nos anos 1970.

Também foram transformados, da mesma forma, os personagens que o cercam. Levemente parecidos com seus originais, Cottonmouth (Mahershala Ali), Shades (Theo Rossi), Mariah Dillard (Alfre Woodard), Misty Knight (Simone Missick), Diamondback (Erik LaRay Harvey), entre tantos outros, são transformados em pessoas reais. Cada um deles tem sua motivação e propósito dentro da trama, sua história de origem, sempre ligada ao Harlem - outro importante personagem que determina exatamente o tom da produção.

Luke Cage se beneficia muito do visual do bairro, usando uma iluminação diferente que ajuda na visibilidade das cenas de luta, além de ter a música à seu favor. Mergulhada em hip-hop, as canções embalam a ação da série e funcionam quase como um fio condutor para a trama, resgatando a essência dos anos 70 e remetendo aos quadrinhos, ao blaxploitation da época, além de manter o linguajar e a cultura do Harlem sem ser caricata.

Diferente de suas predecessoras, a série usa de sua ambientação e temática para virar a ideia de super-herói de ponta cabeça. Muito além de cuidar de seu bairro, Luke precisa cuidar de si mesmo, lutando o tempo todo para se provar inocente de inúmeras acusações. Acima de tudo, Luke Cage é um retrato de seu tempo, espelhando muito do que se vê hoje em dia nos noticiários americanos - brutalidade policial e discriminação racial e social. Às vistas do sistema, Luke é apenas mais um bandido que precisa ser eliminado à qualquer custo, independente de investigação.

Muito como Jessica Jones, a produção aborda inúmeros assuntos que são complicados de tratar nos dias de intolerância que vivemos hoje, mas o faz com maestria. Ao mesmo tempo que critica o sistema falho da polícia e governo, reclamando que não são só os pobres que cometem crimes, mostra soluções.

Ao mesmo que tempo que faz um serviço à sociedade, Luke Cage não desaponta no quesito fan service. Tudo está presente: desde às referências aos Vingadores, muito bem encaixadas em bons diálogos; aos easter eggs dos quadrinhos - até a aparição de Stan Lee. Não falta nada. Talvez uma das séries mais corajosas da parceria até agora, ela não tem medo de ousar, trazendo muita morte e sangue às telinhas; além de fazer menções às suas companheiras o tempo todo (fique ligado na rápida referência a Punho de Ferro no último episódio). A participação de Claire Temple (Rosario Dawson), que já passou por Demolidor e Jessica Jones em um papel de extrema relevância nas três, completa muito bem a trama.

Luke Cage é uma boa surpresa e garante um ótimo herói para integrar Os Defensores em breve. Extremamente relevante e atual, a série é boa não somente dentro de seu próprio cosmos, mas também como produção relevante para o tempo que retrata. Que venha Punho de Ferro.

Nota do Crítico
Excelente!