Kevin Can F**k Himself zoa sitcoms machistas e cria subtexto queer irresistível

Créditos da imagem: Annie Murphy e Mary Hollis Inboden em Kevin Can F**k Himself (Reprodução)

Séries e TV

Crítica

Kevin Can F**k Himself zoa sitcoms machistas e cria subtexto queer irresistível

Série de Annie Murphy, de Schitt’s Creek, chegou ao Brasil pelo Amazon Prime Video

Caio Coletti
30.09.2021
10h25
Atualizada em
30.09.2021
14h57
Atualizada em 30.09.2021 às 14h57

O primeiro episódio de Kevin Can F**k Himself é uma montanha-russa, um choque de tons radical. Isso porque ele tem a responsabilidade de introduzir o principal truque da série: a mistura de formatos entre uma sitcom multicâmera, com aquela risada de fundo, na tradição de Friends, Seinfeld ou Kevin Can Wait (da qual ela, obviamente, tirou o seu título); e um drama de câmera única, fotografado em tons bem mais sóbrios e mudos, sem vestígio de reações sonoras da plateia. 

A mudança de um para outro acontece bruscamente, sempre que o tal Kevin do título (Eric Petersen) entra ou sai de cena. A ideia é mostrar que a vida de uma típica “esposa sofredora” de sitcom, aqui representada pela protagonista Allison (Annie Murphy, vencedora do Emmy por Schitt’s Creek), é na verdade um constante tormento, e portanto expor os moldes antiquados de relação vendidos por essas séries pelo que verdadeiramente são: a perpetuação de padrões machistas de abuso que existem e ferem pessoas também na vida real.

A ideia e a intenção da criadora Valerie Armstrong, portanto, são boas - mas a execução não é fácil. O diretor Oz Rodriguez (Vampiros vs. the Bronx), responsável pelos dois primeiros capítulos, é quem encara o desafio de estabelecer, antes de qualquer coisa, uma linguagem visual que funcione para essa premissa, e ele acerta em vários sentidos: no contraste entre as cores da fotografia, por exemplo, e na forma como os personagens precisam se mover de maneira diferente quando estão nas cenas à la sitcom tradicional (ficando sempre de frente para a plateia e para as câmeras), missão na qual Allison é apropriadamente menos habilidosa do que os colegas de “elenco”.

O que demora um pouco mais para a série encontrar é seu ritmo. Como a produção nos traz a perspectiva da esposa, as cenas de sitcom não são realmente feitas para serem engraçadas - as piadas não funcionam, e isso é intencional. No entanto, depois dos primeiros diálogos e subtramas de Kevin, a mensagem é recebida pelo espectador, e fica difícil entender a utilidade dessas cenas conforme os episódios se seguem. Kevin Can F**k Himself só realmente decola quando percebe que o seu truque satírico, embora afiado e necessário, importa menos do que a história que ela realmente está contando.

É aí que entra em cena a inicialmente improvável aliança entre Allison e Patty (Mary Hollis Inboden, sempre a melhor parte da série), sua vizinha e irmã do melhor amigo de Kevin, Neil (Alex Bonifer). Começando a história como uma típica “garota cool” (lembra do monólogo de Amy em Garota Exemplar?) que passa o seu tempo com os rapazes, mas nunca é realmente considerada “parte da turma” e precisa aguentar comentários condescendentes o tempo todo, Patty se torna cúmplice de Allison em seu plano para fugir do casamento abusivo, e as duas florescem diante dessa conexão feminina no inóspito mundo de testosterona onde vivem.

A showrunner Armstrong se agarra a essa conexão cada vez mais conforme a temporada, de oito capítulos ao todo, vai se desenvolvendo. Melhor ainda, ela não se rende à noção de que essa conexão precisa necessariamente ser platônica para valer como manifesto feminista - conforme Patty explora e descobre sua própria identidade queer durante a temporada, Kevin Can F**k Himself não tem medo de mergulhar na possibilidade de essas duas serem mais do que amigas uma para a outra. 

E isso não é um demérito à força da amizade feminina, mas um testamento à força das conexões e do senso de comunidade que podem ser construídos entre indivíduos oprimidos de todos os tipos, através de intersecções e identidades. Ao incluir mais essa camada à sua sátira esperta, Kevin Can F**k Himself mostra que veio para fazer mais do que "só" destruir os clichês machistas da sitcom - ela também tem uma noção muito boa do que construir no lugar deixado por eles.

Kevin Can F**k Himself
Em andamento (2021- )
Kevin Can F**k Himself
Em andamento (2021- )

Criado por: Valerie Armstrong

Duração: 1 temporada

Nota do Crítico
Excelente!

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