Imagem da 3ª temporada de Killing Eve

Créditos da imagem: Killing Eve/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Killing Eve - 3ª Temporada

Sem trama, 3ª temporada mostra que série que é capaz de se sustentar apenas na força das atrizes principais

Arthur Eloi
24.08.2020
11h16

Diferente do cinema, a televisão é organismo vivo, que cresce (ou diminui) a partir de acertos e erros. Séries que começam de forma questionável podem evoluir para obras-primas, enquanto outras começam bem e vão decaindo. Em qualquer uma das situações, é sempre interessante acompanhar o processo de mudança. Killing Eve se encontra bem nessa fase de transição.

Criado por Phoebe Waller-Bridge (Fleabag), o programa começou como uma história de detetive, que rapidamente se tornou sobre a complicada relação entre a investigadora Eve Polastri (Sandra Oh) e a assassina Villanelle (Jodie Comer). A mudança de foco foi bastante explorada no ano dois, mas o que vem em seguida? Na terceira temporada, o seriado ainda não tem uma resposta concreta para isso.

Após Villanelle retribuir o “gesto romântico” de Eve e deixá-la baleada para morrer em Roma, as duas se afastam e passam a viver as sequelas de uma espécie conturbada de término. A investigadora, que mais sofreu as consequências dessa curta e intensa relação, praticamente vive refugiada em um apartamento barato em Londres, trabalhando na cozinha de um restaurante, com rotina pouco atraente. A serial killer, por sua vez, almeja crescer dentro da organização em que trabalha. Em comum, uma se mantém fascinada pela outra - e o espectador por vê-las juntas novamente. 

Sandra Oh e Jodie Comer são o grande destaque da temporada. Separadas, as duas conquistam como mulheres desajustadas, de emoções complexas e dor internalizada. Juntas, compartilham de uma química tão forte que realmente parece que as duas podem sair no soco ou aos beijos a qualquer momento. Enquanto ambas estão no mesmo nível de habilidade, Comer ganha um pouco mais de espaço por conta de uma subtrama que revisita a infância de Villanelle. A assassina poderia apenas ser fria, mas seu enorme carisma - e visíveis traumas - são o que lhe dão tanta personalidade. O capítulo em que se reencontra com sua antiga família na Rússia, lentamente percebendo que nunca poderá abraçar a normalidade que sonha, é motivo o bastante para que a atriz tenha sido indicada ao seu segundo Emmy.

As protagonistas são de uma força absurda, ao ponto de carregarem a série durante um claro momento de confusão narrativa.

Organizações Sombrias

A terceira temporada de Killing Eve não faz ideia do que contar. Por mais que o segundo ano já tivesse brincado com a ideia de expandir o universo do programa, isso ficou em paralelo ao relacionamento de Eve e Villanelle. Como as duas terminam separadas, a produção percebeu que ficaria repetitivo fazer mais uma leva de episódios sobre elas tentando admitir seus sentimentos. Está claro que os melhores conflitos e momentos surgem quando elas estão juntas, então por que separá-las em arcos diferentes e menos interessantes?

Mesmo assim, boa parte da temporada é gasta em tramas que soam secundárias. Eve ainda tenta se reconciliar com o ex marido; Villanelle tem problemas com uma mentora; a misteriosa organização dos Doze ganha mais espaço, mas continua ilusiva e pouco explicada. Nem mesmo a estranha morte de um dos personagens principais, usada como catalisador nos episódios iniciais, é realmente usada como gancho, e acaba soando gratuita. 

Sem uma trama principal bem definida, o programa se arrasta. A dinâmica acelerada dos primeiros anos dá espaço para um ritmo lento, sem objetivo claro, esbarrando em várias histórias secundárias. Quando o ápice da temporada é o reencontro da dupla principal, assim como foi nos dois anos anteriores, é hora de questionar se ainda há alguma história a ser contada neste universo. Ou pelo menos a forma que a atual está sendo contada.

Killing Eve cambaleou um pouco na terceira temporada, e está tudo bem. No mundo da televisão, é difícil não encontrar séries que demorem um pouco para entender suas forças e fraquezas. O processo de encontrá-las pode sim ser um pouco confuso ao espectador, já que também é para seus criadores. Aqui, pelo menos, o programa tem duas atrizes de peso, diálogos afiados e ótima direção para sustentar durante esse tempo de autoconhecimento. Com mais uma leva de episódios já garantida, só é bom tomar cuidado para que essa fase não se estenda ao ponto de definir o seriado como mais uma obra que desanda com o passar dos anos.

Nota do Crítico
Bom