Justiceiro - 2ª Temporada

Créditos da imagem: Justiceiro/Netflix/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Justiceiro - 2ª Temporada

Frank Castle volta para a vida violenta em trama enrolada, sem muito para contar e com medo de ousar

Arthur Eloi
18.01.2019
17h51

A união da Marvel com a Netflix foi responsável por algumas das melhores séries de heróis da TV, mas é difícil deixar de lado que alguns erros aconteceram durante essa parceria, normalmente nas continuações.

Uma que se salvou disso foi Demolidor, que deu sequência em 2016 à aclamada temporada original com um confronto que não era apenas físico mas também ideológico, já que o Homem Sem Medo enfrentaria Frank Castle, o Justiceiro, em uma saga de capítulos que abordavam tanto as diferenças na metodologia dos dois vigilantes como o fato de que o violento ex-militar era, na verdade, um homem levado ao extremo pela morte de sua família. Foi uma ótima temporada pelas novidades, discussões e elementos narrativos apresentados, e isso só torna mais irônico ver que o segundo ano da série solo do Justiceiro é uma das que menos arrisca ou inova entre as demais.

O retorno do programa traz Castle (Jon Bernthal) tentando criar uma nova vida após ser perseguido por quase todas as instituições da lei norte-americana. Usando o nome de Pete Castiglione, ele viaja sem rumo pelo interior dos Estados Unidos, parando em um bar ao longo da estrada para ouvir música e até sair com uma mulher. É um dos raros momentos em que Castle parece feliz, tendo internalizado - mas não superado - seu luto pela esposa e filhos. Isso torna ainda mais trágico quando ele é puxado de volta para o seu cotidiano violento ao impedir um grupo de agressores de sequestrar uma menina.

Assim, após uma briga no banheiro do bar, Castle está de volta ao que era antes. É como se o Justiceiro existisse apenas por estar preso em um ciclo de violência. Ele quer sair, mas simplesmente não sabe como funcionar fora disso porque realmente gosta do que faz. É uma abordagem interessante, que já foi explorada nas HQs, mas cujo uso ainda é diferente o bastante no cinema e TV, onde o personagem sempre foi retratado como uma máquina de matar unicamente motivada pelo luto. Essa mudança, por menor que seja, é refletida em Bernthal bem mais confortável no seu papel, seja claramente aproveitando as cenas de luta ou sabendo como manter um efeito ameaçador até nos momentos mais calmos.

Assumir o prazer pela matança "humaniza" Frank, mesmo que de uma forma perturbada, já que novamente traz à tona a ideia do Justiceiro ser apenas um homem habilidoso e extremamente motivado. É o suficiente para que ele consiga criar laços com outras pessoas, como Amy (Giorgia Whigham), a garota resgatada. A amizade dos dois é truncada nos episódios iniciais, mas logo se desenvolve para uma relação de mentor e aprendiz que combina pitadas de humor com momentos assustadores, para não deixar o espectador esquecer o quão disfuncional o protagonista é. O único problema é que o arco poderia ser melhor explorado e ter mais destaque. Ao invés disso, a produção opta por ignorar os conflitos internos e sociais de Castle para colocá-lo contra alguns vilões.

O Inimigo Agora É Outro

O grande confronto prometido para a nova leva de episódios é entre o Justiceiro e o Retalho, seu antagonista desfigurado dos quadrinhos. Esse é, facilmente, o arco mais tedioso: Ao invés de assumir seu posto como um impiedoso chefão do crime, Billy Russo (Ben Barnes) perde toda sua memória após quase ser assassinado por Castle. É um mecanismo narrativo que mais atrasa a trama do que aprofunda o personagem, durando mais da metade dos capítulos (oito deles, para ser exato) sem oferecer nenhum tipo de perspectiva nova. Se a caracterização visual - uma piada, comparada aos quadrinhos e ao peso emocional que Russo dá à seu "rosto desfigurado" - não ajuda, a atuação de Barnes também não segura a barra. No passado o ator já provou que tira babacas e traiçoeiros de letra, seja em Westworld ou até mesmo no ano um de Justiceiro, mas ele não tem a carga emocional necessária para viver um criminoso instável e fora de si, o que resulta em inúmeras situações onde Retalho deveria parecer horripilante, mas que soa apenas histérico e meio bobo. Fica claro que a fórmula televisiva da Marvel de "zerar" os avanços dos personagens, ao invés de desenvolvê-los ao longo de temporadas já não funciona mais - até Frank Castle cresceu em Demolidor mas teve de retornar à amargura na estreia da sua série solo.

Outro mecanismo típico dos programas da empresa na Netflix é ter dois vilões por temporada. Se o Retalho é mal utilizado aqui, John Pilgrim (Josh Stewart) então sequer tem alguma importância. Nazista que tornou-se padre, ele parece saído de uma HQ de Garth Ennis, mas nunca consegue mostrar-se habilidoso, ameaçador ou revelar suas motivações e objetivos através de suas ações - essas, por sua vez, só são faladas nos episódios finais. Por quase toda a duração do programa, Pilgrim serve só como "O Grande Inimigo Que Está Perseguindo" Castle e Amy, uma desculpa para afirmar que existe uma "ameaça maior" que Russo, para garantir que a dupla esteja sempre fugindo e para fornecer homens para o Justiceiro matar. Curiosamente, Pilgrim ainda ganha uma luta contra o protagonista mais empolgante que qualquer uma das de Russo - mas, no fim, nenhum dos dois é marcante ou perverso o bastante para justificar acompanhar 13 horas desta narrativa.

A duração das séries da Marvel na Netflix é um ponto de debate entre o público, mas isso deixa de importar quando a trama é instigante e envolvente. Não é o caso da segunda temporada de Justiceiro, que mostra ter pouca história para contar em tanto tempo. A produção parece ainda ter dado um passo para trás em relação ao ano um, que ao menos tentou debater temas reais, a ética e eficiência dos atos do protagonista (mesmo sem ter se comprometido com qualquer posicionamento). Juntando isso com arcos tediosos, como o interminável entre Russo e sua psicóloga Krista (Floriana Lima), e também a surpreendente ausência de violência gráfica e cenas de ação memoráveis, o resultado é uma tediosa jornada de Frank Castle esperando que algo empolgante aconteça para lhe tirar da inércia.

Considerando a separação dramática entre a Disney e a Netflix, é triste pensar que a Marvel talvez não tenha outra oportunidade de entregar uma história do Justiceiro de Jon Bernthal no mesmo nível de excelência que foi sua introdução em Demolidor. No altamente improvável caso de esse não ser o fim, o jeito é torcer que Castle eventualmente ganhe as aventuras violentas e ousadas que realmente merece.

Nota do Crítico
Regular