Industry atinge a maioridade com 4ª temporada sombria e pulsante
Série da HBO deixa o Pierpoint para trás em novo ano ambicioso, pesado e viciante
Créditos da imagem: HBO
Assistir à quarta temporada de Industry é olhar para o buraco negro que consome a alma do ser humano quando este se apega demais ao dinheiro, sucesso e status. Numa espécie de segundo ato para a série da HBO, deixando para trás o banco Pierpoint e abraçando toda a indústria (e política) financeira do Reino Unido como campo de jogo, os criadores Mickey Down e Konrad Kay desenham uma babilônia moderna, onde há abundância de recursos e perversidade. Essa é a temporada mais sombria, adulta e pesada até aqui. Para o espectador, ela também é um prazer e um espetáculo.
Dos cinco jovens que protagonizam o primeiro episódio da série, só dois permanecem nos holofotes. Yasmin Hanani Muck (Marisa Abela), agora casada com o herdeiro Henry Muck (Kit Harrington, promovido ao grau de protagonista e interpretando o homem mais patético que você já viu), e Harper Stern (My’hala). Para a alegria dos fãs, Eric Tao (Ken Leung) e Rishi (Sagar Radia) seguem por perto, assim como adições mais recentes como a analista Sweetpea Golightly (Miriam Petche). Mas, ao começar a assistir a essa nova temporada — focada em fintechs, pagamentos e conspirações políticas — o fã da série precisará se reorientar. O tabuleiro está totalmente diferente.
Industry, antes descrita pelos criadores como “a trilogia Pierpoint”, agora atingiu a maioridade. Claro, a série ainda pulsa com a trilha sonora de Nathan Micay, ainda conta com um elenco que justifica cada vez mais a declaração de que esta é a “primeira grande série de escritório da Gen Z”, e ainda voa com as cenas mais sexy, intensas e inesperadas da televisão atual. Drogas, sexo e bebida seguem presentes. Dinheiro, nunca falta. Mas se antes essas coisas pendiam para a empolgação, agora, elas sugerem uma escuridão permeando a experiência de todos os personagens.
Não é que Konrad e Kay agora demonizam tudo isso. Ainda há momentos de intimidade e carinho (veterano de Ted Lasso, Toheeb Jimoh é um raio de bondade muito bem-vindo neste novo ano), mas cada vez mais, fica claro que a despedida agridoce de Rob (Harry Lawtey) na temporada anterior foi uma misericórdia. Se estes personagens se graduaram de Pierpoint, então seu presente de formatura é um choque de realidade daqueles. Bem-vindos à vida adulta.
Pode parecer redundante falar isso de algo que, desde o começo, se anunciou como um drama digno daquele rótulo de “séries adultas” da HBO, mas a virada da chavinha aqui foi perceptível. Novas figuras entram na vida de Yasmin, Henry e Harper para levar seus dramas pessoais a níveis mais perigosos e arriscados. Veja Whitney Halberstram (Max Minghella, num papel que conversa com seu trabalho em A Rede Social), fundador da Tender, uma empresa estilo PayPal que não quer mais trabalhar com a Siren, uma espécie de OnlyFans do universo de Industry. Inicialmente apresentado como o mais íntegro dos dois gênios por trás da Tender (o ótimo Kal Penn faz seu colega depravado), Whitney logo se revela como o maior algoz da história até aqui, combinando os piores instintos (profissionais e pessoais) possíveis com uma ambição sem limites.
Whitney abre espaço para alguns dos acontecimentos mais graves de Industry até aqui. O tipo de coisa que não poderia acontecer sem que a série estivesse mais disposta do que nunca a abordar o lado mais feio e poderoso da economia britânica — um universo antes inalcançável para os jovens que acompanhamos, mas cujas portas foram gradualmente se abrindo ano após ano para eles. O mesmo pode ser dito do que vemos com Jim Dycker (Charlie Heaton, no primeiro papel pós-Stranger Things), um jornalista financeiro que enfia o nariz em locais perigosos, como na vida de Hayley Clay (Kiernan Shipka), uma assistente na Tender que eventualmente ganha ares de femme fatale e nos leva às cenas mais tristes de todo o seriado. E assim vai. Há mais políticos, mais bancos, mais países e mais nazistas.
Por trás disso tudo, Industry segue com uma missão clara: dramatizar o quão intoxicante e perigosa é a vida de quem aposta com milhões. Se a vibe da série mudou, sua qualidade e visão permanecem intactas. O roteiro segue disposto a tomar caminhos imprevisíveis, e continua praticamente impossível dizer o que acontecerá no próximo episódio, ou até na próxima cena. Os arcos de personagens mais parecem montanhas russas, e essas subidas e descidas se mantém devido ao patamar alcançado pelo texto – afiado, ágil e preciso – e pelo elenco, que cresce com o material em toda instância. Não há um ator deste elenco que tenha atuado melhor em outro momento de suas vidas. Konrad e Kay não só tiram o melhor de seus colaboradores, como estão claramente evoluindo como diretores. Seus campos são mais criativos e ousados, seu controle de tom mais equilibrado e sua criatividade visual mais palpável.
Na verdade, algumas viradas na segunda metade da temporada (o Omelete já assistiu aos oito episódios) só se sustentam devido à excelência com a qual são executadas. Jamais ousaremos entrar em spoilers, mas é justo dizer que Konrad e Kay ganharam coragem para mirar em alvos mais distantes e menos ortodoxos. São alvos que, sem uma mira precisa, podem arruinar tudo. Felizmente, Industry continua acertando na mosca.