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Crítica

La Casa de Papel - 2ª parte | Crítica

Segunda metade de série espanhola conquista ao brincar com imprevisibilidade e trocar personagens de lado

Rafael Gonzaga
06.04.2018
20h00
Atualizada em
12.04.2018
13h22
Atualizada em 12.04.2018 às 13h22

Se a primeira metade de La Casa de Papel  prende o público em um jogo de gato e rato, na segunda, gato e rato se misturam, se confundem, trocam de lado e a coisa perde qualquer vestígio do maniqueísmo habitual de tramas de perseguição. A produção do canal espanhol Antena 3 e distribuída internacionalmente pela Netflix acompanha por mais nove episódios o desenrolar do maior roubo de todos os tempos partindo do que seria a maior crise da operação e indo até o encerramento do plano. Com mais de 60 horas de roubo nas costas, a nova fase utiliza o esgotamento de todos os personagens como principal recurso narrativo e coloca o Professor em confronto direto com a imprevisibilidade inerente à vida.

La Casa de Papel retorna com o desenrolar de um cliffhanger que soa inicialmente decepcionante, supostamente abordando a falha mais grave do Professor até então. A primeira leva de episódios fez um trabalho tão bom ao apresentar o personagem como alguém obsessivamente cuidadoso que faz o público questionar se o deslize de deixar a casa onde todo o plano do roubo foi arquitetado à mercê de ser encontrada pela polícia era algo coerente. Para alívio de quem apostava na coerência narrativa, logo o público é informado que o Professor (Álvaro Morte) segue dois passos à frente da polícia, mas isso não quer dizer que seu plano siga intocado.

Mesmo com o caos dentro da Casa da Moeda, garantida especialmente pelo descontrole de Tóquio (Úrsula Corberó) e Berlim (Pedro Alonso), o plano só é realmente comprometido por um pequeno desvio que toma proporções gigantescas: o envolvimento entre o Professor e Raquel (Itziar Ituño). Em dado momento da atração, a relação dos dois é o que ora ameaça todo o plano, ora o que garante. É através desse casal que a série deixa de ser um thriller exclusivamente focado em um roubo e ganha novas camadas dentro de um debate filosófico sobre construção de certo e errado, sobre justiça e sobre repensar verdades absolutas. Todos os protagonistas da série possuem jornadas interessantes nesse sentido, mas, de longe, a de Raquel se destaca positivamente nos episódios finais.

Há de se elogiar a habilidade dos roteiristas da atração em espremer todas as variantes possíveis em um assalto e jogá-las, sem medo do excesso, na tela. Se a primeira remessa de episódios traz uma quantidade improvável de eventos durante o roubo, a segunda se arrisca a fazer coisas que vão desde a morte de personagens carismáticos até a captura de um ou outro de seus protagonistas, envolvendo o público em subtramas que não fazem nada além de girar no próprio eixo até estacionarem novamente no ponto de partida. É inegável a sensação de que a trama principal poderia se resolver em menos episódios, mas há algum mérito no fato da atração não deixar a peteca cair mesmo quando está claramente fazendo hora extra.

Não que a promessa fosse outra, mas o caráter novelesco da primeira parte da minissérie permanece em cada segundo da nova remessa de episódios e é isso, inclusive, que dá o tom do final da minissérie. O encerramento da trama utiliza pequenos clichês que acabam funcionando como guilty pleasure para grande parte do público, mas, ainda sim, esses recursos são aplicados com parcimônia para não prejudicar a personalidade da atração - nada de casamentos ou mocinhas grávidas vestidas de branco na cena final, para alívio do público, mas redenção de personagens odiáveis sob a forma de sacrifícios e reencontros emocionantes de casais após um salto temporal.

Quem gostou da primeira metade da atração provavelmente não se decepcionará com a segunda. Pelo formato original de minissérie, a trama poderia ter dedicado mais tempo em dar finais mais sólidos para seus protagonistas - o formato de deixar o futuro deles em aberto, ainda que com sugestões óbvias para a maioria, não supre tão bem as expectativas do público. Ainda que com ares utópicos que só podem ser digeridos se o público estiver disposto a aceitar doses cavalares de liberdade poética, a série se despede sem grandes problemas. Curiosamente, La Casa de Papel foca mais em criar situações mirabolantes para o meio de caminho e deixa para o final todas as saídas mais práticas, ainda que carregadas de tiros e explosões. Ao terminar o último episódio, fica no público a sensação de diversão despretensiosa e, é claro, o eco de “Bella Ciao” tocando por algum tempo no fundo da cabeça.

Nota do Crítico
Bom