Foto de Jessica Jones

Créditos da imagem: Jessica Jones/NetflixDivulgação

Séries e TV

Crítica

Jessica Jones - 3ª temporada

Encerrando a parceria Marvel/Netflix, temporada entrega um bom vilão e fala sobre os conceitos de heroísmo

Camila Sousa
24.06.2019
12h21

É curioso reparar as circunstâncias em que a terceira temporada de Jessica Jones foi feita. A série foi renovada em abril de 2018, época em que as produções da Marvel e Netflix ainda não tinham sido canceladas. Desde então, Punho de Ferro, Luke Cage, Demolidor e Justiceiro foram encerradas, deixando os episódios inéditos de Jessica Jones como o grande término de toda essa jornada. Mas o que poderia ser um ponto negativo se mostrou com pouca relevância. A terceira temporada de Jessica Jones é contida em si mesma, conta uma boa história e mostra todas as dores da vida de super-herói.

O primeiro episódio serve para situar onde cada um está, já que a segunda temporada foi exibida há mais de um ano. Jessica se envolve em casos pequenos e tenta ajudar as pessoas no caminho, enquanto lida com a raiva que sente de Trish, sua irmã adotiva que matou sua mãe no final do segundo ano. Já a personagem de Rachael Taylor começou a seguir o próprio caminho. Sem a irmã por perto para lhe ajudar, Trish treinou sozinha as habilidades que adquiriu no ano anterior. A execução destas cenas é meio boba, quase como se a personagem fizesse um “parkour de luxo” que ajuda em suas habilidades. Ainda assim, o ar comum do treinamento de Trish tem bastante a ver com o tema da temporada: qualquer pessoa, mesmo sem poderes, pode ser um herói?

Pelo lado de Jessica, esse tema é desenvolvido por meio da fragilidade. Acostumada a cuidar de todos, a personagem de Krysten Ritter precisa lidar pela primeira vez com os limites do próprio corpo. A vida de combater o crime, se alimentar mal e beber o tempo todo tornou Jessica Jones uma heroína frágil, uma constatação que a incomoda muito. Outra personagem que volta mais instável é Jeri Hogarth, feita por Carrie-Anne Moss. Com uma doença degenerativa cada vez desenvolvida, ela faz de tudo para continuar mantendo sua fachada de força, para que ninguém jamais duvide de suas capacidades. Todos esses pequenos arcos são pontuados por características clássicas do seriado: a trilha sonora com clima noir; as pequenas investigações e buscas por pistas e o humor irônico e sem paciência da protagonista, que rende ótimas cenas com Gillian, sua nova assistente interpretada por Aneesh Sheth.

O que é ser um herói?

Quem assiste Jessica Jones sabe que a protagonista afirma constantemente que nunca quis ser uma heroína, apesar de sempre deixar isso de lado e tentar ajudar. Tal conceito é explorado pelo novo vilão da temporada, Gregory Sallinger (Jeremy Bobb). Sem poderes e com raiva das realizações dos “supers”, Sallinger é frio e calculista e consegue adiantar os passos de Jessica como poucos. Isso faz com que ele se torne um oponente diferente, em comparação ao inesquecível Kilgrave (David Tennant), mas nem por isso menos perigoso. É a humanidade de Sallinger que faz Jessica recuar e errar muitas vezes.

Como se isso não fosse suficiente, a personagem de Ritter luta incessantemente ao ver a transformação de Trish. Jessica não se importa que a irmã tenha poderes como ela (ou diferentes), mas o caminho de vingança e ódio que a personagem percorre é uma das coisas mais dolorosas para Jessica. Mesmo torturada, sem os pais e sendo manipulada por Kilgrave, a protagonista sempre seguiu um código moral. Jessica talvez não seja a heroína mais carismática de todas, mas ela jamais comete uma injustiça intencionalmente. É exatamente por isso que a jornada de Trish, que começa querendo ser uma heroína, é o mais doloroso de toda a temporada. No fim das contas, a lição que fica é que qualquer pessoa pode ser um herói, mas nem todos aguentam o fardo e a responsabilidade que chega com os superpoderes.

O que enfraquece esta boa temporada de Jessica Jones é uma crítica antiga às séries da Netflix: 13 episódios com mais de 40 minutos cada é uma duração muito longa para uma história que poderia tranquilamente terminar no nono capítulo, quando um grande clímax acontece. Assim, a série segue o caminho de suas produções-irmãs e inventa reviravoltas mirabolantes, que não precisavam existir, para continuar até o capítulo 13. Dessa forma, a sensação ao terminar de assistir é que sim, Jessica Jones teve um encerramento digno em sua passagem pela Netflix, mas ele foi longo e cansativo demais.

Mesmo com esse ponto negativo, a terceira temporada do seriado trata conceitos como heroísmo e vingança de forma crua, assustadora e completamente real. Jessica chega ao final sabendo que não pode salvar a todos (nem mesmo o seriado), mas termina sua história de cabeça erguida sabendo que fez a coisa certa.

Nota do Crítico
Ótimo