Charlie Plummer, Kristine Froseth e Jay Lee em Looking For Alaska

Créditos da imagem: Hulu/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Looking For Alaska - 1ª temporada

Adicionando camadas a uma história já bastante humana, série eleva a inocência e o espírito juvenil de seus protagonistas e se prova tão cativante quanto o romance original

Mariana Canhisares
19.11.2019
18h55

Discutir a busca pelo “Grande Talvez” pode até parecer pretensioso, sobretudo em uma história como Quem é Você, Alasca?, em que adolescentes citam obras de grandes poetas americanos como se falassem do último lançamento da Netflix. Mas se tem algo que John Green entende sobre a juventude é que a pouca idade não priva ninguém de enfrentar dilemas de gente grande. E esta é justamente a beleza da jornada de Miles Halter e seus colegas da Culver Creek. Além das aventuras, do código moral juvenil e inconsequente e das paixonites fugazes, há um debate sobre propósito e morte, questões relevantes que movem (e assombram) a humanidade desde o início dos tempos.

Surpreendentemente, a série do Hulu Looking For Alaska reproduz essa dinâmica entre o clichê infanto-juvenil e as dúvidas existenciais como se estivesse diante do público pela primeira vez. A razão para esse efeito está no esperto equilíbrio entre ser fiel ao original e não ter receio de criar. Porque, embora adapte em alguns momentos quase que palavra por palavra do que Green escreveu, a produção aproveita que tem à sua disposição oito episódios e usa o tempo adicional para dar mais camadas a seus personagens.

O Coronel (Denny Love) é um claro exemplo disso. Na série, mais do que o estrategista e o piadista do quarteto, Chip é um adolescente que sente o peso dos preconceitos racial e social cotidianamente. Por isso, aqui, seu namoro com a popular Sara (Landry Bender) deixa de ser um acessório na narrativa para se tornar efetivamente uma alegoria sobre sua sensação de não pertencimento. Apesar de ser um personagem verborrágico, essas questões são abordadas não pela panfletagem, mas por um olhar sensível sobre como afetam seus relacionamentos pessoais, inclusive com sua família, e sua visão de mundo - algo pertinente a qualquer obra baseada em um livro do John Green.

Miles (Charlie Plummer), por sua vez, deixa de ser uma folha em branco com um curioso hobbie e tem mais voz e personalidade já nos primeiros episódios. Mesmo o temido Águia (Timothy Simons) e a cobiçada Alasca (Kristine Froseth), que no original é quase abstrata de tão idealizada pelo narrador, ganham elementos mais mundanos e relacionáveis.

Porém, enquanto o seriado acerta no desenvolvimento dos seus personagens, desliza nos seus diálogos. Como tantas outras produções destinadas ao público jovem, os adolescentes falam como se fossem mestrandos, o que não é realista, nem condizente com o fato de que eles são, por vezes, convenientemente burros quando estão diante de “mistérios”. Isso fica mais claro no episódio após o encerramento da contagem de dias - sim, a série leva até esse elemento para as telas. Como se o material-base tivesse ficado escasso para preencher 50 minutos de episódio, o roteiro coloca os adolescentes mais falantes, como o próprio Coronel, para insistir em pontos sem sentido e reiterar o que já está bem explícito. Deste modo, Looking For Alaska apenas cria uma quebra de ritmo tediosa e desnecessária para levar o público e seus protagonistas a uma conclusão óbvia. Um descompasso infeliz para uma produção tão redondinha.

Ainda assim, é inegável como o seriado transporta seu espectador para o mundo das reflexões e pegadinhas de Miles. A trilha sonora, as sutis referências a The O.C. e até o filtro Lo-Fi do Instagram na fotografia criam a cativante experiência juvenil dos protagonistas. Quando você menos espera, está também se questionando sobre o seu “Grande Talvez”.

Nota do Crítico
Ótimo