Jack Ryan

Créditos da imagem: Amazon/Divulgação

Séries e TV

Crítica

Jack Ryan – 2ª temporada

Com foco na ação, série erra no desenvolvimento de personagens e esquece elementos positivos do primeiro ano

André Zuliani
11.11.2019
16h41
Atualizada em
11.11.2019
18h09
Atualizada em 11.11.2019 às 18h09

Quando o Amazon Prime anunciou que adaptaria as histórias de Jack Ryan, um dos personagens mais famosos do célebre autor Tom Clancy para o serviço de streaming, os amantes da cultura pop ficaram intrigados. Seria a quinta aparição do analista da CIA fora das páginas dos livros, interpretado anteriormente – sem muito sucesso – por Alec Baldwin, Harrison Ford, Ben Affleck e Chris Pine. A primeira temporada estreou em 2018 e recebeu elogios de público e crítica. Com John Krasinski (o Jim de The Office) liderando o elenco no papel principal, os oito primeiros episódios apresentaram uma trama concisa e cheia de características que fazem as histórias de espiões caírem nas graças dos fãs há várias décadas. 

O segundo ano começa algum tempo depois dos acontecimentos do final da primeira temporada. Jack Ryan se afastou do cargo de analista no quartel-general da CIA e trabalha no Capitólio ao lado do senador e ex-companheiro de combate no Afeganistão Jimmy Moreno (Benito Martinez). Jim Greever (Wendell Pierce), por sua vez, se transferiu para trabalhar na sede da agência localizada em Moscou.  Quando um satélite enviado ao espaço em território chinês apresenta uma forte ligação com armas contrabandeadas na Venezuela, Ryan e Greever são obrigados a trabalhar em conjunto novamente para descobrir o que (ou quem) está por trás desta conspiração. 

Diferente do agente nerd sem muita experiência em campo que conhecemos no ano anterior, os novos episódios apresentam um Ryan mais maduro e sem medo de ir para o combate. Krasinski está mais confiante no papel de protagonista de uma série de ação e se afasta cada vez mais do carismático personagem que aprendemos a amar em The Office. Sua química com Pierce continua em evolução e sendo um dos destaques da produção, com uma relação de mentor e aprendiz que se respeitam, mas nem sempre se bicam. Os showrunners Carlton Cuse e Graham Roland reutilizarem essa relação, que deu muito certo na temporada inicial, não seria surpresa, não fosse esse um dos poucos elementos que retornariam para o segundo ano. E é aí que começa o problema.

Além de Jack e Jim, apenas o bravo soldado Matice (John Hoogenakker) está de volta. Tão bem trabalhado anteriormente, o trauma em torno da experiência do protagonista durante a guerra no Afeganistão desaparece no segundo ano. Cathy Muller (Abbie Cornish), interesse amoroso de Ryan tanto nos livros quanto na primeira temporada, nem sequer é citada. 

Cientes de que a já tradicional batalha do bem contra o mal funcionou perfeitamente na caçada ao terrorista Suleiman (Ali Suliman), a dupla responsável pela série estabeleceu que o foco do novo ano fosse em uma história de suspense, com reviravoltas surgindo em quase todos os episódios. Apesar do esforço para sustentar tantos eventos, as muitas informações jogadas em tela dificultam a criação de uma empatia maior com os novos personagens. Apesar de grande parte de o conflito acontecer na Venezuela, nós vemos os heróis passando por Londres e de volta a Caracas sem nem absorvermos direito os acontecimentos na terra da Rainha. 

Mesmo que as cenas de ação tenham qualidades de uma obra cinematográfica, a agilidade no roteiro destaca que o importante mesmo são as perseguições nos topos de prédios e as trocas de tiros na selva venezuelana. Algo que, apesar da melhora nítida no papel, não favorece Krasinski. O amadurecimento de Ryan como agente de campo ainda não atingiu o nível de maturidade necessário para cumprir certas missões que a própria série estabeleceu. Seu jeito “certinho” o leva a tomar decisões que podem irritar até o menos exigente dos espectadores. Não à toa, Jim Greer criou o apelido de “escoteiro” para o analista.

O vilão da vez também enfrenta problemas para convencer. Jordi Mollá dá vida ao corrupto presidente Nicolás Reyes, em uma clara referência a Nicolás Maduro, líder do governo venezuelano fora da ficção. Apesar do esforço do ator para apresentar um personagem que realmente seja uma ameaça, em nenhum momento Reyes se diferencia do clássico antagonista latino que já vimos em diversas produções estadunidenses. O grande acerto com Suleiman na primeira temporada foi estabelecer camadas ao personagem. Mesmo que seja um terrorista sanguinário em busca da supremacia muçulmana em uma guerra contra o ocidente, entendemos os reais motivos que o levaram de um adolescente buscando ganhar a vida em Paris a um dos homens mais perigosos do mundo. A xenofobia fazia parte do status quo da série e retirava do libanês qualquer definição de “pura maldade”. Reyers, porém, fica na caricatura de um vilão comum que se importa apenas com o poder.

Com uma terceira temporada já garantida e a troca de Carlton Cuse por Paul Scheuring  como showrunner ao lado de Graham Roland, Jack Ryan tem potencial para resgatar os acertos do início e entregar uma história que faça jus ao legado de Tom Clancy e valorize o esforço de seus protagonistas.

Nota do Crítico
Regular