Pôster de Jack Ryan/ Divulgação/ Amazon

Créditos da imagem: Pôster de Jack Ryan/ Divulgação/ Amazon

Séries e TV

Crítica

Jack Ryan - 1ª temporada

John Krasinski entrega herói pontuado por fragilidades que é, simultaneamente, a pessoa certa para salvar o mundo

Rafael Gonzaga
06.09.2018
18h30
Atualizada em
06.09.2018
18h57
Atualizada em 06.09.2018 às 18h57

O célebre personagem criado pelo escritor  Tom Clancy nos anos 1980, ganhou seu quinto intérprete com a estreia da primeira temporada de Jack Ryan, nova série sobre o analista da CIA na Amazon Prime. Após ser vivido nos cinemas por Alec Baldwin, Harrison Ford, Ben Affleck e Chris Pine, quem carrega o bastão agora é John Krasinski, afastado do universo televisivo desde The Office, na esteira do sucesso Um Lugar Silencioso, estrelado, produzido e dirigido por ele. A primeira temporada da nova Jack Ryan mostra o protagonista largando o tédio do escritório e sendo atirado em campo após descobrir uma série de transferências bancárias no Iêmen que podem ser o rastro de um novo grande terrorista - é esse o ponto de partida para ele começar sua campanha para ser o novo queridinho entre os protagonistas de séries de espionagem que salvam todos nós.

O primeiro episódio não é exatamente carismático ou uma explosão de originalidade: Jack é introduzido ao público dentro da dinâmica clichê de funcionário dedicado que precisa provar ao novo chefe, Jim Greer (Wendell Pierce), de que é um profissional valoroso. Obviamente, ele mete os pés pelas mãos, o chefe apresentado como alguém arrogante ganha contornos de alguém que é, na verdade, experiente, e Jack precisa se redimir salvando o mundo. Em paralelo a isso a trama vai, aos poucos, criando contornos heróicos e humanizando Jack - seu ápice é compartilhar com o público o drama de um ex-fuzileiro naval que passou por um grande trauma na guerra e viu todos seus companheiros morrerem ao seu lado. Nada disso é realmente inédito, mas são lugares-comuns que, quando bem executados, funcionam.

Ao longo da trama, o ritmo melhora. Muito porque Krasinski tem a medida certa de carisma para compor o personagem. Jack é apresentado como um sujeito íntegro, incansável no exercício de sua profissão, motivado pelos motivos certos: o rapaz só quer salvar vidas. Mas, em contrapartida, ele não acredita ser um herói e isso fica claro logo no primeiro episódio, quando ele recusa embarcar para zonas de confronto por ser “apenas um analista” - além de tudo, veja só, é humilde. Em tempos de anti-heróis e de personagens complexos em relação às ambiguidades humanas, Jack Ryan é o resgate do mocinho mais tradicional possível, o que poderia ser um tiro no pé se Krasinski não desse conta de segurar as pontas.

Há uma dualidade na construção de Jack como um homem comum, com quem o espectador médio possa se identificar, e com uma figura messiânica, em quem meros mortais podem depositar toda sua esperança. Se eu um momento Jack está em uma festa falando sobre como seu emprego é tedioso, no outro está sendo buscado de helicóptero na mesma festa por oficiais do Estado para ajudar a salvar o mundo. Há outros personagens bem aproveitados na série como é o caso de Cathy Mueller (Abbie Cornish), o próprio James de Wendell Pierce ou, é claro, Matice (John Hoogenakker), que já foi promovido ao elenco regular para o garantido segundo ano. Há outros, contudo, que decepcionam em suas subtramas, como é o caso de Ali (Haaz Sleiman), que se torna uma muleta óbvia para justificar Suleiman (Ali Suliman).

Em relação ao tema, a série tem mais semelhanças com a atmosfera do filme mais recente do personagem, Operação Sombra - Jack Ryan, estrelado por Chris Pine em 2014, do que com os longas anteriores. Assim como no filme, a trama usa como pano de fundo os conflitos no Oriente Médio e as ações dos norte-americanos nessa região do mundo, tentando injetar complexidade nas relação entre esses dois agentes geográficos. A série assume ares de quem pretende apresentar uma lógica que fuja do maniqueísmo ocidental - toda a trama de Hanin (Dina Shihabi) está ali para tentar desconstruir justamente isso -, mas, ainda que não faça isso de forma infantil, não escapa do conto americano onde um extremista islâmico é o inimigo número um. Não é gratuito que o vilão da temporada seja chamado de novo Bin Laden desde o começo.

As cenas de ação da série são um prato cheio para os amantes de produções do gênero. A temporada é bem produzida e os momentos onde a guerra aflora são acima da média em relação aos recursos aplicados para garantir verossimilhança. Isso não é gratuito, é claro: cada episódio da primeira temporada custou US$ 8 milhões cada um e aproveitou cada centavo capturando tomadas de tirar o fôlego em lugares como Marrocos, França e Canadá. O papel de Jack nos momentos de tensão também é muito interessante. Apesar dele ser construído como um herói a série inteira, isso não faz dele intangível: ele não é o super-homem e sente, sim, medo.

É essa balança precisa onde em um momento Jack é um lago de fragilidade ao compartilhar seus traumas e suas culpas, e no instante seguinte ele é a única pessoa certa para salvar o mundo que faz com que o saldo de Jack Ryan seja positivo. A série não se exime em brincar com bichos-papões do mundo real: a primeira temporada cria um Frankenstein de terrorismo, doenças mortais e até contaminação radioativa para fazer o público sentir que a ameaça enfrentada é real e perigosa. Carlton Cuse e Graham Roland, dupla de criadores da série, só não alcançam mais sucesso pela essência do material utilizado como base não ser algo realmente genial em 2018. Contudo, a dupla consegue dar fôlego e contemporaneidade ao tema, entregando uma jornada bem construída tanto do ponto de vista técnico quanto criativo.

Nota do Crítico
Ótimo