Killing Eve - 1ª Temporada

Créditos da imagem: Killing Eve/Sophie Mutevelian/BBC America/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Killing Eve - 1ª Temporada

Série da BBC America estrelada por Sandra Oh é um hit que se revela um thriller da melhor qualidade

Henrique Haddefinir
05.11.2018
22h01

Na primeira cena de Killing Eve conhecemos a assassina Villanelle (Jodie Comer) através do detalhe. Ela observa uma menina que espera seu imenso sorvete cheia de ansiedade. Villanelle - um codinome desmascarado de forma rápida pelos roteiros - interage com ela cheia de simpatia. Quando o sorvete da menina chega, ela se levanta, caminha até a criança e derruba a guloseima com um sorriso no rosto, propositalmente. Apesar de sabermos que aquela é a grande assassina que matará dezenas no decorrer dos episódios, sua primeira aparição se concentra nesse detalhe: mais do que uma assassina profissional, ela tem um profundo fetiche pela instabilidade da vida. Quanto mais mata, mais fascinada fica pelo estado psicológico do indivíduo diante da morte e tensão.

Essa primeira sequência dá o tom do que virá a seguir. Killing Eve foi adaptada da série de livros Codename Villanelle, de Luke Jennings, e boa parte de seu marketing foi feito em cima da presença de Sandra Oh no elenco, vivendo Eve Polastri, a grande antagonista da criminosa. Contudo, a fascinação do público por mulheres assassinas se reflete na construção e exploração de Villanelle, uma personagem que cresce e transborda da tela, oscilando entre o horror e o charme, tornando-se o grande trunfo da série. Oh faz um trabalho extremamente correto, mas Comer domina a narrativa com uma astúcia impressionante.

A série não tem premissa complicada: com uma carreira em declínio, Eve é uma agente do MI5 que desenvolveu uma obsessão por descobrir a autora de uma série de assassinatos brutais. É importante salientar – e o roteiro também faz questão disso – que ela não quer apenas encontrar a assassina, mas sim provar que trata-se de uma mulher. Sua vida medíocre é descrita com apuro, indo do trabalho que não a reconhece, passando pelo casamento ordinário até chegar à paixão que ela tem pela ideia de perseguir e analisar essas mentes assassinas. Quando Carolyn (Fiona Shaw) entra em seu caminho como aquela que lhe dará os meios para perseguir Villanelle, a vida de Eve sofre a virada que ela espera há tanto tempo. Finalmente ela está viva.

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A metáfora não se esconde, vale dizer. Quanto mais perto chega de Villanelle, mais a protagonista se enche dos anseios típicos de quem tem muito para viver. Ela começa a ser negligente com o próprio casamento, coloca vidas em risco e vai deixando a captura da assassina no plano pessoal, e não profissional. Do outro lado, a vilã entende muito rápido que exerce fascinação na agente e começa a usar isso em favor próprio. Villanelle provoca, atiça, seduz, se comunica com Eve de maneiras veladas e ao desafiá-la, também acaba dominando-a. Sendo assim, aos poucos a criminosa vai "matando" Eve e fazendo-a renascer para uma evidência primordial: Eve precisa de Villanelle para continuar se sentindo viva.

Os oito episódios da primeira temporada são nervosos, dificilmente irão entediar seus espectadores. O jogo de gato-e-rato entre as duas personagens é extremamente eficiente e em muitos momentos realmente faz pular da cadeira. A vendida psicopatia de Villanelle, contudo, parece uma interpretação rasteira para uma personagem que tende a cultivar certas motivações parciais. São dela as cenas mais sagazes, onde o texto flerta com o humor de um jeito macabro, sombrio, sendo ao mesmo tempo divertido e perturbador. É evidente que a BBC America quer manter entretidos os fãs de Orphan Black, levando ao ar mais uma produção tomada de mulheres fortes e com uma narrativa tensa e intrincada.

O resultado final é muito positivo, mas a euforia em torno da série não pode ignorar que ela é uma produção competente mas longe de exalar originalidades. A estrutura de reviravoltas, surpresas e mortes inesperadas faz parte da gênese dos títulos de ação do século. Killing Eve sai ganhando por conta de seu ótimo roteiro, em comunhão com incríveis atuações, formando um pacote de elegância narrativa que realmente empolga. Há um ótimo cliffhanger no final, mas a ideia de uma perseguição contínua, temporada após temporada, não é muito animadora. Considerando que há mais volumes do material literário para serem lançados adiante - um deles já em 2019 -, pode ser que a série faça uma longa carreira na TV.

Nota do Crítico
Ótimo