Reese Witherspoon e Kerry Washington em Little Fires Everywhere

Créditos da imagem: Prime Video/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Little Fires Everywhere

Brincando com o equilíbrio entre seriedade e novela, Little Fires Everywhere cutuca feridas ao mesmo tempo que funciona como passatempo

Julia Sabbaga
19.06.2020
16h58

Little Fires Everywhere não poderia ter sido lançada em um momento mais propício. Com o mundo quarentenado em casa, e ainda em uma nova era de discussões raciais em alta, a nova série de Reese Witherspoon e Kerry Washington é perfeita para ambas circunstâncias, se provando altamente maratonável ao mesmo tempo em que levanta questões de raça, classe e privilégios. Tentando balancear assuntos sérios com tom de novela, a produção tende ao dramalhão, mas encontra exatamente neste gênero um solo frutífero para discutir tensões bem familiares ao seu público alvo.  

Adaptando o best-seller homônimo de Celeste Ng, Little Fires Everywhere foca na relação turbulenta entre Elena Richardson (Witherspoon), mãe de quatro filhos e jornalista de meio-período, e Mia Warren (Washington), uma mãe e artista recém chegada à cidadezinha de Shaker Heights, Ohio, em 1997. Mas é em sua maior diferença com o livro que a série constrói o terreno. Ao contrário do material base, na série Mia e sua filha Pearl (Lexi Underwood) são negras, e a produção do Hulu se concentra principalmente na pseudo-inclusividade da comunidade, chamando atenção para o desconforto que se desperta com a chegada das novas residentes. 

Enquanto os primeiros episódios focam bastante nas duas personagens, inclusive remetendo muito à outra produção recente de Witherspoon, Big Little Lies, em seu desenvolvimento a série amplia sua visão. Introduzindo uma questão jurídica entre as duas, Little Fires Everywhere explora muito mais as questões presentes entre os filhos de Elena e Mia, se tornando um estudo válido sobre maternidade de todas as formas. Retornando ao passado das duas, a série ainda entrega um background bem feito que analisa de fato quem elas são, como chegaram até aqui, e como tudo isso afeta seus descendentes. 

Por trás de tudo está uma competição materna entre Elena e Mia, em um jogo que não tem vencedoras. Mas é a partir do ápice desta briga que a série rompe a tensão e parte para desenvolver diversas outras questões. Apesar de se focar no quesito racial e fazer isso muito bem, a produção abraça uma responsabilidade maior ainda ao incluir discussões de sexismo, com destaque para um belo discurso de Izzy (Megan Stott) a Moody (Gavin Lewis); privilégio, principalmente na figura de Lexie (Jade Pettyjohn), a filha mais velha de Elena; e o perigo dos segredos, que assombram grande parte dos personagens. 

Com muito a dizer, é até surpreendente que Little Fires Everywhere não deslize na construção de personagens. A gama é vasta e diversa, mas nunca superficial, e a série sabe em quem focar e de onde tirar melhor proveito. Pearl, uma das personagens mais bem construídas, se sente confortável na casa de Elena, o pesadelo de Mia, porque nunca criou raízes, tendo convivido com o estilo de vida itinerante da mãe. Izzy, a “filha problema” de Elena, por outro lado, encontra um lar na casa de Mia seguindo um caminho tanto artístico quanto desafiador. Tudo isso é lapidado muito bem, sem pressa ou perda de tempo. Little Fires Everywhere tem oito capítulos bem distribuídos e ritmados.  

Mas é no desenvolvimento das personalidades que a série brilha de verdade. Sem nunca assentar, Little Fires Everywhere questiona a todo momento os juízos de valor do espectador, surpreendendo quem espera uma redenção de Elena ou uma harmonização entre as protagonistas, inclusive encontrando espaço para rediscutir decisões questionáveis. O caso mais claro neste sentido é de Bebe Chow (Lu Huang), uma mãe que abandona sua filha quando se vê sem condições de criá-la. Iluminando a questão mais detalhadamente, Little Fires sutilmente faz o público se sentir desconfortável em sua posição, sem precisar ser maniqueísta ou apelativo. 

Mas não há Little Fires Everywhere sem as performances bombásticas das duas atrizes principais. Enquanto no início há uma hesitação das duas, que faz parecer que elas não estão saindo do lugar comum, a construção dos conflitos tira bom proveito do talento das veteranas da televisão. A transição da personagem de Elena, que aos poucos vai perdendo a compostura, é perfeitamente representada por Witherspoon, e a sombriedade de Mia, que ganha profundidade à medida em que a personagem se revela, também é certeira. Não há como negar: muito do elemento viciante de Little Fires vem das sedutoras interpretações de ambas, que conseguem sustentar papéis que facilmente poderiam tropeçar no caricato.

Dito tudo isso, vale ressaltar que todo o apelo de Little Fires pouco tem a ver com o mistério colocado na primeira cena da série, sobre quem incendiou a casa dos Richardson. O pontapé inicial, que pretende prender o público, na realidade, não tem função alguma a não ser apresentar um viés criminal, que talvez sirva para atrair quem foi levado pelo sucesso de Big Little Lies. Mas a série se desenvolve independentemente da questão, e por isso, quando tudo é revelado no final, o início parece ainda mais desconexo, e soa como um truque barato com pouca recompensa. 

O que torna Little Fires tão perto do novelesco, na realidade, é sua limitação como formato. Levantando questões pesadas demais para sustentar em uma série familiar, ela deixa a ponderação e resolução por conta do público. Fazendo jus à própria problemática, tão enraizada na comunidade de Shaker Heights, a série vai até onde pode, e por isso que seu desfecho, apesar de conclusivo, não é realmente reconfortante. A função principal de Little Fires Everywhere é cutucar e inquietar, e isso ela fez muito bem. 

Nota do Crítico
Ótimo