Kingdom - 1ª Temporada

Créditos da imagem: Kingdom/Netflix/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Kingdom - 1ª Temporada

Minissérie sul-coreana da Netflix é uma renovação para o subgênero de zumbis ao combinar com trama histórica

Arthur Eloi
30.01.2019
17h12
Atualizada em
04.02.2019
18h39
Atualizada em 04.02.2019 às 18h39

A partir dos anos 1980, zumbis rapidamente tornaram-se o subgênero de terror utilizado pela cultura pop, dando origem à inúmeros filmes, quadrinhos e séries. Por conta disso é bem comum ouvir que histórias do tipo já estão saturadas e cansativas, fenômeno que ocorreu apenas pela repetição incansável dos mesmos elementos narrativos e ambientações originalmente estabelecidas por George Romero. Longe dos holofotes das grandes produções hollywoodianas, os mortos-vivos foram novamente ressuscitados pelo cinema estrangeiro e suas abordagens inéditas, como no australiano Cargo (2017) ou no francês A Noite que Devorou o Mundo (2018). Com Kingdom, minissérie sul-coreana da Netflix, esse "Renascimento Zumbi" chega à televisão.

Ambientada na Coreia, durante o período da Dinastia Joseon (1392-1897), a trama acompanha a nação à beira de uma tragédia após o Rei tornar-se uma criatura sedenta por carne humana. Para impedir que o irresponsável príncipe-herdeiro Lee Chang (Ji-Hoon Ju) assuma o trono, a Rainha Cho (Kim Hye-jun) tenta omitir a notícia do povo e dos demais nobres e governantes até o eventual nascimento de seu filho. Na tentativa de reconquistar seu posto e fugindo de acusações de traição, Chang parte em busca do médico que cuidou de seu pai - mas acaba descobrindo que uma infestação de mortos-vivos está crescendo desenfreadamente no interior do país.

O surto serve como um plano de fundo para explorar o jogo político entre o protagonista e sua impiedosa Família Real e seus aliados, capazes de tudo para se manterem no poder; e também a jornada de Chang para crescer além da nobreza. Diferente de histórias em que o levante dos mortos é visto como o fim da sociedade, aqui apenas reforça as estruturas sociais e hierarquias que existem, criando um distanciamento ainda maior entre a realeza, segura nas capitais e lidando com seus próprios assuntos, e os pobres, morrendo aos milhares em cada ataque ou sofrendo com a fome - por negligência dos governantes ou isolamento causado pelo avanço zumbi - ao ponto do canibalismo tornar-se uma opção válida. Considerando que o período histórico em que a trama se passa é conhecido pelos conflitos entre a Coreia e o Japão, utilizar os mortos como metáfora para o impacto da guerra é um pouco óbvio, mas muito eficiente e interessante como elemento narrativo.

Priorizar o contexto histórico e as intrigas políticas é uma decisão acertada de Kingdom, que dá uma riqueza maior ao material e foge do comum. Isso dá espaço para arcos narrativos que exploram a relação dos personagens com o caos, ao invés de discutir apenas o apocalipse. O melhor exemplo disso é Chang, que tem uma evolução surpreendente ao longo de seis episódios: o jovem vai de um monarca mimado, que usava seu título como maior arma, para um governante genuinamente preocupado com o povo - ainda que muitos dos seus trejeitos não tenham ficado no passado, o que ajuda a passar credibilidade para a transformação e fortalece a sua caracterização. Ao fim do programa, é difícil não ter um certo carinho por ele e por Muyeong (Sang-ho Kim), seu guarda-costas.

O foco nos demais elementos deste universo também faz com que a parte visual fuja do esperado: mesmo sendo uma história sobre morte e manipulação, o seriado investe nas belíssimas paisagens naturais do campo, na imponência da arquitetura dos templos da Família Real, nas vibrantes cores dos uniformes militares e demais figurinos. A estética viva do programa cria um contraste com o peso da sua temática, e só ajuda a reforçar o quão não-natural é a ameaça que eles enfrentam.

Os mortos, por sua vez, não decepcionam. Mesmo que sua função narrativa não seja de destaque, a horda não parece composta por devoradores de cérebros rastejantes, mas sim por animais velozes, habilidosos e sedentos por carne humana. Para transmitir essa visão, a produção opta por filmá-los da forma mais grotesca o possível, com cenas de poucos cortes e intérpretes contorcionistas, retorcendo partes de seus cadáveres ao som de ossos estralando.

Os ataques são alguns dos momentos mais memoráveis e horripilantes da minissérie - e muito disso vêm do diferencial de que eles só ocorrem durante a noite. Assim, a trama consegue caminhar com respiro, dando oportunidade para os protagonistas planejarem estratégias - e também despertar a ansiedade dos espectadores que, apesar de todos os avanços que ocorrem a luz do dia, sabem que faltam poucos minutos para a volta da violência.

Por encaixar os zumbis em um rico contexto histórico e conduzir uma trama de intrigas e manipulações com ótimos roteiros e direção, Kingdom é uma renovação para o subgênero de terror. O seriado erra aqui e ali no alívio cômico, ocasionalmente criando situações desconfortáveis como parte de um humor peculiar, mas o texto e a violência gráfica seguem um alto padrão de qualidade que faz com os mortos-vivos ainda tenham fôlego para entreter.

Nota do Crítico
Ótimo